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Minha história: "Sou gorda, sofri preconceito e agora luto por respeito"

"Objetivo do movimento Vai Ter Gorda é elevar a autoestima", diz Adriana Santos - Divulgação/Arquivo pessoal
"Objetivo do movimento Vai Ter Gorda é elevar a autoestima", diz Adriana Santos Imagem: Divulgação/Arquivo pessoal

Adriana Santos, em depoimento a Fernando Barros

Colaboração para Universa

31/05/2021 04h00

Tenho 36 anos, nasci em Salvador e atualmente estou morando em Santo Antônio de Jesus, no interior da Bahia. Sempre fui gorda e já passei por diversos tipos de preconceito por causa disso.

As piores situações de discriminação que vivi foram dentro do transporte coletivo, nos ônibus, onde as catracas e as cadeiras não são adaptadas. É desumano e humilhante não poder contar com acessibilidade e ainda sofrer com os olhares e piadas das pessoas.

Elas não compreendem a falta de uma política pública e o quanto o corpo gordo é excluído, negligenciado e patologizado em nossa sociedade. Além disso, o Brasil é um país de mistura de raças e etnias, mas o patriarcado, o machismo e o sexismo ainda colocam a mulher branca e magra como padrão de beleza.

Para mudar isso, sempre atuei na luta contra a gordofobia e comecei a conhecer pessoas que também se identificavam com as mesmas dores que eu. Fomos pensando, então, ações e eventos em prol da valorização da nossa existência e, entre essas iniciativas, nasceu o coletivo Vai Ter Gorda, em janeiro de 2016.

A ideia surgiu como um ato na praia da Barra, em Salvador, e, no dia seguinte, nosso movimento estava estampado nas capas dos principais jornais impressos da cidade. Foi o início de tudo. A partir daí, não paramos mais de promover ações contra a gordofobia e a favor dos direitos das pessoas gordas.

Precisamos parar de achar que uma pessoa gorda é sinônimo de doença

O principal objetivo do movimento Vai Ter Gorda é elevar a autoestima das pessoas gordas, conscientizar a sociedade sobre o respeito às diferenças e sugerir políticas públicas de inclusão ao Estado.

Não recebemos ajuda, somos todos voluntários e nos orgulhamos do nosso trabalho. Estamos expandindo o movimento para outros estados e países. Defendemos que o governo e a sociedade precisam criar mecanismos para a combater o viés de patologia associado ao corpo gordo. Lutamos para que as pessoas tenham voz com suas particularidades e especificidades.

Adriana Santos faz parte do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Mulher na Bahia - Divulgação/Arquivo pessoal - Divulgação/Arquivo pessoal
Adriana Santos faz parte do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Mulher na Bahia
Imagem: Divulgação/Arquivo pessoal

Existe até a gordofobia médica, disfarçada em um discurso de preocupação com a saúde. Mas vale lembrar que o peso, a altura e o IMC de alguém, isoladamente, não carregam dados sobre hábitos saudáveis, hormônios, taxas de colesterol e triglicerídeos, além de outros fatores que só são detectados por meio de exames laboratoriais.

É importante ressaltar ainda que a pessoa ser ou estar gorda não é necessariamente resultado de comer demais. Vários outros fatores precisam ser analisados e considerados, como falta de sono, condições socioeconômicas, metabolismo, medicamentos, desequilíbrio hormonal, genética etc.

A sociedade precisa parar de estereotipar que ser magro é sinônimo de felicidade e de saúde

Muitas vezes, é essa gordofobia, inclusive, que desencadeia problemas como transtornos alimentares (compulsão alimentar, bulimia, anorexia), isolamento social, depressão, automutilação e, em casos mais graves, até suicídio.

Hoje, faço parte do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Mulher na Bahia, levantando a pauta das mulheres gordas

Em fevereiro de 2020, representando as mulheres gordas, tomei posse como conselheira no Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Mulher, um órgão colegiado da Secretaria de Políticas para as Mulheres do governo da Bahia. Lá, estamos construindo discussões sobre a temática e buscando conscientizar a sociedade sobre o respeito aos diferentes corpos e biótipos.

Além disso, com a minha atuação no Conselho, quero também fomentar estruturas para a inclusão de pessoas gordas e de todas as outras em diversos espaços, sem constrangimento por conta de seus corpos.

Sinto falta, por exemplo, tanto no âmbito municipal quanto estadual, de um Centro de Referência da Pessoa Gorda, para capacitação, treinamento, cursos e serviços para esse público, realizados por pessoas que sejam acolhedoras e humanizadas com relação à diversidade e ao respeito.

Esse é um dos meus sonhos e objetivos. Torço muito para que políticos, autoridades, empresários e até mesmo artistas e influenciadores digitais colaborem com essa luta. Afinal, o nosso papel como sociedade é dar visibilidade e promover ações afirmativas, de inclusão, representatividade e conscientização para desconstruir preconceitos, desmistificar os padrões de beleza e gerar oportunidades.

Assim, para terminar, deixo aqui um convite à reflexão sobre nossas ações com o meio ambiente, com a vida das pessoas e futuras gerações. Que possamos ter mais respeito e empatia com o outro e, antes de julgar, procurar entender que pessoas têm histórias, sentimentos e que palavras e atitudes magoam. Por isso, brincadeiras e piadas que machucam devem ser evitadas.