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Ex-Profissão Repórter criou startup aos 26: "Sou preta e nasci cancelada"

A empreendedora baiana Monique Evelle, 26, lançou a Inventivos, plataforma de educação e networking - Diva Nssar
A empreendedora baiana Monique Evelle, 26, lançou a Inventivos, plataforma de educação e networking Imagem: Diva Nssar

Marcelle Souza

Colaboração para Universa

25/05/2021 04h00

A empresária Monique Evelle, 26, quer que o empreendedorismo seja menos apresentações de PowerPoint e mais mão na massa. "As pessoas conseguem investimento através de um PPT, eu fico indignada. Dizem que a projeção daqui a dez anos vai ser isso e se tornam os maiores valores de mercado. Nunca entendi essa lógica. As periferias fazem com nada, provam que funciona, têm tudo que os empreendedores falam, mas usam outra linguagem", diz a Universa.

A startup de Monique, a Inventivos, é uma das selecionadas para receber investimentos do fundo Black Founders do Google, destinado a startups fundadas e lideradas por pessoas negras no Brasil. Com sua plataforma de educação e networking, ela quer capacitar profissionais com o uso de ferramentas tecnológicas e contribuir para um futuro menos desigual no mercado de trabalho.

"As empresas estão com políticas de diversidade, querem os melhores talentos, mas poucas se responsabilizam por desenvolvê-los", diz a baiana que foi eleita uma das 50 profissionais mais criativas do Brasil pela revista americana "Wired" e é autora do livro "Empreendedorismo Feminino: Olhar Estratégico Sem Romantismo" (ed. Memória Visual).

Monique é empreendedora há dez anos, quando criou o Desabafo Social, um negócio social para discutir direitos humanos nas periferias. É sócia da Sharp, empresa de inteligência cultural, atua como consultora de inovação e criatividade para várias empresas e fez parte da equipe de Caco Barcellos no "Profissão Repórter" (Globo), que deixou em 2018 após uma imersão no Vale do Silício, famoso polo tecnológico na Califórnia, nos Estados Unidos.

Em entrevista a Universa, Monique fala sobre empreendedorismo, racismo e privilégios.

Eu sou empresária, mas sou uma mulher preta de dread no cabelo. Você acha que é fácil chegar a um evento e ter que falar o meu nome para me tratarem bem?

UNIVERSA - Por que você acha que sua startup Inventivos, que criada há apenas sete meses, chamou a atenção do fundo de investimentos para empreendedores negros do Google?

Monique Evelle - Em uma pandemia, contexto em que a gente surgiu, as empresas estão com políticas de diversidade, querem os melhores talentos, mas poucas se responsabilizam por desenvolvê-los. As empresas querem alcançar 30% de lideranças femininas, 50% de lideranças negras, mas não preparam ninguém. Então a gente resolveu desenvolver habilidades do futuro, e por isso o valor é acessível. Quando a gente se inscreveu no Google, ficou com essa dúvida: somos tão jovens, será que eles vão ler a nossa proposta? Mas tem uma coisa do formato da Inventivos.

Se a gente for pensar em edtechs [empresas que desenvolvem soluções tecnológicas para educação] no Brasil, muitas são focadas em exposição de conteúdo, ou seja, são a "Netflix" de alguma coisa. Só que exposição é apenas 10% do aprendizado. Então a gente juntou exposição, contribuição e interação entre os membros. A Inventivos surge com a pegada de comunidade vertical, com foco no futuro do trabalho, e acredito que foi esse formato e modelo de negócio que o Google olhou e achou que pode ser interessante.

O que te levou quando você tinha 16 anos a criar o Desabafo Social para discussão de direitos humanos nas periferias?

Eu nem sabia o que eu estava fazendo, na verdade [risos], e me disseram que era empreendedorismo social. O Desabafo surgiu para tentar decodificar, traduzir direitos humanos para as periferias. Começou na minha própria periferia de Salvador, nordeste de Amaralina, e até 2011 a gente só fazia encontros "off-line", era na rua, não tinha rede social, blog. Com o tempo, entendemos que poderíamos acessar plataformas digitais.

Foi importante ver que dava para empreender para tentar mudar o mundo e, ao mesmo tempo, ganhar dinheiro, porque precisamos pagar as pessoas para continuar fazendo um trabalho. Se fosse voluntariado, tudo bem, mas não é.

O Desabafo nasceu no formato sem fins lucrativos, mas no meio do percurso a gente deixou de ser uma ONG de educação para se tornar um laboratório de tecnologias sociais, e foi aí que passou a ser um negócio social. Em 2019, eu resolvi passar o bastão para outras pessoas. Continuo por perto, mas a operação não é mais Monique.

Por que você deixou uma carreira no jornalismo e no "Profissão Repórter" para empreender?

Foi excelente ter passado pelo "Profissão Repórter". Caco Barcellos é meu mentor até hoje. Eu estava ali contando histórias, mas já tinha o Desabafo Social. O "Profissão Repórter" foi excelente para a Monique pessoa física, mas eu não estava conseguindo me enxergar a longo prazo fazendo apenas isso, porque sou multipotência. A cereja do bolo foi quando não cheguei no aniversário de minha mãe e nem no de meu pai, porque estava gravando.

Na jornada empreendedora, tem dias de glória e outros de aperto e desespero, mas eu sei que vou chegar no aniversário de minha mãe. Sucesso para mim é poder não trabalhar final de semana

Antes de sair do programa, você visitou o Vale do Silício, nos Estados Unidos. O que aprendeu lá?

Eu ia pedir demissão [do "Profissão Repórter"], mas antes eu decidi pegar férias e respirar, porque todo mundo fala que o Vale do Silício é o mais inovador do mundo.

Lá eu descobri que o 'Vale do Silêncio' que são as periferias do Brasil, ou o que eu chamo de novos centros urbanos, têm muito mais troca de aprendizados. Esse lugar de comunidade e ecossistema funciona muito bem no 'Vale do Silêncio'

Lá eu também vivi em uma bolha com lideranças negras de grandes empresas, uma outra realidade. Quando voltei, falei: isso aqui é possível fazer. A gente consegue criar, porque já tem esse senso de comunidade, de ecossistema. A gente sabe, de algumas histórias, que essa competição do Vale do Silício faz com que as pessoas fiquem míopes, cegas e atirando para os lados errados, que inclusive nem funcionam.

O que o empreendedorismo do Vale do Silício pode aprender com esse outro, 'de sobrevivência', que, como você diz, sempre existiu na periferia?

Que inovação, sem dúvidas, é fazer funcionar.

Não é romântico ficar o tempo na luta por sobrevivência, não é romântico ter que criar porque não existe, porque as políticas públicas não chegaram, porque não tem dinheiro. É exaustivo.

Eu falo porque o Desabafo Social começou assim. Hoje eu não quero começar desse jeito, tanto que a Inventivos foi atrás de investimento. Funcionar na ausência talvez devesse ser um exercício do Vale do Silício, porque as pessoas conseguem investimento através de um PPT [PowerPoint], isso eu fico indignada. Dizem que a projeção daqui a dez anos vai ser isso e se tornam os maiores valores de mercado. Nunca entendi essa lógica.

As periferias fazem com nada, provam que funciona, têm tudo que os empreendedores falam, mas usam outra linguagem. A diferença é que não têm nem acesso para saber o que é investimento, então não vai escalar.

Eu tenho que provar o tempo que funciona, que sou multipotência, e a branquitude do Vale do Silício, o CEO, o sócio, o investidor, o palestrante, ninguém nunca questionou.

Há pouco tempo você anunciou uma parceria com o Nubank, que você mesma criticou por conta da declaração da CEO no "Roda Viva", de que era difícil contratar negros. Qual é a sua proposta com a parceria? Você teve medo de ser cancelada por se unir à empresa?

Eu sempre falo que fui cancelada desde que nasci. Eu sou uma mulher preta, gente, qualquer coisa que eu faça um dos lados vai me cancelar. A diferença é que eu escolho o que fazer com isso. As pessoas querem, no geral, resolver problemas para ontem, mas ninguém quer pegar o bastão. Eu estou disposta a criar uma solução.

No caso do Nubank, sim, o tuíte que viralizou foi o meu. Tanto que a gente demorou para conversar, porque eu precisava digerir e, dentro de uma proposta interessante, algumas coisas eu não ia abrir mão. Por exemplo, uma coisa é contratar pessoas pretas, mas isso é um lugar de conserto, tapa-buraco, não sou eu. Eu já fui essa pessoa, mas não quero mais aceitar trabalhos assim. Quando a gente conversou, eu disse que aceitava para criar algo que fosse muito relevante dentro do universo em que estou. E que bom que está sendo em Salvador e que bom que é um fundo de investimento direcionado a pessoas pretas [NuLab]. Isso é criação, e esse desafio é muito maior do que eu. Se algumas pessoas não entendem a importância disso, eu estou bem comigo. Cada um tem uma estratégia na trincheira da vida, a minha é criar coisas significativas. Eu tenho também a minha rede de apoio, que aciono quando tenho que tomar grandes decisões. Não estou nem aí para cancelamento, eu preciso trabalhar.

Por que você acredita que Salvador é um novo polo de empreendedorismo e inovação no Brasil?

Tem vários motivos. Salvador é a primeira capital do Brasil, e eu acredito que o Brasil vai recomeçar em Salvador. Por quê? Existe uma vida antes de George Floyd [homem negro assassinado por um policial branco em maio de 2020 nos Estados Unidos; o que levou à onda de protestos Vidas Negras Importam] e outra depois dele, inclusive com a popularização do ESG [sigla em inglês para Governança Ambiental, Social e Corporativa].

E quando a gente pensa que cidade entrega talentos, inovação, dinheiro e diversidade, só tem Salvador. A cada dez pessoas em Salvador, oito são pretas. Olha os talentos que já saíram! Eu tive que sair de Salvador, fiquei um tempo circulando por aí antes de voltar, e muita gente faz isso. A gente não consegue reter os talentos por uma questão de não atrair as empresas para gerar empregabilidade.

Não é só o empreendedorismo digital quando se pensa em inovação. A gente consegue um tripé excelente com tecnologias ancestrais, por questões óbvias da cidade; as tecnologias sociais, porque você vê o impacto imediato na sociedade; e tecnologias digitais, porque a gente consegue acompanhar o tempo. Só que as empresas insistem em São Paulo, tudo é São Paulo. Pensando na questão de infraestrutura, que é o que as empresas querem, os governos estão facilitando a isenção de alguns impostos, perdão de dívidas, para ocupar a região central de Salvador. Imagina trabalhar, como eu, olhando para a Bahia de Todos os Santos? A qualidade de vida é alta e o custo é baixo.

Você comentava o BBB 21 no Twitter. Acha que aprendemos algo com essa edição?

Esse BBB não é entretenimento. Eu falei que precisava assistir e deu ruim, porque são muito gatilhos. As pessoas esquecem que, antes de ser uma cantora, uma comediante, tem uma pessoa negra ali, que tem uma bagagem muito complexa e dolorosa, que sofre e sofreu muita coisa, e isso vai ser pauta sempre, porque essa é a nossa vida.

Eu sou empresária, mas sou uma mulher preta de dread. Meu sócio é um homem preto de dread que tem 1,92 m. Você acha que é fácil chegar a um evento e ter que falar o meu nome para me tratarem bem? Então existem tantas complexidades, que não vão ser resolvidas em um programa de cem dias.

A gente, enquanto sociedade que tem amnésia histórica, tenta ignorar essas questões complexas da racialidade, diz que ela só quer militar, mas é a vida dela, não é militância! É a vida da pessoa, 24 horas por dia, ela tem que se defender, reagir, a vida inteira. Não concordo com tudo, mas é a vida daquela pessoa. Diferente da branquitude, que pode entrar em crise porque parou de fumar, porque não está malhando direito. Queria eu ter essa preocupação, mas não tem como, porque eu sou atravessada por coisas que nem são minhas.

Por exemplo, no assassinato de George Floyd, eu fiquei duas semanas sem trabalhar, eu não conseguia. Não foi Monique, mas foi um homem negro que podia ser o meu pai, meu namorado, pessoas que eu conheço. Então isso faz com que eu paralise, diferente da branquitude que coloca no Instagram a tela preta e "Black Lives Matter"[Vidas Negras Importam], mas não é atravessada do jeito que a gente é enquanto comunidade preta. E o BBB mostrou isso, que somos atravessados por tanta coisa, por tantas bagagens complexas e não resolvidas.

A gente achou que colocar pessoas pretas seria representativo e legal, mas racismo não é entretenimento.

Por que você acha que foi escolhida uma das 50 profissionais mais criativas do Brasil?

Eu não sei, mas cheguei a uma hipótese. Talvez não seja porque sou a mais criativa. Posso ser uma das muitas em um universo de 200 milhões de brasileiros, mas não somos 50. As pessoas colocam títulos pelo resultado que conseguiram enxergar. Por exemplo, a gente falou aqui do Desabafo Social, mas eu criei a rede social Ubuntu em 2015, que não deu certo; depois, a Kumasi, que em 2016 era o primeiro marketplace para empreendedores negros de moda, mas não quisemos continuar, porque a tecnologia era cara. Fui sócia de uma agência de publicidade e, depois de cinco meses, pedi para sair, porque não fazia sentido para mim. E está tudo bem. Eu sou sócia da Sharp [hub de inteligência cultural], mas não fico em operação. As coisas mudam, algumas eu não continuei e ninguém está olhando para isso. O povo olhou o Desabafo, que deu certo, e a Inventivos. A minha hipótese é que, por estar sempre em movimento, talvez eu crie mais, e algumas coisas dão certo, outras não.

Você perguntou no Twitter, e eu queria saber: em algum momento você se descobriu "preta patrícia", uma negra um pouco patricinha?

Era para ser uma piada e virou uma coisa tão séria, me perguntaram e sim, eu sou [uma 'preta patrícia']. Eu sempre fui — sou filha única, mimada, né? — dentro dos limites de uma família de classe baixa, mas nunca passei necessidades, tem a ver com acesso e não necessariamente com consumo.

No meu caso, a minha primeira lembrança de 'preta patrícia' é a do direito à cidade. O que significa isso? Eu não ficava só na minha periferia, os meus pais me levavam para circular. Eu sempre soube onde era Barra, o Pelourinho, assistia peça de teatro, ia para estreia de cinema. Então é esse universo de direito à cidade, direito à cultura e direito à educação que eu tive e continuo tendo contato. Muita gente me chamava de 'afropaty', 'preta patrícia', mas não deveria ser normal uma pessoa ter acesso ao cinema?

Depois de um tempo, eu comecei a entender que isso não era um xingamento. É muito normal, quando a gente fala de patricinha, ter aquela imagem de menina branca com cachorrinho na mão, outra realidade. Está tudo bem pessoas pretas acessarem outros lugares, mas 'preta patrícia' não pode se resumir a consumo, porque o consumo é branquitude. A diferença, enquanto pessoas pretas que acessam outros lugares, é que a gente deixa a porta aberta. Não é só a Monique em uma casa de praia, é desenhar um outro imaginário. E tudo bem. '"Preta patrícia" é essa concepção de ter acesso aos direitos que para muita gente é o básico. É isso. E sou uma preta patrícia.

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