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"De repórter a cientista de dados: estudei de graça e hoje ganho o triplo"

Letícia sempre gostou de investigar: "Agora, em vez de extrair informações das pessoas, extraio dos números" - Acervo pessoal
Letícia sempre gostou de investigar: "Agora, em vez de extrair informações das pessoas, extraio dos números" Imagem: Acervo pessoal

Leticia Gerola em depoimento a Ana Bardella

De Universa

14/06/2021 04h00

"Quando era criança, dizia que queria ser detetive. Tive esse sonho até chegar na adolescência, fase em que percebi que talvez não fosse a melhor opção de carreira para mim. Acabei escolhendo uma profissão 'mais certinha', o jornalismo, pela possibilidade de mergulhar nos fatos e investigá-los, já que sou uma pessoa curiosa por natureza.

Contando com o período da faculdade, passei quatro anos na redação de uma revista, que depois se transformou em site. Adorava contar as histórias das pessoas, mas o passar do tempo foi me desanimando: as perspectivas de subir de cargo eram baixas, as chances de mudar de empresa eram poucas e o salário que ganhava não me satisfazia. Meu incômodo piorou quando o site fechou e fui realocada para a equipe de marketing.

Lá, eu tinha que fazer levantamento de números, lidar com tabelas, gráficos e uma série de coisas que não faziam parte da minha rotina anterior. Apesar de não gostar da minha nova função, achei interessante as ferramentas de tecnologia com as quais tomei contato. Vi que, sabendo usá-las da maneira certa, era possível extrair delas uma quantidade assustadora de informações.

Com meu novo cargo, aceitei também fazer um trabalho como freelancer para uma agência de comunicação, no qual levantava os dados sobre como empresas e pessoas famosas estavam se saindo nas redes sociais — e entregava essas informações 'mastigadas', em forma de relatório. Rapidamente percebi que o volume de trabalho era menor e a remuneração muito maior. Entre uma e outra atividade, comecei a fazer minicursos no YouTube sobre dados, por puro prazer.

Poucos meses depois, no início de 2020, recebi a notícia da minha demissão. Meus amigos me indicavam vagas na área de jornalismo, mas sentia que não fazia sentido tentar outro emprego nesse mercado.

Foi então que tomei uma decisão arriscada, que me deu bastante medo, mas da qual eu não me arrependo: segurar o máximo de dinheiro possível para estudar em casa, através de cursos gratuitos, e tentar fazer uma transição radical de carreira.

Comecei pesquisando sobre as áreas, dentro da tecnologia, nas quais eu poderia me encaixar. Descobri que existem diversas profissões que trabalham com dados, entre elas as de engenheiro e analista. No meu caso, entendi que gostava mais do nicho de cientista, uma vez que ali eu poderia usar a criatividade e levantar as coisas do zero.

Depois de definir meu objetivo, precisei ser bastante disciplinada para fazer ele dar certo: montei uma grade de estudos, como se fossem aulas de faculdade, e passava de três a quatro horas por dia focada nos conteúdos. A maior parte do que assisti foi através do YouTube, mas também fiz cursos gratuitos da IBM, da Data Science Academy e consegui uma bolsa em uma plataforma chamada Coursera. Para não ser injusta e dizer que não gastei, paguei R$ 21 em um curso uma vez.

Meu período de reclusão para os estudos coincidiu com a chegada da pandemia, então aproveitei para redobrar a concentração durante o isolamento. Sempre fui organizada com dinheiro, mas moro de aluguel, então sabia que teria no máximo oito meses para conseguir concretizar meus planos. Essa corrida contra o relógio fez com que eu me sentisse culpada por muitas vezes, por estar relaxando e não estudando, mas recebi muito apoio das pessoas próximas e isso me incentivou.

Como não tinha formação acadêmica, experiência profissional e nada que me favorecesse, montei um blog, no qual mostrava alguns dos exercícios que fazia. Usei o LinkedIn para postar meus certificados e foram eles que abasteceram meu currículo. A partir do quarto mês de estudo, comecei a me candidatar para as vagas. Passei quase dois meses fazendo entrevistas, sem sucesso, até que finalmente consegui minha primeira oportunidade: fui contratada como cientista de dados júnior para uma consultoria financeira.

Meu salário inicial já era o dobro do que ganhava como jornalista. Ingressei na área há um ano, mas fui promovida duas vezes e atualmente ele corresponde a um pouco mais do que o triplo.

As promoções dos cientistas de dados são comuns, porque a procura por profissionais dessa área é muito alta, até maior do que o número de pessoas disponível no mercado de trabalho. Então, para garantir que os funcionários não troquem de emprego, as empresas oferecem aumentos e bonificações.

O que mais causou estranhamento nessa mudança foi não haver mulheres na equipe: assim que comecei, percebi que tanto meus colegas de trabalho quanto meus superiores eram homens.

Com eles, as conversas são mais diretas, menos expansivas e — diferentemente do que acontecia no jornalismo — quase nunca alguém se permite mostrar uma fragilidade. O ambiente é mais competitivo e, nas decisões em equipe, é preciso se colocar de forma enfática. Se você não levanta a voz, passa despercebido.

Hoje entendo que tudo o que vivi no jornalismo é válido para essa nova experiência e acredito que isso seja uma máxima para qualquer transição de carreira, independentemente da área ou da idade.

Posso não ser tão boa em estatística quanto alguém que veio de uma área de exatas, mas trouxe minhas habilidades de comunicação e sou boa em intermediar as situações com os clientes. Assim como alguém que trabalhou a vida toda em uma cozinha, por exemplo, vai saber melhor do que ninguém trabalhar sob pressão.

Entendi que todo conhecimento tem o seu valor e que muitas vezes o que é considerado "esquisito" em você pelos outros, na verdade é uma ferramenta poderosa para te destacar profissionalmente. Vale muito a pena apostar em si mesmo.

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