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Lorelay Fox: "Ainda sinto medo de sair montada, mas o incômodo me move"

Lorelay Fox - Reprodução/Instagram
Lorelay Fox Imagem: Reprodução/Instagram

Danilo Dabague* em depoimento a Isabella Marinelli

De Universa

16/06/2021 04h00

"Nasci em Sorocaba, no interior de São Paulo, e sempre fui uma daquelas crianças que não podiam sair na rua, porque adoeciam com facilidade. Por isso, minha mãe costumava me presentear com lápis de cor. Aos 10 anos, mais ou menos, entrei para um curso de desenho. O trabalho como publicitário, a mão para a maquiagem, vejo que vem desse hábito de desenhar desde pequeno.

Por volta dos 17, 18 anos, um amigo meu começou a fazer drag e me convenceu a acompanhá-lo. Entrei nesse mundo e as coisas estavam dando certo. Na época, fiquei em segundo lugar no concurso que ele queria participar. A cena era forte na cidade nessa época e, até hoje, me inspiro nas drags que conheci em Sorocaba.

Desde então, já estava criando a Lorelay. No começo, queria me olhar no espelho e me achar legal. Depois, quando passei a trabalhar como hostess de eventos, ainda na minha cidade natal, desejava que as pessoas se sentissem acolhidas, bem-vindas. Mais tarde, quando criei o canal no YouTube, há seis anos, misturei a publicidade com a drag e quis ser a comunicadora que desconstrói ideias, mostra como a arte pode contribuir nas discussões atuais. No último ano, na pandemia, ainda assumi uma função de entretenimento; espero que as pessoas que me acompanham passem um tempo gostoso comigo.

Lorelay Fox é dona de um canal com mais de 800 mil inscritos - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Lorelay Fox é dona de um canal com mais de 800 mil inscritos
Imagem: Reprodução/Instagram

Hoje em dia, eu olho para a Lorelay como o padrão de beleza que quero para a minha drag, ainda que não seja o que se espera. Busco a beleza de alguém às vezes doidinha, às vezes mais séria; tento compor um aspecto sóbrio para que as pessoas não se assustem, porque o mundo drag assusta.

Eu quero sentir que eu consigo ser aceito. Uma drag é uma figura tão exagerada, que alguns não entendem, se distanciam. Então tentei criar algo mais próximo de uma apresentadora de televisão, uma cantora

Ainda assim, tenho liberdade. A personalidade da Lorelay sempre vem primeiro, de acordo com o teor do que farei com a minha drag naquele dia. Tenho momentos de festa, de eventos, de um vídeo mais engraçado a depender do que preciso. Em relação à personalidade do Danilo, ela é mais polida e mais colorida para a vida real. Como é meu trabalho, ela ainda sou eu, mas me faz acessar outras áreas e virtudes de quem eu sou. Alcanço um lado mais didático no jeito de falar, mudo o jeito de vestir.

O processo todo para me transformar em Lorelay demora uma hora. Começo fazendo a barba, depois aplico um hidratante e vou comer alguma coisa — enquanto acalmo a pele. Nessa hora, também raspo as minhas sobrancelhas. Depois, volto para fazer o make. Se for para vídeo, capricho menos no acabamento, porque a câmera não mostra tanto. Já se for para compromissos ao vivo, preciso de uma hora e meia. Quando a maquiagem está feita, parto para o processo de colocar a peruca, escolher os acessórios e me vestir. Ainda levo uns dez minutos para colar as unhas.

Isso é o meu trabalho e, por mais que em alguns momentos perca o brilho, sinto que tem uma importância social muito grande. Eu vivo o sonho que muitas gerações não puderam viver

O publicitário Danilo Dabague é Lorelay Fox - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
O publicitário Danilo Dabague é Lorelay Fox
Imagem: Reprodução/Instagram

Parece fácil ser drag queen no mundo de São Paulo. Quando você começa a entrar no interior, cidades distantes dos grandes centros, descobre que a internet é o único lugar que um menino gay, que é maltratado no colégio e desrespeitado em casa, vai ver outro gay.

Na minha adolescência, eu achava que ser homossexual era uma vergonha, porque nos programas de televisão éramos alvo de piadas, na escola eu sofria bullying.

É transformador ser uma drag que é levada a sério, que conquistou uma carreira, porque isso possibilita que outras pessoas possam sonhar em ser alguma coisa

Sempre haverá pessoas de uma geração que sobreviveram, mas a que custo? Vivendo relacionamentos escondidos, longe da família, sendo excluídos da igreja? É importante ir além disso, mostrar que podemos ser quem somos e ter felicidade.

Tive a sorte de ter uma família que me abraçou, para quem eu podia correr quando alguém me tratava mal na rua. Eu não sofria muito quando faziam bullying, porque sabia que em casa a minha mãe não falaria aquilo para mim, que lá eu poderia ser inteiro.

Ainda assim, eu tenho medo até hoje de sair de casa montada como Lorelay. Falo em terapia sobre esse receio de fazer algumas coisas e outras não. Está tão internalizado na gente, que ainda me dá um desconforto imenso saber que estou em lugares abertos e que podem tentar algo contra mim, alguma agressão. Trago uma série de questões sobre me expressar em público. Se eu estiver de mãos dadas com um namorado, já sinto receio. São pequenas violências que já sofremos e não conseguimos esquecer.

Na internet, meu público é mais selecionado. Na rua, eu não sei quem vai passar por mim. Mas, por mais que me incomode, eu preciso causar esse incômodo em mim para me mover, ter coragem

A drag sempre será arte e como toda arte ela pode ser ferramenta para tratar sobre discussões relevantes. A arte acessa as pessoas de uma forma especial. Quando a gente 'dá um textão' montado tem um impacto, desmontado já é outra coisa. Dia desses, uma amiga me mostrou alunos tendo aula com vídeos meus.

Toda vez que eu me monto, sinto que sou parte de algo maior, que não é só sobre mim, mas sobre todos da minha cena. Fazer drag é muito transgressor."

*Danilo Sabague, 34 anos, é publicitário e dá vida à drag queen Lorelay Fox, palestrante, youtuber e podcaster.

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