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Mãe denuncia marido por abuso da filha adolescente: "Nunca duvidei dela"

A iluminadora Marina Stoll, 44, de SP, estava casada havia 12 anos com o pai de seus dois filhos menores quando a filha relatou ter sido abusada pelo padrasto - Arquivo pessoal
A iluminadora Marina Stoll, 44, de SP, estava casada havia 12 anos com o pai de seus dois filhos menores quando a filha relatou ter sido abusada pelo padrasto Imagem: Arquivo pessoal

Camila Brandalise

De Universa

15/06/2021 10h48

A iluminadora Marina Stoll, 44, recebeu uma ligação da filha às 6h07 de uma manhã de janeiro. A garota de 17 anos estava aos prantos, sem conseguir dizer à mãe o que tinha acontecido. "Fui tentando descobrir por eliminação. Perguntei se tinha brigado com o namorado, se morreu algum amigo, até que questionei se o meu então marido, padrasto dela, com quem eu estava há 12 anos, tinha feito algo. Ela disse que sim", relembra Marina a Universa. "Ela chegou a falar que estava com medo de me contar porque eu não acreditaria. Mas nunca duvidei dela, nem por um segundo." A filha então revelou que o padrasto havia abusado dela.

Naquela madrugada, a garota e o padrasto, o empresário Gian Carlo Cuvrad Bortolotti, do ramo de eventos corporativos, dormiam no mesmo quarto do hotel onde organizavam um encontro corporativo que seria transmitido pela internet. Algum tempo antes, ele a havia convidado para trabalhar em sua empresa.

No começo da manhã, ela diz que acordou com ele em sua cama. "Eu me lembro dele me acordando, encostando em mim, dizendo que o fio do carregador estava em volta do meu corpo. Não fazia sentido e continuei dormindo. Depois de um tempo ele voltou para a minha cama e começou a passar a mão no meu corpo. Abaixou o lençol, tocou nas minhas partes íntimas e me segurou, abraçando por trás", afirma a adolescente a Universa.

"Pedia para ele parar, e ele pedia só mais cinco minutos, dizia que estava gostoso e que queria passar mais tempo comigo. O que mais me vem à memória é ficar com os olhos arregalados, estava em estado de choque. Achei que minha mãe pudesse duvidar, porque é esse tipo de coisa que a gente escuta. Parece que nunca acreditam quando uma mulher fala que foi abusada." Depois disso, ela recebeu um comprovante de depósito de R$ 450 em sua conta, feito pelo padrasto.

Quando Marina ouviu a história, percebeu que, naquele momento, sua vida viraria de cabeça para baixo. "Passei dias chorando. Berrava de dor. Me sentia culpada. Ainda me sinto. Mas a culpa é dele". No dia seguinte, ambas foram a uma delegacia registrar um boletim de ocorrência. Bortolotti agora é réu por importunação sexual.

O caso envolvendo a filha de Marina é comum quando se trata de violência sexual contra mulheres no Brasil. Entre as denúncias envolvendo criança ou adolescente, em 40% das vítimas afirmam que o agressor é o pai ou o padrasto, segundo dados do MMFDH (Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos). De acordo com a Childhood Brasil, somente 10% dos casos de abuso e exploração sexual contra crianças e adolescentes são notificados às autoridades.

"Mas, infelizmente, essa história especificamente é rara e foge à regra. Para a maioria das mães e dos outros familiares, há a necessidade de provas concretas, um flagrante por exemplo. E, mesmo assim, em alguns casos o abusador é poupado", afirma a médica e sexóloga forense Mariana da Silva Ferreira, que tem experiência de dez anos no atendimento de vítimas de violência sexual. "Muitas famílias escolhem resolver entre si. Preferem que ninguém fique sabendo e não denunciam."

Marina diz que sua família está em pedaços. Além do processo criminal contra o ex-marido pela denúncia de abuso, o casal também passa por uma separação litigiosa, pois eles têm dois filhos juntos, de 10 e 12 anos.

Para a filha, a dor maior é ver a comoção dos familiares. "Cheguei a me preocupar se meu ex-padrasto seria preso porque via minha mãe sofrendo muito. Mas está claro para nós que quem causou isso não fui eu", diz ela, que tem acompanhamento psicológico duas vezes por semana depois do ocorrido.


"Ao ouvir minha filha, pensei: 'Vou colocar esse cara na cadeia'"

Marina conta que, enquanto conversava com a filha, recebeu cerca de 20 chamadas do então marido. "Atendi com ela no carro comigo. Ele me perguntou se estava tudo bem e só respondi que sim. Depois começou a dizer que não sabia o que tinha acontecido, que a vida dele tinha acabado. Três dias depois ainda estava pedindo perdão, falando que não sabia o que passou na cabeça dele, que tinha sido um carinho mas que sabe que passou do limite. Foi uma situação muito difícil, no começo ainda o ajudei, marquei psiquiatra porque disse que ele precisava de ajuda, mas eu estava firme, ficaria ao lado da minha filha."

Marina diz que situações anteriores já chamavam a atenção para o comportamento do ex em relação à filha. "Seriam comportamentos típicos de um padrasto, não fosse o fato de ele agir diferente só com minha filha adolescente. De uns tempos para cá, ele havia começado a dar mais atenção para ela do que para nossa, de 12 anos — que, inclusive, reclamou comigo que a mais velha ganhava 'os melhores presentes'. Ele a levou para trabalhar junto, ensinou a dirigir, passeava no shopping e deixava ela comprar roupa, mandava dinheiro. Parecia que estava preparando o terreno."

Boletim de ocorrência e medida protetiva

No dia seguinte, mãe e filha foram a uma delegacia para registrar um boletim de ocorrência por estupro de vulnerável, acompanhadas de um advogado. Também foi concedida uma medida protetiva para que o padrasto não pudesse se aproximar da garota. A reportagem teve acesso ao registro na delegacia, além de outros cinco documentos envolvendo o caso.

A denúncia foi para uma segunda delegacia, onde ficou parada por dois meses. Em março, foi encaminhada ao Ministério Público de São Paulo, que fez uma denúncia por importunação sexual, considerado crime mais brando do que estupro e com pena de um a cinco anos de prisão. Nesse caso, há um aumento de metade da pena pelo fato de se tratar do padrasto da vítima. A Justiça aceitou a denúncia da promotoria, e o acusado agora virou réu. Na decisão, a juíza Fernanda Salvador Veiga afirmou que havia prova e indícios suficientes para abertura do processo contra o empresário.

O advogado de defesa de Bortolotti foi procurado pela reportagem. Fabio Mariz de Oliveira, de um dos principais escritórios de advocacia do país, informou que seu cliente não se pronunciará por se tratar de processo em segredo de Justiça e afirmou que a inocência dele será provada.

O ex-casal ainda trava um embate na Justiça pela guarda dos filhos que tiveram juntos. "Ele pediu a guarda compartilhada. Abriu um processo de alienação parental porque condicionei as visitas às crianças à vontade delas. Eu virei a acusada e ele, a vítima", conta Marina, que diz ter ouvido dos filhos a recusa em encontrar o pai por não se sentirem confortáveis na presença dele.

"Há casos em que um processo judicial se torna instrumento de poder e controle em relação às mulheres, causando prejuízos financeiros e emocionais gigantescos. Chamamos de litigância abusiva. Entre as práticas mais comuns temos justamente falsas acusações de alienação parental. Isso se repete muito", afirma Lize Borges advogada, especialista em direito civil pela Faculdade Baiana de Direito e integrante do IBDFAM/BA (Instituto Brasileiro de Direito de Família).


"Foi essencial que minha mãe acreditasse em mim"

Cinco meses depois da denúncia, a jovem diz conseguir contar o que aconteceu sem a mesma angústia de antes. "No começo, eu só chorava. Chegava a vomitar. Consigo falar com mais tranquilidade sobre isso hoje, mas a lembrança das cenas daquele dia ainda vem na minha cabeça", conta.

Nesse processo pós-traumático, segundo ela, um dos pontos essenciais foi a mãe ter acreditado em sua palavra desde a primeira conversa, assim como os outros membros da família. "Fez muita diferença ter o apoio dela ao levar a denúncia adiante. Foi importante para que eu percebesse que minha voz é importante."

"Ela tem muita força", diz Marina. "A gente começou a perceber, conversando com outras mulheres e especialistas, que o problema do abuso sexual é um buraco, muitas passaram e passam por isso e sequer são ouvidas. Ou não tem força e não conseguem denunciar. É uma questão cultural. Quero justiça pela minha filha e por todas."

Como procurar ajuda em caso de abuso contra menores

O Disque 100 é um número do Governo Federal que dá orientações e registra denúncias de violações de Direitos Humanos. Um dos focos do serviço é em casos de violência contra crianças e adolescentes, principalmente sexual. Funciona diariamente, das 8h às 22h.

Também é possível registrar denúncias pelo aplicativo Direitos Humanos Brasil e na página da Ouvidoria Nacional de Diretos Humanos, do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos.