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Como lidar com momentos de agressividade de crianças e adolescentes

Comportamento pode ser uma reação a frustrações, raiva ou medo, é compreensível que tenha sido amplificado na pandemia - iStock
Comportamento pode ser uma reação a frustrações, raiva ou medo, é compreensível que tenha sido amplificado na pandemia Imagem: iStock

Claudia Dias

Colaboração para Universa

05/07/2021 04h00

Momentos de agressividade e irritação são comuns entre crianças e adolescentes mas com pandemia essas situações tem ocorrido com mais frequência em alguns famílias. O cenário é complicado, difícil de lidar e leva muitos pais e cuidadores a terem dúvidas infinitas, desde questionamentos sobre o que há por trás das condutas coléricas até a maneira adequado para agirem.

Nesse contexto, o primeiro e importante passo é tentar entender as razões da reação. "Partimos do pressuposto de que a agressividade é inerente à condição humana. Somos agressivos de forma instintiva e socialmente, pois nossa sociedade estimula a agressividade. Sendo assim, algum nível de agressividade é esperado, seja na fala ou nas ações", afirma Marjorie Rodrigues Wanderley, psicóloga e professora da Estácio Curitiba.

Segundo ela, trata-se de uma reação natural à frustração, à raiva e até mesmo ao medo. Por isso, nem toda manifestação agressiva precisa ser contida. "Mas quando passa a afetar outras pessoas ou animais, podendo machucar ou magoar, precisa intervir e buscar ajuda", afirma Marjorie, que é mestre em Psicologia Clínica.

Outro ponto bem importante é não confundir agressividade com um momento de raiva. "O que chamamos de agressividade costuma ser um conjunto de atitudes reconhecidos como tal, mas é um equívoco associá-la à raiva. Agressividade é um comportamento e raiva, uma emoção. As duas não andam, obrigatoriamente, juntas", pontua Phelipe Ribeiro, psicólogo e consultor pedagógico do Laboratório de Inteligência de Vida (LIV).

Como a agressividade se manifesta

Como afirma Wimer Bottura Junior, médico psiquiatra especializado especialização em Psiquiatria Infantil e presidente do Comitê de Adolescência da Associação Paulista de Medicina, as manifestações de agressividade variam nas diferentes fases de vida da pessoa.

"Na criança que ainda não desenvolveu plenamente a fala, nem tem a capacidade de se movimentar, a manifestação será por meio do choro. Caso não tenha sua necessidade atendida, desenvolverá sintomas ou até mesmo doenças corriqueiras", cita.

Com aquelas que já são capazes de se movimentar, poderão surgir mordidas, quebra de objetos e birras. Já em idade escolar, poderão surgir problemas comportamentais com outras crianças, destruição de material escolar, bullying, ansiedade, vontade exagerada de comer doce e sintomas físicos.

Enquanto isso, na adolescência, ocorrem rebeldia sem causa, destruição de objetos, agressões a irmãos mais novos. "Se os pais valorizam muito os estudos, a manifestação será no estudo; se valorizam comportamento submisso, os filhos serão rebeldes; se são moralistas em excesso, o adolescente terá comportamentos que os provoquem", exemplifica Wimer.

Quando a situação envolve a escolha adolescente por atividade extremas, radicais com alto risco, vale considerar a possibilidade da agressividade ser manifestação de transtornos, como: depressão, bipolaridade, comportamento borderline, entre outros.

Atitude aponta para sofrimento

Phelipe Ribeiro lembra que a agressividade sempre quer dizer algo, pois é parte da linguagem, ou seja, da expressão de uma reação. "Dizemos muitas coisas sem abrir a boca e a agressividade faz parte desse 'vocabulário' não vocalizado", salienta.

Mas toda manifestação bruta, seja verbal ou física, aponta para alguma forma de sofrimento, como lembra Marjorie. "Muitas vezes é a reação a algum processo de violência que a criança ou adolescente está passando", comenta. Por isso, há a necessidade de investigar se está rolando bullying ou mesmo problemas em casa.

Outra causa muito comum é a manifestação colérica a partir de modelo, isto é, quando a criança ou adolescente vê dentro de casa ou em outros ambientes a agressividade sendo utilizada para resolver problemas. "Dessa forma, aprende que é uma resposta válida. Isso é muito comum com filhos que são educados de forma punitiva e acabam aprendendo que é a partir da violência que conseguem o que querem", opina Marjorie.

Um terceiro fator bastante comum é o de reforço social, o que envolve principalmente os meninos. "Por questão cultural, é esperado que eles sejam agressivos. Muitas vezes esse comportamento é visto como expressão de masculinidade saudável, o que não é verdade", ressalta a psicóloga.

Influência do ambiente

Os pais podem influenciar a agressividade dos filhos através dos exemplos que dão, mas isso não é regra, conforme salienta Phelipe Ribeiro. "Um exemplo reiterado 365 dias por ano pode ser ignorado ou interpretado ao avesso por uma criança e um exemplo pontual e episódico pode se 'solidificar' na memória dela, de modo a ganhar sentidos mais profundos", argumenta.

Mas se existe a possibilidade do ambiente familiar agressivo contribuir para um comportamento semelhante por parte dos filhos, não se pode afirmar o mesmo sobre jogos, filmes e séries que envolvam violência.

"Eles costumam se interessar por esse assunto ao longo da vida. Se identificarem personagens do mal e souberem, de modo saudável, separar a ficção da realidade, não há problema. Isso faz parte do desenvolvimento esse comportamento", analisa Deborah Moss, neuropsicóloga mestre em Psicologia do Desenvolvimento.

Há que se considerar, também, o ambiente externo como fator de influência, bem como as circunstâncias em que a agressividade se manifesta. "Um filho não terá, necessariamente, o comportamento agressivo em todos os lugares. É comum que um menino seja agressivo verbalmente com os amigos, mas não com a família, porque no contexto social essa agressividade é reforçada pelo próprio papel social, o que não acontece dentro de casa", exemplifica Marjorie.

Quando ocorre o contrário - ou seja, essa agressividade aparece dentro de casa mas não em outros ambientes -, é preciso avaliar possíveis desencadeadores no ambiente doméstico. "Pode ser ciúme de um irmão, tentativa de dominar o território e forma de chamar atenção dos pais para um sofrimento", cita a especialista.

Acolhimento e diálogo são melhores saídas

Os adultos da casa devem guardar ou tratar os próprios sentimentos raivosos e agressivos, reflexos da reação dos pequenos. Só quando isso estiver bem controlado é que devem acolher e abrir o diálogo com as crianças e os adolescentes. "Se os pais reagem à agressividade com agressividade, por meio de castigos, broncas ou palmadas, estão justamente validando a agressividade como uma forma possível de resolver um problema. Acaba gerando o efeito contrário ao esperado", avisa Marjorie.

No entanto, se os cuidadores conseguem transformar o que sentem em acolhimento e diálogo, além de oferecerem um modelo diferente, acabam abrindo espaço para encontrar as raízes dessa agressividade e resolver o problema, de fato.

Diante das descobertas com a conversa, é preciso agir. "Se o filho estiver passando por algum sofrimento, deve-se buscar ajuda. Se está passando por alguma violência, é necessário intervir. Se está sendo valorizado socialmente por se mostrar agressivo, é hora de conversar sobre as consequências dessa agressividade e sobre como ele pode acabar machucando alguém", ensina Marjorie.

Deborah Moss, por sua vez, acrescenta que o agredido pela criança e adolescente, inclusive se forem os pais, devem revelar como se sentiram frente à ação e ajudar o pequeno agressor a encontrar outras maneiras de demostrar o que está vivendo. "Todos nós temos o direto de sentir raiva, ódio, mas não podemos faltar ao respeito em nome dos nossos sentimentos. Isso é educar: acolher, mas ao mesmo tempo estabelecer regras e limites na convivência com as pessoas", opina. Vale lembrar que escolher educar em vez de punir não anula a necessidade de deixar claro que o comportamento agressivo não será aceito.

E já que esse comportamento pode ser uma reação a frustrações, raiva ou medo, é compreensível que tenha sido amplificado pelo momento pandêmico, justamente porque muito do que ajuda a minimizar - convívio social, prática de esportes, suporte da escola, por exemplo - não são indicados neste período, aumentando a ocorrência do comportamento agressivo.

Nesse contexto, aliás, Wimer Bottura Junior lembra que esportes são ótima ajuda, não apenas pela questão do movimento, mas pelo "aspecto da catarse". "Artes marciais são bem interessantes, principalmente pelas suas filosofias, que mostram a importância de evitar confrontos e, também, por procurarem fortalecer a personalidade em vez de estimular brigas", comenta.