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Sem vacina, morte de grávidas será 4 vezes maior que em 2020, diz Fiocruz

A vereadora paraibana Diana Neris, 28, teve covid-19 aos oito meses de gravidez e morreu - Reprodução
A vereadora paraibana Diana Neris, 28, teve covid-19 aos oito meses de gravidez e morreu Imagem: Reprodução

Camila Brandalise

De Universa

27/05/2021 04h00

A terceira gestação da empresária e assistente social Diana Neris, 28, não havia sido planejada, como lembra uma de suas amigas próximas, Thaís Leal, 35. "Ela dizia que, apesar disso, a filha era um presente de Deus, e que Ele sabe de todas as coisas", diz.

Vereadora de Baixa Grande do Ribeiro (PI) pelo PSB, Diana foi diagnosticada com covid-19 no dia 9 de maio, no oitavo mês de gravidez, e morreu em decorrência da doença no dia 16, após realizar uma cesárea de emergência. "Foi tudo muito rápido", conta Thaís, que é secretária de Saúde da cidade. "Infelizmente, ela foi mais uma vida levada por esse vírus." A filha da vereadora, prematura, segue internada na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) neonatal de um hospital em Teresina (PI).

O nome de Diana Neris se junta ao de outras 653 grávidas e mães de recém-nascidos (puérperas) que morreram em decorrência de covid entre janeiro e abril deste ano. O número ultrapassou os óbitos maternos pela doença em todo o ano de 2020, que foi de 432, segundo dados do IFF/Fiocruz (Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira).

"Se nada for feito em relação a esse cenário, o número de óbitos de gestantes e puérperas até dezembro pode ser de três a quatro vezes maior do que em 2020", afirma o obstetra Marcos Nakamura, pesquisador do instituto. Segundo ele, o perfil dos casos mudou de um ano para cá."Quando avaliamos a letalidade, ou seja, a relação entre mortes e infectados, percebemos que piorou neste ano para toda a população. Para gestantes e puérperas, mais do que dobrou", explica. "Em 2020, no pico da pandemia, a taxa era de 9%. Em abril, foi de 20%."

60% das mães que morreram em 2021 não tinham comorbidades

O Ministério da Saúde incluiu grávidas e puérperas no grupo prioritário do PNI (Plano Nacional de Imunizações) apenas no final de abril, mas, no dia 11 de maio, mudou a orientação para que apenas aquelas com comorbidades sejam imunizadas, após a morte de uma gestante que poderia estar relacionada à vacina da AstraZeneca/Oxford.

Porém, o levantamento do IFF/Fiocruz mostra que 60% das gestantes e mães que morreram em 2021 não tinham nenhuma doença preexistente. Segundo Nakamura, um dos médicos responsáveis pelo monitoramento das mortes maternas feito pelo instituto desde o início da pandemia, a gravidez por si só já é um fator de vulnerabilidade para a mulher, aumentando a chance de complicações da covid-19.

Quando a mulher está no terceiro trimestre da gestação, o aumento do tamanho do útero diminui a capacidade de expansão do tórax e de reserva respiratória. Isso acontece em todas as gestações. Mas se a mãe for afetada por uma doença que compromete o funcionamento do pulmão, como é o caso da covid, ela vai piorar mais rapidamente porque já tem perda de função de parte do órgão.

No pós-parto, ou puerpério, ele diz, "o maior problema é a associação entre covid e trombose, que pode levar ao agravamento da primeira, pois é uma fase em que já há uma predisposição para a formação de coágulos."

Por isso, segundo o especialista, é preciso colocar as mães no topo da lista da vacinação. "É a principal medida a ser tomada para evitar que a alta taxa de mortalidade materna aumente ainda mais", afirma.

Há outras vacinas que podem ser aplicadas enquanto se investiga esse óbito [com a vacina da Astrazeneca]. Também já se sabe que os anticorpos podem passar de mãe para filho. Imunizar a gestante significa proteger, também, o bebê. São duas vidas salvas.

O Brasil é o país com maior índice de morte materna durante a pandemia no mundo — segundo uma pesquisa do "International Journal of Gynecology and Obstetrics", 77% das gestantes que morreram de covid-19 são brasileiras.

STF pede explicação do governo sobre paralisação da vacinação

Nesta quarta (26), o ministro Ricardo Lewandowski, do STF (Supremo Tribunal Federal), deu um prazo de cinco dias para o Ministério da Saúde explicar por que decidiu paralisar a vacinação de grávidas e puérperas sem comorbidades.

O pedido de Lewandowski acontece após o PSOL entrar com ação pedindo uma liminar para a reinclusão de grávidas e puérperas sem doenças preexistentes no grupo prioritário de vacinação. A ação do PSOL conta com a assinatura de organizações de proteção a mulheres: Projeto Cravinas, Rede Feminista de Ginecologistas e Obstetras e Rede Brasileira de Mulheres Cientistas.

"O Ministério da Saúde, a partir de um caso, determinou a paralisação total. Foi uma decisão equivocada tendo em vista que há outros dois tipos de vacinas disponíveis. Nossa ação pede a retomada imediata da imunização e pede que isso se estenda a todas as gestantes e puérperas, não apenas as que tenham comorbidades", diz a deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP). A parlamentar, grávida de sete meses, é coautora de um projeto de lei que exige vacina para grávidas e mães de recém-nascidos, ainda sem data para votação em plenário.

"A situação está muito desigual pelo Brasil. Há cidades que vacinam todas as mães, outras mulheres já relataram terem sido barradas em postos de vacinação porque não têm documentos de comorbidades. Em outros locais, dizem que está suspenso. É preciso regularizar esse processo para que evitar o aumento da legião de órfãos da pandemia", afirma Sâmia.

Na comissão de acompanhamento da covid-19 no Senado, o tema também está entre as prioridades. A senadora Daniella Ribeiro (PP-PB) também apresentou um projeto de lei sobre o tema e chegou a se reunir com o ministro da saúde, Marcelo Queiroga, para falar da necessidade de incluir as mães no PNI. "O ministério tomou para si o assunto, mas houve a suspensão das vacinas. Agora, acredito que os estados precisam cumprir essa responsabilidade", diz Ribeiro.

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