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"Fui funkeira, hoje sou caminhoneira. Temi perder clientes por ser trans"

Marcela Porto tem 46 anos e é dona de uma empresa transportadora de minérios - Divulgação/Allan Bertozzi
Marcela Porto tem 46 anos e é dona de uma empresa transportadora de minérios Imagem: Divulgação/Allan Bertozzi

Marcela Porto em depoimento a Mariana Gonzalez

De Universa, em São Paulo

03/07/2021 17h39

"Nasci em Campos dos Goytacazes (RJ), numa família de caminhoneiros. Meu pai era o melhor da região, mas ele faleceu quando eu tinha 2 anos. Éramos uma família muito pobre e, com a morte do meu pai, fomos morar no Rio de Janeiro, numa favela de casas de pau a pique, que passava o esgoto por baixo.

Meus irmãos mais velhos são todos caminhoneiros e, conforme fui crescendo, fui aprendendo com eles. Temos diesel na veia. Aos 12 anos, peguei um caminhão carregado pela primeira vez, escondido claro. Deixei cair num buraco, tomei uma coça dos meus irmãos, mas percebi que gostava de dirigir.

Quando fiquei mais velha, fui para os Estados Unidos, tentar a vida na Flórida, onde consegui meu primeiro emprego dirigindo caminhão. A ideia era juntar dinheiro e tirar minha mãe da pobreza. Nesta época, eu ainda estava de boy [se referindo ao período antes da transição de gênero].

Pouco antes de voltar ao Brasil, participei do concurso Miss Brasil Gay, nos Estados Unidos. Uma amiga sugeriu que eu tentasse, mas fiquei insegura. Não acreditava que poderia ganhar e tinha que comprar roupa, sapato, peruca — não queria investir sem ter certeza do retorno. Por isso, seis amigas se juntaram, uma emprestou vestido, outra calçava 40 e emprestou sapato, outra me maquiou, e eu me inscrevi.

Como o concurso aconteceu numa comunidade brasileira na Flórida, decidi cantar funk. Cantei "Dako É Bom", da Tati Quebra Barraco, que estava bombando naquela época. No final, ganhei o título e o prêmio de US$ 5 mil.

"Mundo artístico pe ingrato, mas o caminhão é meu porto seguro, é de lá que tiro meu sustento" - Divulgação/Allan Bertozzi - Divulgação/Allan Bertozzi
"Mundo artístico pe ingrato, mas o caminhão é meu porto seguro, é de lá que tiro meu sustento"
Imagem: Divulgação/Allan Bertozzi

Juntei esse dinheiro com o que eu já tinha guardado, voltei para o Brasil e comprei meu primeiro caminhão. Era velhinho, mas eu amava. Além de dirigir, também vendia material de construção. A situação financeira foi melhorando, melhorando, e decidi fazer minha transição de gênero.

Essa fase é uma metamorfose. Eu tinha muita vergonha da aparência. Não podia colocar roupa de mulher, que chamava atenção. Então, nessa época, comecei a usar a arte como drag queen para disfarçar. Eu me montava e cantava na Furacão 2000 [gravadora e produtora carioca que fez sucesso com shows de funk], cantando como Mulher Abacaxi.

Cantava, fazia shows, fotos, até capa de revista. Quando fazia fotos para capas de CD, não colocavam meu nome, Mulher Abacaxi, para as pessoas não saberem que era uma mulher trans ali. O preconceito era enorme, se soubessem, não ia vender, então eu posava como se fosse qualquer outra modelo da internet.

Mas, mesmo durante o auge da carreira artística, nunca deixei meu caminhão de lado. Fazia as duas coisas ao mesmo tempo. Virava a noite em show, ia para casa, tomava banho e ia para o areial cheia de brilho porque aquele glitter não saía por nada. O caminhão é meu porto seguro, é de lá que tiro meu sustento, porque o mundo artístico é muito ingrato.

"Minha família sempre me apoiou. Me sinto privilegiada"

Há cinco, seis anos, perdi minha mãe. Ela era minha inspiração, me incentivava. Depois que ela se foi, deixei a carreira artística e passei a me dedicar só à empresa, que já existia, mas ainda era pequena.

Hoje vivo só pela empresa [Marcela é dona de uma transportadora de minérios]. Acordo 4h30, saio às 5h. Eu trabalho no meio de um monte de home, chefio 10 funcionários aqui na empresa. Levo pão, tomo café aqui com os meninos e não tenho hora para voltar, tudo depende da rotina de trabalho.

Marcela é filha e irmã de caminhoneiros - Divulgação/Allan Bertozzi - Divulgação/Allan Bertozzi
Marcela é filha e irmã de caminhoneiros
Imagem: Divulgação/Allan Bertozzi
MArcela porto - Divulgação/Allan Bertozzi - Divulgação/Allan Bertozzi
Ela dirigiu pela primeira vez aos 12 anos
Imagem: Divulgação/Allan Bertozzi

Se um funcionário falta, eu ajudo a carregar o caminhão. Às vezes, os meninos precisam ir a um lugar de ruas estreitas, que tem manobras difíceis para fazer, eu vou junto. Afinal, se fizer alguma besteira, é o meu caminhão.

Em 2020, tirei minha carteira na categoria E, que é a mais alta, que permite dirigir carreta. Acho que, no Brasil, sou a única mulher trans carreteira.

Eu tinha medo, fiz minha transição já velha, com 30 e poucos anos, porque eu tinha muito medo de não ser aceita pelos outros caminhoneiros, de perder clientes. Mas não me lembro de ter sofrido transfobia. Se eu disser que sofri, estarei mentindo. Nunca fui humilhada e nem me trataram mal.

Meu sócio é pastor de uma igreja e nunca tivemos problemas por conta da transexualidade. Na verdade, nem sei se ele sabe que eu sou trans, não tem por que falar sobre isso no trabalho.

Tenho 46 anos. Antes, eu escondia a idade, mas já passei dessa fase. Ainda mais depois da pandemia, estar viva é uma dádiva e tenho orgulho da minha idade.

Me sinto privilegiada. Minha família sempre me apoiou, graças a Deus. Muitas mulheres como eu não estão no mercado de trabalho e vão para a prostituição, porque não têm outra opção: elas têm fome, não têm emprego e não podem ir para a casa da mãe porque vão apanhar. Até para começar uma profissão, tem que ter ajuda, apoio das pessoas.

Eles são os primeiros a me defender, assim como meu marido. Sou casada há 7 anos, ele trabalha comigo e nosso sonho é adotar uma criança." Marcela Porto, 46 anos, caminhoneira e dona de uma empresa transportadora de minérios, do Rio de Janeiro

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