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"Pandemia levará mais gente a viver em vans", diz autora de "Nomadland"

A jornalista americana Jessica Bruder, autora do livro "Nomadland", que inspirou o longa de mesmo nome vencendor três Oscars em 2021. - Todd Gray/divulgação
A jornalista americana Jessica Bruder, autora do livro "Nomadland", que inspirou o longa de mesmo nome vencendor três Oscars em 2021. Imagem: Todd Gray/divulgação

Mariane Morisawa

Colaboração para Universa

31/05/2021 04h00

A jornalista norte-americana Jessica Bruder colocou o carro — alugado — na estrada em 2014, para investigar por que pessoas idosas não conseguiam se aposentar no país mais rico do mundo percorrendo o país atrás de trabalhos temporários e vivendo em vans. Por algumas semanas, ela dormiu numa barraca e fez entrevistas com outras pessoas nômades para escrever uma reportagem para a revista "Harper's" que logo depois viraria o projeto de um livro.

"Nomadland - Sobrevivendo na América no Século XXI" conta a história desses nômades que a autora conheceu na estrada e foi lançado no Brasil no domingo (30), pela editora Rocco. A história originou o longa de mesmo nome que ganhou três Oscars neste ano: melhor filme, direção e atriz para Frances McDormand. A diretora do filme, Chloé Zhao, é a segunda mulher a ganhar a estatueta na categoria — e a primeira de origem asiática.

Em três anos, Bruder percorreu 24 mil quilômetros, viajando de costa a costa, da fronteira do Canadá até o México. Na estrada, conheceu nômades da terceira idade sem emprego ou aposentadoria, a maioria mulheres, vítimas da crise econômica de 2008 que atingiu fortemente os EUA e fez com que muitas pessoas também perdessem suas casas, além do trabalho. "Mas, só para deixar claro, não fiquei três anos direto na van, eu ia e voltava para Nova York", disse Bruder em entrevista a Universa, por videoconferência.

bruder - Divulgação - Divulgação
Jessica Bruder cruzou os EUA em uma van para escrever "Nomadland", que retrata o nomadismo nos EUA após a crise econômica de 2008
Imagem: Divulgação

Na produção que estreou em algumas salas de cinemas do Brasil no meio abril, McDormand é Fern, uma mulher que perdeu o marido, o emprego, a casa e até a cidade onde morava, com o fechamento da única indústria do local. Sem ter como pagar o aluguel cada vez mais caro, ela cai na estrada, numa van. No caminho, encontra outras mulheres como ela — Swankie, Linda May, Suanne, que são personagens do livro e nômades na vida real e fazem versões ficcionalizadas de si mesmas no filme.

Nesta entrevista, Bruder fala da experiência de cruzar os EUA dirigindo, do fascínio em ver muitas mulheres mais velhas e solteiras na estrada e diz que a pandemia levará mais pessoas a viverem em motorhomes (trailers que funcionam como casa).

UNIVERSA - Quais desafios você enfrentou em três anos na estrada?

JESSICA BRUDER - Eu nunca tinha dirigido um veículo velho antes. A van era de 1995, quando eu estava terminando o ensino médio, e pesa, literalmente, uma tonelada. O fato de o veículo ser sua casa e seu transporte faz com que se torne seu exoesqueleto, como se fosse parte de você. Quando a van quebra, é difícil. E para mim era diferente porque eu poderia voltar para minha casa no Brooklyn, em Nova York. Mesmo assim é estressante.

A atriz Frances McDormand em cena de 'Nomadland' - Divulgação - Divulgação
A atriz Frances McDormand em cena de 'Nomadland'
Imagem: Divulgação

Aprendi muito apenas observando as pessoas fazendo pequenas coisas que damos de barato numa casa tradicional, como manter o lugar aquecido, ou onde tomar banho. Muitas pessoas que conheci se inscreveram numa rede de academias. Existem todos os tipos de pequenos truques que as pessoas usam para contornar de maneira muito inteligente e criativa aquilo que é garantido quando se mora sob um teto.

Por que tantas mulheres estão na estrada nos EUA?

As mulheres nos Estados Unidos ganham menos do que os homens ao longo da vida. A maior parte do trabalho não remunerado de cuidados de familiares e da casa recai sobre os ombros das mulheres — e elas frequentemente passam um tempo fora da força de trabalho tradicional fazendo isso. E, como resultado, muitas têm uma aposentadoria mais baixa. Muitas pessoas que conheci vinham de uma geração em que basicamente ouviam: "Você vai crescer, vai se casar com um homem, vai ter filhos, vai cuidar da casa. O homem será o provedor".

E agora elas estão vivendo em um mundo muito, muito diferente. As mulheres vivem mais do que os homens. Além disso, divórcios acontecem. Os maridos podem ter morrido, ou se revelado abusivos. Elas não estão no mundo que foram criadas para esperar. E estão se adaptando, se encontrando e se ajudando.

Há até um Rubber Tramp Rendezvous [encontro de pessoas nômades] só de mulheres agora, o que é maravilhoso.

É mais desafiador estar na estrada sendo mulher?

lindA - Divulgação/Searchlight - Divulgação/Searchlight
Linda May, que mora em um trailer, é uma das personagens do livro e interpreta ela mesma no filme
Imagem: Divulgação/Searchlight

Tenho certeza de que há pessoas que enfrentaram dificuldades e acho que existe uma consciência de que as mulheres precisam prestar mais atenção a certas questões de segurança. Me ensinaram a estacionar de ré, pois, se precisasse sair rapidamente, daria. Mas realmente nunca tive problemas. Quando estava na estrada, não enfrentei o que chamaria de perigo. De vez em quando, eu saía de algum lugar porque meu instinto dizia que talvez não fosse bom ficar ali. Mas eu senti que as pessoas ficavam desapontadas quando eu contava isso.

Me perguntavam: 'Você sabe lutar jiu-jitsu? Tem spray para ursos? Trouxe uma arma?'. Não tinha nenhuma dessas coisas. O maior perigo que corri foi calórico, porque as pessoas eram tão hospitaleiras e generosas que queriam me dar comida o tempo todo.

Como foi para você procurar essas pessoas afetadas pela crise de 2008, que não conseguem se aposentar, nem pagar aluguel ou ter uma casa, mas que gostavam desse estilo de vida nômade? Ou que muitas vezes tiveram razões diferentes para cair na estrada?

Eu aprendi que, mesmo quem acabou na estrada, não inteiramente por escolha própria, muitas vezes se adapta e passa a gostar. Mas não sei se não aceitariam outra opção, se houvesse. Todos nós nos ajustamos ao leque de opções que nos foi dado.

E às vezes o que uma pessoa chama de escolha pode ser uma escolha entre duas opções muito limitadas, mas agarrar-se a isso como uma escolha é uma forma de afirmar sua dignidade. E eu admiro muito isso. Colocando em outros termos: se você me pedisse para escolher entre apanhar com um martelo ou levar um pisão no pé, eu escolheria o pisão e diria que foi uma escolha. Mas isso não significa que eu queria que você pisasse no meu pé.

Muitas das mulheres que conheci eram incrivelmente independentes, autossuficientes, muito criativas, adaptáveis. Eu acho que você tem que ser para viver essa vida.

Acha que a pandemia vai piorar a situação e levar mais pessoas a morar na estrada?

Acho que sim. É lamentável, mas, no momento, inevitável. Não sei se encontramos uma solução para quando essas pessoas não conseguirem pagar a hipoteca e serem despejadas. Teremos pessoas com o aluguel atrasado e enfrentando despejo. Algumas pessoas vão se mudar para veículos e abrigos. Sinto que não há como evitar estressar o ecossistema para as pessoas que já estão fazendo isso.

Quando você pensa sobre quem está, por exemplo, tentando acampar furtivamente em cidades, se não houver muitas pessoas por perto, não é tão difícil de fazer. Quando todos os outros quarteirões têm pessoas acampando furtivamente, não é mais muito furtivo.

E me preocupo com o fato de as pessoas estarem sujeitas a assédio, porque muitos lugares estão essencialmente criminalizando viver em um veículo. Vemos pessoas que dizem "No meu quintal, não" acontecendo, em vez de vermos como resolver a situação juntos.

É muito impressionante que o país mais rico do mundo tenha tantas pessoas nas ruas, não?

nomadland - Divulgação - Divulgação
O livro "Nomadland" (Ed. Rocco), de Jessica Bruder, acaba de ser lançado no Brasil
Imagem: Divulgação

Somos os mais desiguais entre todos os chamados países desenvolvidos. Há uma estatística que ainda me surpreende e provavelmente piorou desde 2019 que nos mostra que os CEOs que dirigem empresas estão ganhando cerca de 320 vezes o que um trabalhador médio ganha. E se você voltar algumas décadas, essa proporção era algo como 20 para um. Era muito diferente.

Há mais gente jovem tendo que fazer isso?

Sim. Eu vi algumas pessoas mais jovens na estrada que pensavam: se eu for para a faculdade, haverá um emprego para eu ganhar o suficiente para sair dessa dívida do financiamento estudantil? Saiu uma matéria na revista "New Yorker" sobre a vida na van.

Só que é muito divertido falar sobre minimalismo. É menos divertido falar sobre pobreza. E muitas dessas coisas estão interligadas.

Até que ponto é uma escolha ter três empregos?

Pois é. Quer dizer, nos anos 1960 nos Estados Unidos, ter um trabalhador ganhando um salário mínimo em casa muitas vezes era suficiente para manter uma família pobre. E agora isso parece completamente absurdo.

No livro, a maioria das histórias contadas são de mulheres. Havia mais mulheres ou sua conexão com elas foi maior?

Havia uma quantidade enorme de mulheres solteiras mais velhas na estrada, e isso foi realmente fascinante para mim. Mas não comecei a reportagem achando que ia contar a história de mulheres. Na verdade, a pessoa que pensei que seria o foco da história da revista era um homem, que chamo de John Wheeler no livro — uso um nome fictício porque não quero metê-lo em confusão. Ele foi uma das únicas pessoas que conheci que começou como trabalhador sazonal e foi contratado em tempo integral na Amazon.

É mais desafiador estar na estrada sendo mulher?

Tenho certeza de que há pessoas que enfrentaram dificuldades e acho que existe uma consciência de que as mulheres precisam prestar mais atenção a certas questões de segurança. Me ensinaram a estacionar de ré, pois, se precisasse sair rapidamente, daria. Mas realmente nunca tive problemas. Quando estava na estrada, não enfrentei o que chamaria de perigo. De vez em quando, eu saía de algum lugar porque meu instinto dizia que talvez não fosse bom ficar ali. Mas eu senti que as pessoas ficavam desapontadas quando eu contava isso.

Me perguntavam: 'Você sabe lutar jiu-jitsu? Tem spray para ursos? Trouxe uma arma?'. Não tinha nenhuma dessas coisas. O maior perigo que corri foi calórico, porque as pessoas eram tão hospitaleiras e generosas que queriam me dar comida o tempo todo.

Há muito machismo nesse ambiente?

Eu não vi isso. Mas não sou socióloga, minha amostra era relativamente pequena. Não digo que não existe. A única coisa é que se espera que os homens saibam como fazer consertos. Mas também muitas mulheres dessa outra geração não aprenderam essas coisas [como consertar algo no carro], então participavam de aulas, por exemplo. Então, mesmo que houvesse machismo, esses homens estavam dispostos a relaxar e compartilhar seus conhecimentos, o que eu achei ótimo.

Como você acha que enfrentaria uma situação dessas?

Eu estaria fazendo a mesma coisa. E provavelmente me sentiria com sorte por ter recebido uma educação muito completa antes de cair nessa vida.

Por que a maioria desses nômades é branca?

chloe - Todd Wawrychuk/A.M.P.A.S. via Getty Images - Todd Wawrychuk/A.M.P.A.S. via Getty Images
A chinesa Chloé Zhao foi a segunda mulher em 93 edições do Oscar a ganhar a estatueta de melhor direção -- e também a primeira de origem asiática
Imagem: Todd Wawrychuk/A.M.P.A.S. via Getty Images

Atribuo isso ao racismo. Viajando enquanto negro ou pardo é complicado quando temos tiroteios policiais contra negros desarmados. Para as pessoas não brancas, nem sempre essa solução de viver na estrada é possível. Mas existem outras maneiras de se virar. Alguns vão morar com parentes. E algumas das pessoas que conheci poderiam ter feito isso, mas não queriam porque seus filhos também estavam em uma situação financeira muito ruim.

Como resolveu a questão do banheiro na van? No filme, eles usam baldes.

Minha van veio com o que é chamado de banheiro químico, que eu defino como uma bola de futebol nuclear. É bem nojento. É um pequeno tanque de plástico com um assento e produtos químicos no fundo. Eles digerem os resíduos, por isso não deixam mau cheiro. Só que, quando estiver cheio, você precisa encontrar um lugar para despejá-lo. Como Suanne [que ela conheceu na viagem] diz no filme, todo mundo tem que aprender a lidar com suas próprias merdas.

Ainda mantém contato com pessoas que conheceu na estrada — além das que viraram estrelas de cinema atuando no filme?

E só para constar, mantive contato com eles antes de se tornarem estrelas de cinema. Como jornalista, você nunca sabe como suas fontes se sentirão a respeito do que você escreve. E eu tive muita sorte, pois eles gostaram muito. Vários de nós formamos um grupo no Facebook, alguns acompanhavam minhas leituras, foi muito fofo. E eu pude ver várias pessoas novamente quando estávamos filmando. A última coisa que tive chance de fazer com algumas pessoas que eu acompanho há muito tempo foi ir para Los Angeles ajudar Linda May e Swankie quando elas estavam se preparando para a cerimônia do Oscar. Foi muito divertido. Elas estavam lá com stylist, cabeleireiro. Levei as duas até a limusine, foi muito legal.

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