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Ela criou banco de imagens de memórias negras: "Não é só um passado de dor"

Renata Cherlise é fundadora da plataforma Black Archives, que exalta vida cotidiana negra - Arquivo pessoal
Renata Cherlise é fundadora da plataforma Black Archives, que exalta vida cotidiana negra Imagem: Arquivo pessoal

Nathália Geraldo

De Universa

21/06/2021 04h00

Como saber se existiam meninos negros interessados em beisebol, nos Estados Unidos no início da década de 70? Onde estão os registros da presença de mulheres na cultura hip hop? Ter acesso a fotos e vídeos que retratem a cultura afro e a vida de quem os precedeu nem sempre é fácil para pessoas negras. Por vezes, a dificuldade está em recontar até mesmo a história da família.

Foi com base na percepção de um apagamento desses arquivos que a arquivista de Chicago, em Illinois, nos Estados Unidos, Renata Cherlise criou o Black Archives — uma plataforma de curadoria de imagens de pessoas negras em suas vidas cotidianas —, para evidenciar o legado da história negra em seu país de origem.

Interessada por fotografia desde pequena e pela publicação de conteúdo na internet desde que o Tumblr apareceu, Renata fundou o Black Archives em 2015. A plataforma faz a curadoria de imagens e fotos para projetos audiovisuais e para atender a outras empresas interessadas em resgatar a memória negra por meio de registros de personalidades e anônimos.

As fotos históricas desta reportagem são da parceria de Renata com o banco de imagens Getty Images: ela extraiu dos arquivos da empresa coleções de imagens raras do cotidiano negro em diferentes épocas. O material estará disponível para o público baixá-lo com as devidas licenças no site da Getty. O Instagram do Black Archives também é um celeiro de fotos inspiradoras (você vê uma seleção feita por Universa no final da matéria).

"Isso me permitiu percorrer os milhares de itens e selecioná-los por momentos da história negra que normalmente não vemos, que estão enterrados", diz Renata, em entrevista para Universa.

A memória de família negras

Saber o rosto, o nome e até mesmo a origem geográfica dos negros de gerações anteriores dentro de uma família pode ser uma tarefa marcada por obstáculos; não à toa, a série de reportagens "Origens", produzida por Tilt, do UOL, ofereceu a 20 personalidades negras brasileiras uma visita a suas raízes a partir de testes de DNA.

Para Renata, ter acesso a essa história só foi possível porque ela "vasculhou arquivos" e contou com a resistência da avó e da bisavó para que as memórias de família não se apagassem com o tempo. "Não tenho graduação em História da Arte ou sistemas de gerenciamento para bibliotecas. Minha experiência vem de vasculhar arquivos. E faço isso porque minha avó e sua mãe passaram adiante e compartilharam essas histórias sem diplomas, foram capazes de contar essas histórias por gerações", comenta.

O Black Archives, para mim, é um destino para as memórias negras e o pensamento criativo.

Veja, a seguir, mais trechos da entrevista de Renata Cherlise:

mulheres rappers - Raymond Boyd/Getty Images - Raymond Boyd/Getty Images
Rapper Salt, DJ Spinderella e rapper Pepa from Salt-N-Pepa nos bastidores da casa "Holiday Star Theatre", em Merrillville, Indiana. O ano era 1987
Imagem: Raymond Boyd/Getty Images

UNIVERSA: Qual é a importância de pessoas negras terem registros cotidianos como material, como nessa parceria do Black Archives com a Getty Images?

Renata: A parceria com a Getty Images é ótima em muitos níveis, porque me permitiu percorrer os milhares de itens de arquivos e selecioná-los por momentos da história negra que normalmente não vemos, que estão enterrados.

Mostrar às pessoas que as imagens estão aí, e que temos acesso a elas, penso que ajuda a todos nós. Ajuda-nos a contar a história negra, ajuda-nos como arquivo, ajuda a comunidade, ajuda a todos nós.

Por que você criou o Black Archives?

Sempre me interessei por fotografia. Quando o Tumblr apareceu, eu pensei: 'Ah, ok, aqui está uma oportunidade para começar a blogar'. Era uma artista que se baseava em pesquisas e notei como as pessoas negras são vistas ao longo da história. Não tenho graduação em História da Arte ou sistemas de gerenciamento para bibliotecas.

Minha experiência vem de vasculhar arquivos, retirando-os e compartilhando-os com as pessoas. Minha avó e sua mãe passaram adiante e compartilharam essas histórias sem diplomas formais em arquivos. Foram capazes de contar essas histórias por gerações.

Por isso, tentei explorar isso, pois existem maneiras de compartilhar as histórias que desejo compartilhar sem credenciais específicas e sem excluir ninguém.

A missão do Black Archives é dar voz a essas histórias não contadas, enquanto fornece uma representação autêntica e de inspiração para o crescimento de negros em todos os lugares.

No Brasil, muitas vezes as pessoas negras são retratadas em situações de pobreza, criminalidade, falta de recursos. Fotos e vídeos têm o poder de denunciar as desigualdades?

O poder das fotos e vídeos é claro e óbvio — eles são uma prova tangível de que um evento específico realmente ocorreu. No entanto, a situação que você descreve no Brasil é semelhante à dos EUA devido ao tipo de pessoas que foram colocadas em cargos de poder.

Pessoalmente, acredito que a forma como pessoas negras são retratadas ao redor do mundo diz mais sobre as pessoas que estão as "retratando" do que sobre as próprias pessoas negras.

Qual é a importância de negros e negras serem donos de suas próprias narrativas no mundo, principalmente na área audiovisual?

Por muito tempo, nossa história nos foi contada por pessoas que não vivenciaram o que vivemos. Há alegria, felicidade e esperança na história negra, que é tecida por meio de toda a luta e dor.

Esses momentos positivos muitas vezes ficam de fora, e o que nos resta é um retrato realmente deprimente do nosso passado. Por meio do Black Archives, quero mostrar o poder e a perseverança de nosso passado e as maneiras como podemos usar essa experiência para definir nosso futuro.

Sete meninos e um homem vestindo jaqueta do time do colégio, usando luvas de beisebol, inclinando-se com as mãos nos joelhos no campo de atletismo, Pittsburgh, Pensilvânia, abril de 1972. - Charles Teenie Harris/Carnegie Museum of Art/Getty Images - Charles Teenie Harris/Carnegie Museum of Art/Getty Images
Estudantes e treinador, anônimos, em um campo de atletismo de Pittsburgh, na Pensilvânia. Registro de 1972 clicado pelo fotógrafo negro Charles Teenie Harris
Imagem: Charles Teenie Harris/Carnegie Museum of Art/Getty Images

Essa geração tem agora mais acesso ao registro de suas vidas e às histórias das gerações passadas?

Por um lado, sim. Hoje, os negros têm mais acesso a tecnologias como smartphones, por exemplo, para documentar, tanto por meio visual quanto por áudio, a nossa história. Por outro lado, nossa história muitas vezes é contada por pessoas que podem nem mesmo entendê-las ou virem de nossas comunidades.

Parte das fotos do arquivo mostram registros visuais na moda, esportes, artes e política. De que forma o racismo se reflete nessas áreas?

Esta resposta é simples: ele está em todo lugar.

Fotos inspiradoras do Black Archives (créditos nas legendas):

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