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"Sou evangélica, mas nunca me afastarei da minha filha homossexual"

Nilza (nome fictício) diz que não concorda com relacionamento da filha com outra mulher, mas que o amor a faz respeitar a decisão dela - iStock/ Pekic
Nilza (nome fictício) diz que não concorda com relacionamento da filha com outra mulher, mas que o amor a faz respeitar a decisão dela Imagem: iStock/ Pekic

Nilza*, em depoimento a Luiza Souto

De Universa

01/06/2021 04h00

"Tenho 55 anos e cresci na igreja evangélica, como toda a minha família, incluindo minha filha mais velha, de 33. Ela participava de atividades dentro do templo que frequentávamos. Até 2019, quando disse estar namorando uma mulher.

Sempre fomos muito amigas e ela já me confidenciava que queria ficar com uma mulher, mas nunca deixou esse sentimento aflorar. Dizia que orava muito e pedia a Deus para tirar isso da sua cabeça.

Minha filha teve relacionamentos com homens, foi noiva e algum tempo depois de terminar com o último contou que estava apaixonada por uma menina — e era aquilo e ponto. Foi na saída da igreja. Foi um choque, óbvio, principalmente porque meu filho se separou da mulher no mesmo mês que ela me contou.

Na hora, falei que tínhamos que conversar com os pastores da nossa igreja, que também são os tios dela. A primeira coisa que a pastora disse foi: 'Vai passar, aconteceu, foi um erro, peça perdão a Deus e vamos orar'.

Mas minha filha disse que não ia passar. Fomos até meus irmãos contar e a primeira coisa que eles pediram foi para não expor para algumas pessoas da família. Não concordei, mas respeitei. Por isso pedi para não ser identificada nessa matéria. Não tenho vergonha da minha filha, mas é por eles.

De cara, não quis conhecer sua namorada. Na minha cabeça, aquilo ia passar e não queria envolvimento. Ainda falei para ela: 'Você está em pecado e não vou participar disso'.

Quem foi criada numa religião e tem uma família tradicional, precisa entender que não é chegar e falar: 'Você que se vire e aceite'. Precisamos de um tempo para saber lidar. A Bíblia diz que a homossexualidade é pecado, por isso não aceitamos esse tipo de relacionamento. Mas quando falei que não concordava, minha filha se afastou e foi morar com a namorada.

Eu não a expulsei de casa, até porque não aceito atitudes como essa. A mãe da namorada dela é evangélica também, e quando soube do relacionamento não aceitou.

Passei um mês chorando e parei três vezes no hospital com crise de ansiedade e pressão alta. E não foi por ela estar em um relacionamento homoafetivo, mas pela amizade que tínhamos e que se perdeu.

Então comecei a orar até que Deus falou para mim: 'Ou você agrega ou vai perder sua filha de vez', porque no momento em que ela se afastou, ela foi abraçada por pessoas que a aconselharam a me esquecer.

Foi meu filho mais novo que pediu para ela voltar para casa, conversar comigo. Chorei muito quando a vi. Falei que só a queria ao meu lado. Ela chorou também e prometeu me visitar mais. Daquele dia em diante não tivemos mais problema nenhum.

Vejo que se não a aceitasse, teria perdido minha filha.

"Se vai pregar o evangelho, tem que ser com muito amor"

A mesma Bíblia que diz que é errado esse tipo de relacionamento manda não julgar e amar o próximo. O problema é que as pessoas não executam o amar e cuidar.

Não acho que seja homofobia dizer não concordar com relacionamento entre duas mulheres ou dois homens. É o que está escrito. Preconceito é ouvir pessoas, inclusive famosas, falarem que não suportam crente. Não seria cristofobia? Por que não se tem o respeito dos dois lados?

Tive como vizinho um casal de homossexuais e éramos muito amigos. Uma vez, me convidaram para almoçar e falaram que me amavam porque os aceitava como eles eram. Eu respondi: 'Já que vocês estão me dando o direito de comentar, que fique claro que amo vocês e nunca deixaria ninguém tocar em vocês por serem um casal. Mas não vou mentir: nunca vou concordar. É o que creio, o que aprendi na Bíblia'.

A gente está sendo muito crucificado por causa de um ou outro evangélico que também nos envergonha e não estamos sendo acolhidos. Os extremos estão aflorados, e as pessoas deixaram de ser amigas pelas discordâncias. Se vai pregar o evangelho, tem que ser com muito amor.

Hoje, minha relação com minha filha e sua namorada é boa. Falei para elas: 'Não concordo com o que vocês fazem, mas nunca vou me afastar de vocês'.

Elas não frequentam igreja e minha filha tem sentido falta, mas eu disse que ela não vai encontrar uma que exclua essa parte da Bíblia, que concorde com a homossexualidade. E ela fala: 'Só eu sei do meu relacionamento com Deus, por isso peço que Ele tenha misericórdia da minha vida'. Eu oro e peço que elas tenham paz."

*Nilza (nome fictício), 55, vive no Rio de Janeiro (RJ)

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