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"Aquela imagem representou coragem", diz vereadora agredida no Recife

Liana Cirne é vereadora do Recife (PT) e professora da Universidade Federal de Pernambuco - Malu Aquino
Liana Cirne é vereadora do Recife (PT) e professora da Universidade Federal de Pernambuco Imagem: Malu Aquino

Liana Cirne* em relato a Carlos Madeiro

Colaboração para Universa

30/05/2021 19h11

"Na sexta-feira à noite, estava tudo preparado em meu gabinete para participarmos do ato nacional aqui no Recife. Já tínhamos 200 máscaras PFF2 compradas para doação e camisetas para toda equipe com os dizeres: 'Comida no prato. Vacina no braço. Fora Bolsonaro.'

Entretanto, no mesmo dia, o Ministério Público emitiu recomendação para que o ato fosse cancelado. Dirigentes locais do PT determinaram cumprimento da recomendação e eu, como parlamentar, obedeci.

Professora de direito há 25 anos, advogada e ativista, o mínimo que me cabia era oferecer assistência jurídica, em caso de violência policial. Disponibilizei um número para que as pessoas ligassem, se precisassem. Sabia que a militância compareceria ao ato.

De casa, acompanhava a manifestação, que transcorria pacífica. Arthur, motorista do gabinete, me esperava embaixo do meu apartamento, junto com minha melhor amiga e a chefe de gabinete, Thais; e Malu, nossa fotógrafa. Iríamos entregar cestas básicas, adquiridas a partir de uma vaquinha feita no gabinete, em uma comunidade da zona sul do Recife.

Ao meio-dia, meu celular pessoal começou a tocar insistentemente, assim como o de meu gabinete. Era para informar sobre a ação da Polícia Militar de Pernambuco, que começou a agredir violentamente manifestantes. Trabalhadores que circulavam de bicicleta ou aguardavam ônibus no centro do Recife também viraram alvos da repressão.

Coloquei minha roupa de advogada: vestido tubinho e salto alto. O mesmo figurino que usei quando defendi uma mulher grávida das agressões da polícia, durante os protestos do Ocupe Estelita, em 2014. Fui então prestar assistência aos manifestantes.

No caminho, nos deparamos com uma cena de filme de tragédia: um grupo grande de pessoas correndo e pedindo socorro. Na hora em que a gente vivencia uma cena dessas, não existe coragem, nem medo. É só o impulso! Desci do carro e peguei apenas minha carteira de vereadora.

Os manifestantes corriam para um lado e eu, no sentido oposto, com o braço erguido e a carteira de vereadora em riste. Foi muito difícil ter essa carteira. Tenho consciência do quanto é raro uma mulher ocupar o lugar que estou ocupando. Já sou conhecida como a vereadora 'workaholic' [viciada em trabalho]. Sempre a última a sair e, geralmente, a primeira a chegar.

Chegamos com muita fome e sede de ocupar este espaço. Então minha credencial não é para dar "carteiraço de otário", para furar fila, exigir tratamento diferenciado, como alguns políticos ainda insistem em fazer. Mas quando desci do carro no meio da ponte Princesa Isabel, minha carteira de couro com brasão da Câmara Municipal representava mais do que uma carteira funcional, mais do que as pessoas que votaram em mim. Representava a democracia legitimada pelo voto popular e contra o autoritarismo.

Segui para impedir o avanço da polícia sobre os manifestantes. Foi aí que Malu tirou a minha foto em frente à viatura, que depois viralizou.

Quando os policiais desceram da viatura, enquanto disparavam balas de borracha diretamente nos manifestantes, ainda com a carteira em riste, segui na direção deles, pedindo identificação e informando que abriria procedimento disciplinar contra eles, pois estavam descumprindo a lei.

Eles voltaram para a viatura e novamente solicitei a identificação. Foi quando um policial militar disparou um longo jato de spray de pimenta no meu rosto.

Hoje, um dia depois da violência, vi em vídeos que meus cabelos brancos voaram com a força do jato. Na hora, perdi a consciência brevemente. Thais e Arthur também foram atingidos, enquanto me socorriam. Fui carregada nos braços por um estranho.

Entramos no carro em direção a uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), mas Arthur não conseguia enxergar. Paramos o carro no meio da rua e aguardamos cerca de 15 minutos até que recuperássemos a visão para pedir ajuda.

Só muito mais tarde vi as fotos que Malu fez, os desenhos, as charges, as notas de apoio; e me emocionei profundamente. Em tempos de medo, de doença, de fome, de repressão, aquela imagem representou coragem. Um sentimento que nós conhecemos muito, pois somos povo de luta, mas do qual andamos distantes."

*Liana Cirne é vereadora do Recife (PT) e professora de Direito Processual Civil na Faculdade de Direito do Recife (UFPE).

O que diz o governo estadual de Pernambuco

No sábado (29), Luciana Santos (PCdoB), vice-governadora de Pernambuco, se pronunciou nas redes sociais após a ação da Polícia Militar durante o protesto contra o presidente Jair Bolsonaro.

"A ação da PM contra manifestantes não foi autorizada pelo governo do Estado. Nós estamos ao lado da democracia. Os atos de violência, que repudiamos desde já, estão sendo apurados e terão consequências", disse em vídeo.

Horas mais tarde, o governador, Paulo Câmara (PSB), também afirmou que o comandante e os demais policiais militares envolvidos na agressão à vereadora do Recife Liana Cirne (PT) foram afastados das funções e serão investigados.

"O oficial comandante da operação, além dos envolvidos na agressão à vereadora Liana Cirne, permanecerão afastados de suas funções enquanto durar a investigação. Sempre vamos defender o amplo diálogo, o entendimento e o fortalecimento de nossas instituições dentro da melhor tradição democrática de Pernambuco", afirmou em vídeo publicado no Twitter.

O que dizem outras instituições

A Câmara Municipal do Recife e a Ordem dos Advogados do Brasil em Pernambuco (OAB-PE) divulgaram notas de repúdio e pediram apuração dos fatos ao governo estadual. O Ministério Público de Pernambuco (MPPE) também disse, em nota, que vai apurar a atuação da PM durante ato do último sábado (29).

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