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Caso Neymar: por que há mulheres que demoram para denunciar abusos sexuais

Neymar: funcionária da Nike acusou assédio em 2016 e investigação três anos depois - Simon Stacpoole/Offside/Offside via Getty Images
Neymar: funcionária da Nike acusou assédio em 2016 e investigação três anos depois Imagem: Simon Stacpoole/Offside/Offside via Getty Images

Camila Brandalise

De Universa

28/05/2021 14h58

Uma situação recorrente se repete na acusação envolvendo Neymar: vítimas podem levar anos para fazer uma queixa formal. Nesse caso, foram dois, de 2016, quando a funcionária da Nike afirma ter sido vítima de uma tentativa de estupro, a 2018, quando denunciou Neymar para a empresa. Com medo de uma possível exposição, ela só permitiu que fosse aberta uma investigação um ano depois.

A história foi revelada pelo jornal americano "Wall Street Journal", confirmada pelo UOL e levou ao rompimento do contrato do jogador com a Nike em 2020.

"Existem várias barreiras que impedem a mulher de falar sobre o abuso. Tem a ver com o medo de que sua conduta seja posta à prova, sua palavra não seja aceita ou, ainda, sofra retaliação. Se o acusado for uma pessoa poderosa, uma figura famosa, haverá um arsenal de advogados e assessores que vão poder suprimir a força da palavra da vítima", explica o psiquiatra Thiago Apolinário, especialista em sexualidade humana pela USP (Universidade de São Paulo), com mestrado sobre consequências da violência sexual na saúde da mulher.

Outros especialistas consultados por Universa também são categóricos: uma mulher não denunciar imediatamente não é, sob qualquer hipótese, justificativa para colocar sua palavra em xeque. Pelo contrário, a grande maioria leva anos ou mesmo deixa de denunciar por medo e vergonha. Elas podem ainda ficar em estado de choque e sem querer tocar no assunto por muito tempo.


Demorar para denunciar significa que é uma acusação falsa?

Não. Embora sejam frequentes comentários nas redes sociais questionando o fato de mulheres denunciarem violência sexuais anos após terem acontecido, a única contagem de tempo que realmente pode interferir na denúncia, segundo a legislação brasileira, é o tempo de prescrição, o intervalo máximo em que um crime pode ser denunciando. No Brasil, o período é de 16 anos para estupro, e quatro para assédio sexual.

"Fora isso, não existe tempo certo para fazer uma denúncia", afirma a advogada Mariana Tripode, professora da Escola Brasileira de Direitos das Mulheres e especialista no tema. "Por saber que será o tempo todo questionada, descredibilizada e até mesmo culpada por ter sido abusada, elas se sentem acuadas e preferem guardar silêncio."

"Há casos em que as próprias autoridades policiais criam obstáculos e constrangem as vítimas, produzindo uma nova agressão, vitimando mais uma vez aquela mulher que já foi abusada"

Para a advogada, é justamente por saber o que irá enfrentar caso denuncie que a mulher precisa de tempo. "Encarar todo esse julgamento da opinião pública requer muita força e apoio. Eu entendo que é preciso provar os fatos antes de condenar imediatamente aquele acusado de abuso, mas o acolhimento à palavra da vítima para que ela se sinta segura é fundamental na apuração de crimes sexuais ou outros tipos de abuso contra a mulher."

Como explica a sexóloga forense Mariana da Silva Ferreira, que atende vítimas de violência sexual, são crimes de difícil comprovação por aconteceram, na maioria das vezes, em lugar privado e sem testemunhas.

"Resta apenas as versões da vítima e do agressor, que via de regra, nega que tenha feito algo."

Em um post no Instagram nesta sexta-feira (28), Neymar negou a versão de que o contrato com a Nike foi rescindido por não ter colaborado com as investigações e afirmou que não conhece a funcionária que o denunciou e nunca teve qualquer relação com ela. Afirma, ainda, que não chegou a ter a oportunidade de se defender.

"Contrariar essa regra e afirmar que o meu contrato foi encerrado porque não contribuí de boa-fé com uma investigação é absurdo, mentiroso. Mais uma vez sou advertido que não posso comentar em público", escreveu o jogador. "Não me deram a oportunidade de me defender. Não me deram a oportunidade de saber quem é essa pessoa que se sentiu ofendida. Eu nem a conheço. Nunca tive nenhum relacionamento. Não tive sequer oportunidade de conversar, saber os reais motivos da sua dor. Essa pessoa, uma funcionária, não foi protegida. Eu, um atleta patrocinado, não fui protegido."

Como procurar ajuda


Mulheres que passaram ou estejam passando por situação de violência, seja física, psicológica ou sexual, podem ligar para o número 180, a Central de Atendimento à Mulher. Funciona em todo o país e no exterior, 24 horas por dia. A ligação é gratuita. O serviço recebe denúncias, dá orientação de especialistas e faz encaminhamento para serviços de proteção e auxílio psicológico. O contato também pode ser feito pelo Whatsapp no número (61) 99656-5008.

Vítimas de estupro podem buscar os hospitais de referência em atendimento para violência sexual, para tomar medicação de prevenção de ISTs (infecções sexualmente transmissíveis), ter atendimento psicológico e fazer interrupção da gestação legalmente.