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Mulheres inspiradoras

Após 53 anos, Aída dos Santos enfim recebe seu uniforme olímpico

Aída dos Santos foi a única mulher nas Olimpíadas de Tóquio em 1964 - Divulgação
Aída dos Santos foi a única mulher nas Olimpíadas de Tóquio em 1964 Imagem: Divulgação

Luiza Souto

De Universa

04/07/2021 04h00

De sua casa em Niterói, região metropolitana do Rio de Janeiro, Aída dos Santos, 84 anos, quase pula da cadeira tamanha empolgação com a proximidade das Olimpíadas de Tóquio, dia 23. Afinal, o evento vai acontecer no mesmo país no qual ela fez história ao ser a única mulher a representar o Brasil na competição, em 1964. Naqueles jogos, ela se tornou a primeira brasileira a disputar uma final olímpica.

Aída, que conquistou o quarto lugar no salto em altura, enfrentou inúmeras adversidades para competir, dentre elas a falta de uniforme, tênis apropriado e até mesmo de um treinador. Mês passado, num gesto de reparação e reconhecimento, ela recebeu um uniforme que deveria ter usado na época, feito pela rede de produtos esportivos Centauro. "Foi muito importante, porque não tinha esperança nenhuma de receber. Na hora, vieram muitas lembranças, como a do momento em que conquistei o índice e vi que não tinha uniforme para viajar para as Olimpíadas. Foi uma mistura de felicidade e tristeza. Quase mataram a velha", relembra, aos risos.

O "Uniforme que Nunca Existiu" vem com um collant de treino, jaqueta e calça. Ele foi feito pela estilista do ModAtivismo Carol Barreto, inspirado na trajetória da ex-atleta, e entregue na pista de atletismo do Estádio Olímpico Nilton Santos, o Engenhão, na zona norte do Rio de Janeiro. Foram produzidas 20 peças exclusivas, que podem ser encontradas no site da marca. A receita será revertida para 13 ONGs.

"A Olimpíada é o mundo"

Aída só lamenta mesmo a falta de um grande público no torneio no Japão. Por conta da pandemia, o governo japonês limitou o máximo de 10 mil espectadores em cada sede, mas com um alerta para a possibilidade de competições com portões fechados. "A Olimpíada é o mundo. Você pode ser campeão mundial, mas ser campeã olímpica marca mais. Olha o exemplo da Fabiana Murer [salto com vara]. Foi campeã mundial duas vezes, mas foi a três Olimpíadas e não se classificou", observa.

Foram muitas as marcas que os Jogos Olímpicos deixaram na vida da ex atleta, do machismo ao orgulho de ter alcançado o melhor desempenho de uma brasileira em olimpíadas por 32 anos — o feito só foi superado em 1996 pela dupla de vôlei de praia Sandra e Jaqueline que conquistou o ouro nos Jogos de Atlanta. Além de ter participado das edições de 64 e 68, a relação com os jogos seguiu na família: Aída é mãe de Valeskinha, medalhista de ouro pelo vôlei brasileiro em 2008.

"Investi no esporte a contragosto dos meus pais e cheguei a apanhar"

Aída dos Santos jogava vôlei antes de conhecer o atletismo - Arquivo Folha - Arquivo Folha
Aída dos Santos jogava vôlei antes de conhecer o atletismo
Imagem: Arquivo Folha

Quando entrou numa pista de corrida pela primeira vez, Aída tinha apenas ouvido falar em Adhemar Ferreira da Silva, o primeiro bicampeão olímpico do país, ouro no salto triplo em Helsinque (1952) e Melbourne (1956). Até então ela praticava vôlei e "bolinha de gude antes do pai chegar em casa".

Mas assim que correu pela primeira vez, tomou gosto pelo atletismo e não saiu mais das pistas. Atuou no Fluminense, Vasco e Botafogo, tudo a contragosto dos pais, que achavam que o esporte não lhe daria futuro. Na primeira competição que ganhou, apanhou do pai, e ouviu que medalha não enchia a barriga. Aída era a caçula de seis irmãos. A família toda - e mais dois primos -, morava no Morro do Arroz, uma comunidade de Niterói. Muitas vezes ia para a escola "desmaiada de fome" porque não tinha nem o que tomar no café da manhã, e trabalhava em casa de família para ajudar no pão.

"Lembro que quando era atleta do Vasco, o clube me dava dinheiro para passagem para ir treinar, mas eu usava para tomar café e não ia ao treino. Mesmo assim, o técnico e o dirigente me buscavam em casa para competir e eu ganhava. Quando chegava em casa, minha mãe falava: 'Esse tal de atletismo é fácil, porque você não foi treinar e está com medalha'. Não tinha noção, né?"

Aos 27 anos, conquistou o índice olímpico da época, ao saltar a 1,65 metro, mas o Comitê Olímpico Brasileiro a fez repetir a seletiva mais cinco vezes. Para ela, um sinal claro de machismo: "Certamente foi pelo fato de ser mulher, porque alcançar índice é só uma vez. Mas quando consegui, eles se viram obrigados a me levar."

Só que faltava tudo para a atleta seguir para o outro lado do mundo. Ela estava sem técnico, sem uniforme de competição, sem sapatilha, sem apoio em casa e do próprio comitê organizador. Sequer tinha roupa para a cerimônia de abertura. Eram muitos fatores jogando contra.

"Um técnico de atletismo falou para mim, no aeroporto: 'Boa viagem, mas você não vai se classificar'. Eu só agradeci."

"Uniforme que Nunca Existiu" vem com um collant de treino, jaqueta e calça - Divulgação/Theo Lobarinhas Piñeiro Filho - Divulgação/Theo Lobarinhas Piñeiro Filho
"O Uniforme que Nunca Existiu" vem com um collant de treino, jaqueta e calça
Imagem: Divulgação/Theo Lobarinhas Piñeiro Filho

Mas Aída foi à luta, frase, aliás, que repete a cada vez que encara um adversário. Como treinava no Botafogo na época, tomou emprestado o uniforme de treino de cor cinza do clube carioca. E para a abertura do evento, usou um outro uniforme que tinha usado dois anos antes numa competição. Um atleta cubano lhe arrumou uma sapatilha.

Tipo de incentivo que não recebeu dos seus colegas brasileiros: quando passavam por Aída na Vila Olímpica, alguns dos outros 68 competidores homens debochavam de sua condição, e a chamavam de "turista", como se ela só estivesse ali a passeio: "Estavam me incentivando sem saber, porque eu pensava: 'Vou mostrar a eles quem é turista'".

Aída foi avançando na competição, mas antes da final torceu o pé num dos treinos. Ao ver a atleta mancando, a cubana Miguelina Cobián, prata nos Jogos de 1968 no revezamento de 4x100 metros, lhe conseguiu um médico e, mesmo com uma bota de gesso saltou 1,74 metro, dois centímetros a menos que o bronze. Aída e Miguelina se reencontraram nos Jogos Pan-Americanos no Rio (2007), e foi a vez da brasileira retribuir a ajuda.

"Trabalhei no Pan-Americano e nos encontramos. Até a convidei para almoçar na minha casa, mas aconteceu de dois atletas cubanos fugirem [três atletas e um técnico desertaram dos Jogos numa tentativa de fugir do então governo Fidel Castro] e toda a delegação teve que ir embora antes do tempo. Ela precisava de dinheiro e consegui dar um pouco."

Aída dos Santos conduziu a Tocha Olímpica no Rio, em 2016 - Rio 2016/André Luiz Mello - Rio 2016/André Luiz Mello
Aída dos Santos conduziu a Tocha Olímpica no Rio, em 2016
Imagem: Rio 2016/André Luiz Mello

"Não quis homenagens, precisava desse apoio antes de viajar"

Ao voltar ao Brasil, Aída teve a sua disposição um carro de Bombeiros para desfilar do aeroporto até a avenida Presidente Vargas, no Centro do Rio de Janeiro, mas dispensou. Disse que aquele gesto havia chegado tarde.

"Um repórter ainda queria me acompanhar na barca, do Centro até Niterói, e falei que jogaria ele dentro d'água se fosse comigo. Precisava desse apoio antes de viajar. Se eu tivesse feito zero ponto na competição ninguém teria me procurado", ela aponta.

Em casa, a família agiu como se nada tivesse acontecido. Mas ela seguiu treinando e conquistando títulos — Aída foi campeã estadual, brasileira, sul-americana e pan-americana de salto em altura. Voltaria às Olimpíadas do México em 1968, mas uma distensão no joelho durante um treino atrapalhou seus planos e ela ficou em 20° lugar no pentatlo.

"Eu pulava 1,70 metro, e só consegui chegar a 1,40 metro", lembra ela, que conquistou o bronze nos jogos pan-americanos de Winnipeg, no Canadá, e de Cali, na Colômbia, com o pentatlo.

Cortada das Olimpíadas por falar a verdade

Estava tudo pronto para Aída participar de sua terceira Olimpíada, na Alemanha, quando foi cortada. Segundo a atleta, a eliminação aconteceu após dar uma entrevista para o programa Flávio Cavalcanti, na TV Tupi, em que confirmou a falta de material e apoio em Tóquio:

"Ainda falei [para o comitê organizador]: 'Vocês me cortaram pela entrevista que eu dei, né? Pois se me entrevistarem de novo falarei a verdade."

Aída assistiu de casa aqueles jogos, marcados pela invasão de um grupo de terroristas palestinos à Vila Olímpica de Munique, e que terminou na morte de 18 pessoas, entre atletas israelenses, criminosos e policiais. Naquela época, grupos palestinos programaram uma série de atentados terroristas contra alvos judaicos.

"Meu lugar é onde eu quiser"

Durante toda a carreira no esporte, Aída conta que sofreu inúmeros ataques racistas. Ainda na escola, montou equipes de vôlei no colégio, e levou esses grupos a campeonatos estudantis. Num dos jogos, ouviu gritos preconceituosos da arquibancada. Esperou a partida acabar e devolveu com classe.

"Era a única negra em quadra e gritaram da arquibancada: 'Sai daí, crioula. Seu lugar é na cozinha'. Quando terminou o jogo, pedi o microfone e falei: 'Meu lugar é na cozinha sim, na varanda, no quarto, na sala, mas também na quadra de esporte.'"

Uma vez, na Espanha, as pessoas me apontavam, pegavam no meu braço, perguntavam se eu morava junto aos macacos, esfregaram minha pele para ver se a cor saía.

Além de todos os obstáculos superados dentro das pistas, Aída deu ainda inúmeros saltos fora dela: concluiu três faculdades, de geografia, educação física e pedagogia. Foi professora de educação física na UFF (Universidade Federal Fluminense). E pode, enfim, ajudar a família, o que vale muito mais do que uma medalha de ouro.

"Na época das aulas meu pai mandava gente lá em casa me chamar pra fazer serviço, inclusive de ajudante de pedreiro, mas eu não ia para poder estudar, e ele me batia muito. Apanhei muito, mas depois eu que sustentava a família. Ajudei todo mundo, até sobrinhos."

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