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Minha história

"Encontrei o amor da minha vida, mas 'casei' com a minha sogra"

Mãe de André representou o filho no dia do casamento com Carla Beattriz - arquivo pessoal
Mãe de André representou o filho no dia do casamento com Carla Beattriz Imagem: arquivo pessoal

Carla Beattriz em depoimento a Rafaela Polo

Colaboração para Universa

24/06/2021 04h00

"A minha história com o André Fantecele, meu marido, é longa, cheia de emoções e começa em 2011. Nós nos conhecemos pela internet e conversávamos por MSN: ele, brasileiro e jogador de futebol de salão morando na Itália, e eu vivendo no Brasil. Na época, eu tinha 17 anos e ele, 23. O papo foi rolando até que André decidiu ir ao Rio de Janeiro para me encontrar durante o período de férias do time. Nessa época, meu pai já morava em Portugal e eu sabia que me mudaria com a minha mãe e irmã para a Europa no ano seguinte.

A gente precisava se ver direito para saber como eram as coisas. Afinal, só pela internet rola aquele medo. Contei para minha mãe, expliquei toda a situação e ele veio. Primeiro, passou em Minas Gerais para visitar a família e, depois, seguiu para a minha cidade. Naquele momento, já percebemos que o relacionamento daria muito certo. Ele passou o resto das férias comigo e começamos a namorar.

Em razão do trabalho, André precisou voltar para a Itália. Ficou combinado nos veríamos em breve, afinal, Portugal não era tão longe assim. No entanto, não aguentamos a distância e, ano seguinte, aos 18 anos, fui para a Itália ficar com ele. Antes da viagem, o André me mandou várias cartas — ele escrevia uma por dia — e pediu que eu imprimisse para ler no avião. Nelas, ele falava o que achava da gente. Todas aquelas mensagens me deixaram mais tranquila, me ajudaram a dar uma distraída durante o voo. Eu estava bastante nervosa, porque era a minha primeira viagem internacional sozinha.

Moramos juntos em Montesilvano, uma cidade de 40.000 habitantes no litoral italiano, por 2 meses. Eu estava apenas com visto de turista e, para poder continuar por lá, precisaríamos nos casar, assim conseguiria meus documentos de permanência por causa da dupla cidadania dele.

O plano não deu muito certo: era começo de namoro e a convivência intensa demais estremeceu o relacionamento. Então, decidi voltar para Portugal, ficar com a minha família e seguir o namoro à distância mesmo. Não gostava nada da história, mas fui, inclusive porque eu já estava ilegal no país.

Em Portugal, comecei a trabalhar muito. Fui funcionária de uma lanchonete e cheguei a ficar 12 horas em pé, sem poder sentar. Nesse período, em 2012, ele tirou férias mais uma vez e passou 15 dias comigo em Portugal — o resto dos dias passou no Brasil com a família.

Não aguentamos ficar longe um do outro por muito tempo. Fiz uma pressão. Eu queria casar e tentar viver esse relacionamento de verdade ou não queria mais, sabe? Mas não podia ir para a Itália casar com ele, porque seguia ilegal em Portugal. A única solução era assinar os papéis no Brasil para adiantar os documentos. A cerimônia pensaríamos depois: nesse momento, o importante era dizer 'sim' no cartório.

"Ninguém entendeu por que eu estava no cartório com a minha sogra"

Mãe de André representou o filho no dia do casamento com Carla Beattriz - arquivo pessoal - arquivo pessoal
Mãe de André representou o filho no dia do casamento com Carla Beattriz
Imagem: arquivo pessoal

E é aí que minha sogra entra na história. As férias dele estavam acabando e ele precisaria voltar para a Itália por causa do trabalho. Então resolvi deixar minha vida na Europa e voltar para o Brasil. Eu nem tinha mais família no país, meus pais e irmã já estavam em Portugal, mas era a solução que tínhamos. Ao embarcar no aeroporto, fui avisada que não conseguiria mais voltar para a Europa, porque meus documentos não estavam legalizados. Fui mesmo assim.

No Brasil, corremos para o cartório para marcar o casamento. Não era a data que queríamos, mas aquela que estava disponível: 6 de setembro. Existia a possibilidade dele voltar para a Itália por necessidade e se ausentar do país na data, mas preferimos garantir. E foi o que aconteceu: em agosto, ele retornou. Na busca por alternativas, corremos atrás de uma procuração.

O dia do casamento foi bem engraçado. Eu estava de vestido branco e as pessoas ficavam olhando estranho, sem saber o que aquela senhora estava fazendo, se estava se casando com uma menina tão jovem — eu tinha 19 anos na época

Meu marido nem podia assistir de longe: assinamos os papéis em 2012, não tinha videochamada nessa época. Nos falávamos por SMS e, raramente, por telefone, porque era muito caro. Na cerimônia, o juiz fez brincadeiras com a gente, dizendo que podíamos nos beijar no final.

"Fui barrada na alfândega, mas consegui entrar na Europa"

Carla, Andre e o enteado  - arquivo pessoal - arquivo pessoal
Carla, André e o enteado Andrezinho, fruto do relacionamento anterior do marido
Imagem: arquivo pessoal

Com as formalidades em dia, dei entrada no consulado com os meus documentos para que eu pudesse voltar de forma legal para a Itália. Traduzi a minha certidão de nascimento, autentiquei em cartório e tudo, mas no Brasil o processo iria demorar muito. Então embarquei de volta para a Europa, com uma parada em Portugal antes do meu destino final. Passei mal durante o voo, vomitei de tão nervosa, porque sabia que meus documentos não estavam todos em dia ainda, só tinha um processo rolando.

Na alfândega, fui barrada. O moço do controle do passaporte falou que eu precisaria voltar ao Brasil. Eu não acreditava no que estava escutando enquanto ele insistia que não tinha jeito. Eu me explicava, dizia que já tinha dado entrada em tudo, que ia terminar minha documentação na Itália, mas já estava passando mal de novo.

Ele saiu para falar com outra pessoa sobre meu caso e me deixou lá, nervosa. Quando voltou, já estava cheio de brincadeiras, dizendo que só me deixaria entrar se eu estivesse com muita saudade do meu marido. Reforçou que tive sorte e me deixou passar.

Foi assim que meu casamento por procuração terminou na Europa, mais uma vez. Moro na Itália desde então, já nos mudamos sete vezes e hoje moramos em Avellino, uma cidade pequena perto de Napoli. Aprendi o idioma na marra e trabalho oferecendo cursos de automaquiagem. Já trabalho alguns anos na internet, desde que comecei no YouTube, e somo mais de 350 mil seguidores no Instagram, que ajudaram a viralizar o reels em que conto sobre a nossa história — já são mais de cinco milhões de visualizações.

E, ah, lembra aquela ideia sobre a cerimônia que faríamos depois? Foi passando, passando... Então decidimos que faremos uma comemoração quando completarmos 10 anos juntos!"

*Carla Beattriz, 27 anos, é criadora de conteúdo na internet e maquiadora.

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