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"Cada letra da sigla representa pessoas", diz apresentadora da Parada LGBT

A influenciadora Mandy Candy - Reprodução/Instagram
A influenciadora Mandy Candy Imagem: Reprodução/Instagram

Mariana Gonzalez

De Universa, em São Paulo

06/06/2021 04h00

Neste domingo, 6, pela segunda vez, a Parada do Orgulho LGBT de São Paulo acontece de forma virtual, por conta da pandemia. Apesar de não levar mais de 3 milhões de pessoas para a Avenida Paulista, como fez até 2019, a versão virtual tem suas vantagens — é o que defende a influenciadora Mandy Candy, 32 anos, que vai apresentar a live do evento. "Pela internet, conseguimos alcançar mais gente que talvez não pudesse estar em São Paulo para o desfile na rua."

A Universa, Mandy, que em 2014 foi uma das primeiras brasileiras a falar sobre transexualidade nas redes sociais e hoje conta com mais de 700 mil seguidores no Instagram, lembra da "energia" boa que sentiu a primeira vez que foi à Parada paulistana, considerada a maior do mundo. Diz ainda que o evento é um ato político e acredita que é importante mantê-lo mesmo em ano de pandemia.

Nesta 25ª edição, a Parada tem como tema "HIV/AIDS: Ame+ Cuide+ Viva+" e será transmitida hoje, a partir das 14h, nos canais da Dia Estúdio, da Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo (APOLGBT/SP) e do YouTube Brasil. Durante oito horas, Mandy e outros 12 influenciadores LGBTQIA+ vão apresentar o evento intercalando debates e shows.

Aqui, ela fala ainda sobre os impactos do governo Jair Bolsonaro (sem partido) sobre a população LGBTQIA+ (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, travestis, queer, intersexo, assexuais e demais variações de orientação sexual ou identidade de gênero), os avanços contra a LGBTfobia nos últimos dez anos e a pressão estética que cai sobre mulheres transexuais como ela.

UNIVERSA: Por que é importante manter a Parada mesmo em ano de pandemia?

MANDY CANDY: Para que ninguém esqueça que a gente existe. Vivemos em um país que está mudando aos poucos, mas que ainda é bem preconceituoso. Fazer a Parada, mesmo on-line, contribui para unir a nossa comunidade, para nos fazer sentir mais próximos. Quando fui à minha primeira Parada, em 2019, lembro de pensar que nunca tinha sentido uma energia tão boa.

Como uma pessoa trans, não me sinto tão confortável no meio de muitas pessoas hétero e cisgênero, mas na Parada me sinto acolhida. Isso é muito bacana no evento presencial, mas a vantagem é que, com a versão on-line, conseguimos alcançar mais gente que talvez não pudesse estar na Avenida Paulista

Eu, por exemplo, vim do interior do Rio Grande do Sul. Lá com certeza existem outras pessoas LGBTQIA+, mas o assunto é mais fechado, eu não tinha amigos que passavam pelo mesmo processo e, por isso, não conseguia ser eu mesma. Sseja física ou virtual, mostra para pessoas da nossa comunidade que elas não estão sozinhas. É um ato político, mas também um dia para se orgulhar e celebrar.

Mandy Candy na Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, em 2019, com outros influenciadores - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Mandy Candy (de branco) na Parada do Orgulho LGBT de São Paulo em 2019, com outros influenciadores
Imagem: Reprodução/Instagram

E há o que celebrar neste mês de orgulho LGBTQIA+?

A nossa existência, por si só, é motivo para comemorar. A gente tem que lutar, criticar, usar a #ForaBolsonaro, mas as coisas estão melhorando e eu acho importante olhar para isso também. Muitos preconceitos estão sendo quebrados. Continua uma merda? Sim, mas está um pouco melhor.

Quando eu me abri para o mundo como uma pessoa trans, sofria muito mais preconceito do que hoje. Eu fui uma das primeiras pessoas do Brasil a falar de transexualidade na internet e recebia hate o tempo todo, era chamada de aberração e coisas piores. Hoje isso ainda acontece, mas recebo muito mais amor. Eu gosto de pensar que daqui a 20, 30 anos, talvez 50 anos, a gente possa viver sem ter medo. E isso é algo para celebrar.

Que fatores contribuíram para melhorar o cenário na internet para pessoas LGBTQIA+ desde que você começou a atuar como influenciadora digital, em 2014?

Ter cada vez mais conteúdo sobre isso ajuda muito. Há alguns anos, nós da comunidade LGBTQIA+ vivíamos numa bolha, e quando aparecia em um filme, uma novela, era sempre de uma maneira totalmente estereotipada. Ainda acontece, mas bem menos, e isso faz toda a diferença, porque quando se olha para pessoas LGBTQIA+, seja um personagem de novela ou uma pessoa nas redes sociais, e se identificam, aceitam. Eu não gosto muito dessa palavra, "aceitar", porque acho que ninguém tem o poder de aceitar a gente ou não.

Nesta semana, a apresentadora Patrícia Abravanel pediu a "compreensão" da comunidade LGBTQIA+ com as pessoas que "estão aprendendo" a lidar com o assunto. O que você acha disso?

Você respeitaria uma pessoa abertamente racista? Não. Porque a gente sabe que é errado, que uma pessoa abertamente racista deveria ser presa. Por que temos que respeitar uma pessoa LGBTfóbica? Também é crime, há dois anos.

A forma como Patrícia Abravanel falou, desdenhando da nossa sigla, é muito triste. Porque cada letra da sigla representa pessoas que sempre existiram, mas que não eram reconhecidas

A gente não tem que respeitar LGBTfobia, porque não é uma questão de opinião, é crime.

Você tem se posicionado de forma contrária ao governo Bolsonaro em suas redes sociais, usando a hashtag #ForaBolsonaro e criticando ações da gestão. Por que isso é importante?

Quando o presidente foi eleito, em 2018, minha mãe me ligou chorando, porque sabia que ele é uma pessoa abertamente contra a minha existência, contra a existência de pessoas LGBTQIA+. Isso era muito muito claro. Agora, olha a situação do nosso país: o presidente está negando vacina e perde tempo fazendo declarações homofóbicas, como se o "problema" do país fossem as pessoas trans, por exemplo. Fora que, se já era difícil para uma pessoa LGBTQIA+, especialmente transexual, estar no mercado de trabalho, imagine agora, com essa crise. É muito complicado! Por isso é tão importante a gente se posicionar enquanto influenciador.

Não adianta ficar com medo de perder publi por falar mal do Bolsonaro, eu tenho mais medo de perder a vida.

Mandy Candy - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Imagem: Reprodução/Instagram
Mandy Candy - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Imagem: Reprodução/Instagram

No Twitter, você endossou a crítica a empresas que fazem campanha de apoio à população LGBTQIA+ apenas neste em junho, por ser o Mês do Orgulho. Qual é o problema desse movimento?

Percebo que as empresas querem lucrar com a gente só neste mês e depois esquecem. Isso é usar uma luta importante para fazer dinheiro.

Eu, como influenciadora, sempre falei muito sobre a vivência trans, mas também sou empresária, escritora, e falo sobre muitas outras coisas: moda, beleza, lifestyle... Mas as marcas só me chamam para fazer parceria em junho, para falar sobre transexualidade

Fora que, muitas vezes, essas empresas que colocam a bandeirinha arco-íris na propaganda têm um passado bem problemático, de campanhas homofóbicas, ou pouquíssimas pessoas LGBTQIA+ contratadas.

É preciso estar atento ao que a gente consome, observar se a empresa é realmente aliada da população LGBTQIA+, se promove ações ao longo do ano para essa ou outras causas importantes, se contrata pessoas trans, pessoas negras?

Como se dá a LGBTfobia em tempos de pandemia e isolamento social?

Eu diria que são piores, porque grande parte da homofobia e da transfobia vem de dentro de casa, infelizmente. Antes, ir trabalhar, ver um amigo, estar perto de outras pessoas LGBTQIA+ ou simplesmente sair de casa era um alívio para pessoas que sofrem com o preconceito dentro de casa. Claro que isso acontece nas ruas, mas quando é dentro de casa, é pior, porque são pessoas que deveriam te acolher, te dar a mão. Não consigo nem imaginar como é, eu sou uma pessoa muito privilegiada neste sentido.

Quão determinante foi, para você, ter o apoio da família?

Minha família me apoiou desde o início. É um privilégio, porque a gente sabe o que muitas famílias fazem com crianças e adolescentes LGBTQIA+. Eu não teria chegado onde cheguei se não fosse esse apoio. Desde muito nova, trabalhei com telemarketing para conseguir pagar psicóloga, tratamento hormonal.

Naquela época, eu colocava o pé para fora de casa e sofria preconceito, ataques, até latinha já jogaram em mim na rua. Mas quando eu voltava, à noite, sabia que minha mãe estava lá para me abraçar, me acolher, amparar parte desse sofrimento.

Mandy Candy - Divulgação - Divulgação
Mandy Candy: "Eu caía nessa cilada de que, para ser mulher, tem que ter mão pequena, bunda grande"
Imagem: Divulgação

Você tem compartilhado reflexões sobre autoestima e aceitação corporal. As pressões estéticas se dão de forma mais agressiva entre as mulheres trans?

Com certeza. Quando fala em mulher trans, as pessoas têm duas imagens em mente: a padrão, magra, loira, muito feminina e que é o objeto de desejo dos caras, ou a trans que ainda está começando a transicionar, que ainda não começou a tomar hormônios e por isso ainda tem feições mais masculinas — eu já fui essa mulher.

Por conta de estereótipos em relação às mulheres trans, muita gente comenta 'tu está muito gorda' ou 'tu está muito masculina', por exemplo. Ou pior: 'tal trans parece mais mulher do que você', comparando com outra mulher.

Eu caía nessa cilada que, para ser mulher, tem que ter mão pequena, bunda grande, boca carnuda. Demorei para me aceitar. Eu não sou contra cirurgia plástica, isso me ajudou muito no processo de aceitação, inclusive. Mas antes de fazer a gente precisa pensar: "Espera aí! Eu quero mesmo fazer isso ou estou fazendo pelos outros?"

O tema da Parada deste ano é o HIV. Por que ainda precisamos discutir esse tema décadas depois do surgimento do vírus?

Porque, até hoje, é um tabu muito grande. Não vejo o governo tratando o assunto com responsabilidade e nem as pessoas falando sobre isso. Mesmo entre pessoas LGBTQIA+, não é um tema tratado com tanta naturalidade. Eu sou uma mulher trans, entendo de diversidade, que questões LGBTQIA+, mas certamente tenho algumas ideias erradas sobre o tema. Hoje em dia, existem diversos influenciadores falando sobre a vida com HIV e Aids — e quanto mais gente falar, mais a gente consegue abrir a cabeça das pessoas sobre o assunto.

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