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"Pegging": prática que faz homens héteros romperem com tabu do prazer anal

O casal Tuy e Biel falam de pegging: "É sobre o homem e a mulher heterossexual experimentar algo diferente" - Arquivo Pessoal
O casal Tuy e Biel falam de pegging: "É sobre o homem e a mulher heterossexual experimentar algo diferente" Imagem: Arquivo Pessoal

Carol Ito

Colaboração para Universa

21/06/2021 04h00

O pegging (prática sexual em que o homem é penetrado com auxílio de uma cinta peniana) sempre rolou entre casais heterossexuais, ainda que seja um assunto cercado de tabus. Para alguns homens cisgêneros, explorar o prazer anal com a parceira pode ser um caminho para conhecer melhor o próprio corpo e até desconstruir estereótipos machistas e homofóbicos. "Trazer o assunto para a berlinda já é difícil, imagina levar para a cama, se libertar e viver isso de verdade. Quando a gente fala do pegging, a gente está falando realmente de uma entrega e de intimidade", diz Biel, youtuber e adepto da prática.

Há quatro anos, Biel e a companheira Tuy Potasso postaram um vídeo no YouTube compartilhando experiências sobre pegging, atingindo mais de 200 mil visualizações. "O que mais nos surpreendeu foram os homens heteronormativos comentando que conseguiram quebrar o tabu depois de assistirem ao vídeo. Não só em relação ao pegging, mas ao prazer anal, de modo geral", diz Tuy.

Ela observa que, ao contrário do que muita gente pensa, a prática não envolve necessariamente uma relação de hierarquia no sexo: "O pessoal fala: 'a mulher tem que ser a dominadora e o cara que vai ser penetrado tem que ser o submisso'. Isso não é verdade. É mais sobre o homem e a mulher heterossexual que querem experimentar algo diferente", explica.

O casal, que soma mais de 1 milhão de inscritos no canal do YouTube, prefere usar o termo "inversão" em vez de pegging, como explica Biel: "Existe uma prática habitual daquela relação e essa prática está sendo invertida. Não tem a ver com inverter papéis de gênero, da mulher se colocar no papel do homem".

A terapeuta de casais e sexóloga Viviana Martini Dias explica que a prática sexual não está vinculada à orientação sexual, nem à identidade de gênero: "Gostar de sentir prazer pelo ânus não torna o homem homossexual. Essa é uma fantasia que costuma rondar o imaginário de ambos no casal hétero", explica, acrescentando que o sexo anal acaba sendo mais naturalizado para as mulheres: "Os homens costumam achar muito lindo fazer sexo anal na parceira. Eu brinco que ânus todo mundo tem, então, se pode ser bom para ela, por que não pode ser bom para ele?", questiona.

Desconstrução de uma ideia machista

"Experimentar inversão não me fez achar que passaria a ter atração por homens. Explorar o prazer ajuda a sair da rotina". "A sociedade é muito machista e muitos não entendem que o ânus é uma zona erógena como qualquer outra". "Reconhecer que sinto tesão no ânus foi uma grande desconstrução de uma ideia super machista e tóxica." Esses foram alguns comentários anônimos pincelados de uma pesquisa feita pela Sexlog, rede social adulta focada em encontros sexuais, a pedido de Universa. Foram 11800 respostas ao todo, a maioria delas (64,8%) de homens e pessoas heterossexuais (77,3%). Entre os participantes, 18,3% declaram que praticam ou já praticaram pegging e 97% deles recomendam a experiência. Outros 25.4% contam que ainda não fizeram, mas têm vontade.

A escritora Abhiyana, adepta da prática, vê no pegging ma maneira de subverter a performance feminina no sexo - Camila Falcão - Camila Falcão
A escritora Abhiyana, adepta da prática, vê no pegging ma maneira de subverter a performance feminina no sexo
Imagem: Camila Falcão

Abhiyana, escritora e criadora do podcast erótico Textos Putos, narra um episódio inteiro sobre pegging e discute abertamente sobre o tema nas redes sociais. "Falar sobre ânus, para mim, é uma forma de quebrar padrões, se libertar. Todo mundo tem, isso é tão lindo. De certa forma, nos iguala", reflete ela, autora do recém-lançado livro "Manual do Sexo Anal" (independente). Mulher cisgênero, ela vê na prática uma forma de subverter a performance associada ao feminino no sexo: "Quando coloco a cinta, tenho que me conectar com a minha coragem, ter certa cara de pau e mudar aquela posição de pessoa passiva, que sempre foi penetrada", conta. "Eu tive a sorte de me relacionar com um cara que adorava os acessos anais. Aparentemente, ele já estava em um caminho de desconstrução."

"Tem aquela sensação de que você está transgredindo algo, desbravando um universo novo. Hoje já não é o que me move, mas fez os primeiros orgasmos serem muito intensos", conta o jornalista Diego (nome fictício), que experimentou o pegging pela primeira vez dentro de uma relação em que havia práticas fetichistas. "A gente já se permitia bastante com o corpo um do outro. Eu não pensava sobre isso, era só pela diversão", relembra.

Hoje, ele pratica pegging com a atual parceira e fala mais abertamente sobre o assunto: "Eu considero que tô desconstruindo muitas coisas em mim, afinal, é muito mais tempo ouvindo que isso é errado do que é certo. Educação sexual é urgente. Não dá pra saber que você gosta de algo que foi ensinado a não desejar", completa.

Para Diego, os homens costumam apoiar fantasias sexuais das parceiras desde que elas se encaixem em um padrão heteronormativo, ou seja, que não os façam questionar a própria masculinidade: "O cara fala de fetiche, de pegar duas mulheres juntas, mas dificilmente quer discutir a fundo o desejo da parceira. A mulher também não costuma conversar muito por medo de ser julgada. Para falar sobre desejos, é preciso que as duas partes estejam a fim de se expor", explica.

Segundo a sexóloga Viviana, a dificuldade em falar sobre sexo sem julgamentos também está presente na conversa entre pares: "Os homens costumam falar sobre as suas aventuras, quem pegou, quem não pegou. Falam muito pouco sobre os próprios dramas sexuais. O contexto machista e a masculinidade frágil dizem que a única fonte de prazer do homem é o pênis, o que deixa a sexualidade muito restrita, infelizmente", diz ela.

Nada como um papo reto e honesto para desmistificar os tabus em torno no prazer anal, tanto para homens, quanto para mulheres. Mas com carinho, paciência e proteção, a vida sexual pode ser mais divertida. "Sexo anal não é fluido como o sexo pênis e vagina. Aqueles que querem se aventurar nessa prática, têm que ter tempo, cuidado, lubrificação, pesquisar sobre o assunto. Não é chegar assim como quem já está muito acostumado", explica Viviana, que acrescenta a importância do diálogo, antes de qualquer coisa: "Mais interessante do que experimentar novas modalidades é falar sobre o sexo. Tem que falar e, principalmente, saber ouvir o outro".

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