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Leandra Leal: "Sempre fui criticada por me posicionar demais"

Leandra Leal chamou a atenção nas redes sociais com uma série uma série de vídeos orientando sobre o uso correto de diversos tipos de máscara - Divulgação/Guilherme Burgos
Leandra Leal chamou a atenção nas redes sociais com uma série uma série de vídeos orientando sobre o uso correto de diversos tipos de máscara Imagem: Divulgação/Guilherme Burgos

Mariana Gonzalez

De Universa, em São Paulo

24/06/2021 04h00

Nas redes sociais, Leandra Leal não esconde críticas ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) por questões ambientais, combate ao racismo e à LGBTfobia e, mais recentemente, crise sanitária. Mês passado, ela e o marido, o fotógrafo Guilherme Burgos, chamaram a atenção nas redes sociais com uma série de vídeos curtos orientando sobre o uso correto de diversos tipos de máscara de proteção. Em entrevista para Universa, Leandra disse que a campanha "Vacinas Salvam Vidas" foi a forma que ela encontrou de "ajudar nessa situação insustentável", mas que, na verdade, isso deveria ter sido feito pelo governo.

A atriz de 38 anos nasceu junto com a redemocratização e tinha 7 anos quando o Brasil votou para presidente pela primeira vez depois da ditadura militar. Filha da também, atriz Ângela Leal, Leandra cresceu rodeada de artistas e em meio a discussões políticas importantes. Ela, que já sofreu críticas por se posicionar politicamente, acha positivo ver cada vez mais artistas falando desses temas. "Fico muito feliz que estamos vivendo essa discussão agora, sobre o papel político do artista, porque eu sempre fui muito criticada pelo contrário, sempre ouvi: 'Você se posiciona demais'", disse.

Na entrevista, feita por telefone enquanto ela gravava a segunda temporada da série "Aruanas", do Globoplay, Leandra também fala sobre ativismo ambiental e dos desafios de ser mãe de uma menina negra - Júlia, de 6 anos. Leia os melhores trechos:

UNIVERSA: Você critica com frequência a gestão do presidente Jair Bolsonaro, especialmente em relação à pandemia e a questões ambientais. Acredita que é papel do artista se posicionar politicamente?
LEANDRA LEAL: Eu não coloco meu posicionamento na conta da artista, porque ele faz parte do meu papel como cidadã. Todo mundo, enquanto cidadão, tem a possibilidade de se posicionar. Não é possível ver o extermínio que está acontecendo no nosso país e não de indignar, seja você engenheiro, professor, motorista.

Sempre utilizei o espaço que a minha profissão me permitiu ocupar para falar de coisas nas quais eu acredito, sempre pautada em questões como liberdade, direitos humanos e meio ambiente.

Fico muito feliz que estamos vivendo essa discussão agora, sobre o papel político do artista, porque eu sempre fui muito criticada pelo contrário, sempre ouvi: "Você se posiciona demais".

Personalidades como Luciano Huck, Ivete e Ludmilla estão sendo pressionados a se posicionar contra o presidente e até revelar em quem votaram nas últimas eleições. Como você vê essa cobrança?
Não sei. Acho que a gente precisa lembrar que o Bolsonaro não foi eleito por uma pessoa ou outra, foram milhões e milhões de votos. É algo que tem me feito refletir muito: quanta gente foi necessária para que ele efetivasse esse plano de poder? Eu espero muito que nas próximas eleições as pessoas escutem o que o candidato tem a dizer e acreditem, porque tudo o que o Bolsonaro está fazendo, ele avisou que ia fazer. Ele reforçava preconceitos, como racismo e homofobia, e as pessoas achavam que não era sério, que era brincadeira. Nada disso é piada. E deu no que deu.

Você já afirmou que seu envolvimento com questões sociais nasceu na infância. Quais suas memórias dessa época? Quais discussões políticas mais te marcaram?
Eu nasci com a redemocratização, então as primeiras eleições que eu vivi [em 1989, quando tinha 7 anos] foram muito festivas. Os comícios e as propagandas eleitorais me marcaram bastante, tenho essa memória afetiva da conquista do direto ao voto.

Até hoje, acho uma felicidade enorme votar. Foi uma coisa que a minha mãe me passou. Ela dizia: "Olha, é muito importante que a gente tenha esse direito, muita gente se sacrificou por isso".

Por que, mesmo depois de tantos meses de pandemia no Brasil, ainda é preciso explicar às pessoas como usar as máscaras de proteção?
Porque a gente precisa de comunicação pública de qualidade para ajudar as pessoas a passar por uma pandemia. Essa campanha é a forma que um grupo de pessoas encontrou de fazer alguma coisa para tentar ajudar nessa situação insustentável, mas isso é papel do governo. Não exime a responsabilidade da sociedade civil, claro, porque enfrentar uma pandemia é um esforço coletivo, mas tem responsabilidades que fogem do nosso alcance e cabem apenas ao governo.

Desde que o mundo é mundo, essas questões coletivas são resolvidas assim. Eu cresci vendo comerciais sobre Aids, propagandas do Ministério da Saúde na TV ensinando a usar camisinha. Sem uma comunicação eficiente, as pessoas vão cometer erros.

Como surgiu a ideia de gravar a série de vídeos?
A gente tinha esperança que tudo ia melhorar com a chegada da vacina, mas entramos numa segunda onda de covid-19, ainda pior que a primeira. Na prática, vimos que vacinar toda a população é um esforço gigantesco, que a saúde sofreu um desmonte e que vários municípios estão sem estrutura para distribuir as doses.

O SUS é um mecanismo maravilhoso, mas o governo só atrapalha. É muito azar passar por uma pandemia com Bolsonaro no poder.

Foi um sentimento de desânimo, tristeza e muita impotência. Eu e meu marido, o Guilherme [Burgos, fotógrafo], pensamos: "A gente precisa usar o que está ao nosso alcance". E, no caso, eram os nossos perfis nas redes sociais e a nossa experiência com audiovisual. Para disputar essa narrativa da pandemia com os negacionistas, era necessário fazer um conteúdo profissional — por isso nos aliamos à SBIm [Sociedade Brasileira de Imunizações] e tivemos cientistas especialistas na covid-19 para dirigir a gente, dizer o que poderia ou não ser dito.

Leandra e o marido produziram dez vídeos orientando sobre o uso correto de diversos tipos de máscara - Divulgação/João Marcio - Divulgação/João Marcio
Leandra e o marido produziram dez vídeos orientando sobre o uso correto de diversos tipos de máscara
Imagem: Divulgação/João Marcio

Sua filha, Júlia, está crescendo num ambiente parecido, entre artistas e ativistas. Que lições espera que ela leve desde a infância?
A política faz parte do meu dia a dia e do pai dela também [Júlia é filha de Leandra com o empresário Alê Youssef, secretário de Cultura da cidade de São Paulo]. E acho que isso será tão importante para ela quanto foi para mim. É importante crescer com a consciência do lugar que você ocupa, da sociedade em que está sendo criada, dos preconceitos que vai enfrentar. Ela já convive com o machismo e o racismo -- eu, como mãe, quero que fique claro para ela que essas são distorções da sociedade e não dela. Quero que a Júlia tenha consciência política, espírito coletivo. Esses são valores muito importantes para a nossa família.

Leandra Leal com a mãe, a atriz Ângela Leal - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Leandra Leal com a mãe, a atriz Ângela Leal
Imagem: Reprodução/Instagram

A atriz com a mãe e a filha, Júlia, de 6 anos - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
A atriz com a mãe e a filha, Júlia, de 6 anos
Imagem: Reprodução/Instagram

Na semana passada, vimos casos emblemáticos de racismo na mídia, como o do Matheus, acusado injustamente de roubar uma bicicleta, e da empresária Juliane, acusada injustamente de roubar um vestido, ambos no Rio de Janeiro. Como você aborda o tema com a Júlia?
A gente poderia ficar horas conversando sobre isso. Com a Júlia, além de todos os desafios de criar uma criança negra no Brasil, nós somos uma família branca. Tenho diversos livros que falam sobre racismo para crianças, e procuro tratar tudo com honestidade, com clareza. Se ela vê alguma matéria, se ela comenta algo -- a gente acha que as crianças não estão ligadas, mas estão -- conversamos.

Procuro fortalecer a autoestima dela o tempo todo. Ela é muito forte, mas o mundo é bem cruel.

Gravar "Aruanas", série em que você interpreta uma ativista ambiental que luta em defesa da Amazônia, te fez ficar mais sensível às questões ambientais? O que mais te surpreendeu nessa aproximação com o tema?
Com certeza. Eu sempre achei que era super consciente, mas "Aruanas" me apresentou todo um universo de sustentabilidade e me deu mais senso de urgência, porque meio ambiente não é um assunto que podemos resolver depois, vivemos uma emergência climática. Essa aproximação me fez repensar algumas atitudes pessoais, como a coisa do plástico -- eu já era uma pessoa que evitava canudo descartável, por exemplo, mas passei a reduzir drasticamente o uso de plástico em casa.

Em Aruanas, Leandra Leal é uma ativista ambiental e atua com Thainá Duarte, Taís Araújo e Débora Falabela - Globo/Fábio Rocha - Globo/Fábio Rocha
Em Aruanas, Leandra Leal é uma ativista ambiental e atua com Thainá Duarte, Taís Araújo e Débora Falabela
Imagem: Globo/Fábio Rocha

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, é investigado por exportação ilegal de madeira, e o Brasil é o país que mais mata ativistas ambientais no mundo. Quão significativa é a volta da série neste contexto político?

A entrevista foi feita na quarta-feira (22), antes do anúncio do pedido de demissão de Ricardo Salles

Eu fico muito feliz, me sinto alinhada podendo, através do meu trabalho, levantar o debate sobre questões ambientais neste momento. Eu sou muito feliz fazendo meu trabalho, sou muito realizada como atriz. Acredito que toda história pode mudar a vida de alguém, mas Aruanas traz uma mensagem muito grande, muito necessária. E mostra como é poderoso usar a arte para furar bolhas.

Durante a pandemia, você gravou o documentário "Por Trás da Máscara", sobre os últimos 21 dias de um hospital de campanha, no Rio de Janeiro. De que formas essa experiência te impactou?
É um processo que eu ainda estou vivendo, mas ter contato com um outro lado da pandemia, que eu não teria normalmente, ampliou minha consciência sobre a doença. Eu já tinha tentado parar de fumar, mas só consegui parar de vez quando entendi que ser fumante era uma comorbidade, mas uma comorbidade que você escolhe ter. Falei: "Não dá mais". O impacto da pandemia nas nossas vidas será uma questão muito grande -- vamos repensar a relação com o trabalho, com a família. Para mim, a relação com as pessoas que eu amo, poder estar perto delas, não perder momentos importantes em família, ganhou muito mais relevância. Viver o presente de tornou mais importante.

Nas redes sociais, a atriz de 38 anos não esconde críticas ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido)  - Divulgação/Guilherme Burgos - Divulgação/Guilherme Burgos
Nas redes sociais, a atriz de 38 anos não esconde críticas ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido)
Imagem: Divulgação/Guilherme Burgos

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