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Linn da Quebrada: "O peito é um símbolo, mas não é ele que me faz travesti"

A cantora Linn da Quebrada, 30, que lançará seu segundo álbum, decidiu colocar silicone  - Reprodução/Instagram
A cantora Linn da Quebrada, 30, que lançará seu segundo álbum, decidiu colocar silicone Imagem: Reprodução/Instagram

Mariana Gonzalez

De Universa

17/05/2021 04h00

Linn da Quebrada vai lançar em breve o álbum "Trava Línguas", quatro anos depois de "Pajubá" (2017), seu disco de estreia. De lá para cá, no entanto, a cantora não ficou parada: fez filme, série e documentário. Na vida pessoal, Lina Pereira adotou uma cachorrinha, se dedicou à "vida de dona de casa" e, mais recentemente, aos 30 anos, ganhou seios.

A descoberta do novo corpo, processo que foi todo compartilhado nas redes sociais depois da cirurgia de implante de próteses de silicone, trouxe também novas percepções sobre como as pessoas enxergam um corpo trans nas ruas. "O peito é um símbolo muito forte, mas não é ele que me faz travesti. Se antes as pessoas se viam no direito de me tratar no masculino porque não viam em mim símbolos femininos, agora quando isso acontece eu sei que é preconceito", diz a paulistana a Universa.

Neste 17 de maio, Dia Internacional Contra a Homofobia, Transfobia e Bifobia , Linn reflete sobre a LGBTfobia na TV, autoestima e como o mercado da música se apropria das identidades de grupos marginalizados para lucrar.

Universa: Como você constrói sua autoestima? E de que forma agora os seus seios impactam a relação com a sua própria imagem?

Linn da Quberada: A minha autoestima é construída de forma diária, contínua, constante. E se constrói por meio do meu corpo, das minhas relações, de um processo de entender o que me faz bem e estar sempre em movimento. Aí entra o peito, que foi uma questão muito importante, mas não era uma coisa que me faltava. Agora, aos 30 anos, continuo a olhar para mim como se eu estivesse inacabada, e senti essa vontade de mudar.

O peito é um símbolo muito forte, mas, ao mesmo tempo, não é ele que me faz travesti. É a travesti que faz o seu peito — seja ele de tábua, de silicone, de bexiga.

De toda forma, o peito tem sido uma maneira de me olhar com outros olhos, de perceber que posso continuar me transformando. Veio no momento certo, ideal, e estou muito muito feliz com o meu corpo. Cada dia tem sido uma descoberta, isso muda o olhar dos outros sobre mim.

Muda como?

Se antes muitas pessoas se viam no direito de me tratar no masculino porque não viam em mim símbolos suficientes para acreditar no feminino, agora quando isso acontece eu sei que é um preconceito dela.

Não que a gente precise de peito para ser tratada no feminino, não é isso que nos abarca enquanto mulheres, travestis, mas o olhar dos outros sobre mim na rua muda. O olhar dos homens sobre meu corpo e o olhar de outras mulheres também passaram a ser diferentes. O olhar da minha mãe mudou. O peito é um símbolo de transmutação. Gosto dessa confusão que o peito provoca em mim e nos outros.

Ao mesmo tempo, não estou buscando a passabilidade [quando uma pessoa trans é vista, pela aparência, como uma pessoa cisgênero] de ser uma mulher, mas quero que olhem para mim e saibam que eu sou uma travesti.

Linn colocou silicone durante a pandemia - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Linn colocou silicone durante a pandemia
Imagem: Arquivo pessoal

Linn da quebrada - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
"Cada dia tem sido uma descoberta", conta
Imagem: Arquivo pessoal

Algumas mulheres trans têm usado o termo travesti como forma de afirmação política. O que essa palavra significa para você?

Para mim, é muito chique dizer que sou travesti, justamente porque carrega diversos sentidos históricos. A palavra travesti foi designada à margem e diz respeito a uma identidade muito brasileira, muito latinoamericana, e agora está sendo ressignificada de forma belíssima.

Tenho muito respeito por essa palavra, porque, para mim, significa que tomei o bastião da liberdade em relação ao meu corpo, à minha estética e até aos meus hormônios. É uma palavra que carrega uma força simbólica fundamental para nós.

Faço questão de propagar essa palavra quando vou a um programa de TV, ou quando dou uma entrevista como essa aqui. Mas, ao mesmo tempo, não quero ser enclausurada neste lugar — é muito curioso quando a gente se refere a um artista trans como "artista trans", mas nunca a outros artistas como "artista cisgênero" ou "artista hétero". Eu amo essa palavra, mas também é importante que a gente olhe para além desse limite.

Após quatro anos, você vai lançar seu segundo álbum, "Trava Línguas". O que pode adiantar sobre ele?

O álbum tem sido uma oportunidade muito especial neste momento da carreira, depois de ter vivido coisas tão emocionantes com o primeiro,"Pajubá". Ali, a música e a arte realmente salvaram a minha vida, mas também me tiraram muita coisa, me decepcionaram muito enquanto instituição. Entendi que a música, para mim, não é só o produto final que chega nas plataformas, e por isso decidi dividir com o público que me acompanha todo o processo de construção do álbum [ela tem compartilhado, em um grupo com fãs no Facebook, áudios sobre a criação do álbum]. Isso tem feito com que eu recupere uma vontade de fazer música. Sinceramente, tem me feito acreditar de novo em mim e na minha possibilidade de criar.

Tive muito medo do segundo álbum, mas decidi ir com medo mesmo. Com desejo, com vontade, mas com medo também.

Linn da Quebrada em "Mate e Morra" - Divulgação - Divulgação
Linn da Quebrada em "Mate e Morra"
Imagem: Divulgação

Música foi lançada em novembro - Divulgação - Divulgação
Música foi lançada em novembro
Imagem: Divulgação

Você disse que a música e a arte te salvaram, mas também te decepcionaram. De que forma?

O mercado usa as nossas identidades — negritude, mulheridades, identidades dissidentes sexuais — para se apropriar das nossas marcas, cicatrizes, e fazer seus slogans. Quando o mercado da música acha que nos entende e prevê nossos movimentos, está nos enclausurando e dizendo: "Aqui está o lugar para a sua militância. Você milita? Então milita aqui, nesse espacinho". E colocam o rótulo de arte resistência, artivismo — mas, antes de tudo, eu estou fazendo música. Mas o mercado não é só quem produz música, é quem consome também. Todos nós temos responsabilidade nisso, quando esperamos que os artistas de que gostamos façam sempre a mesma coisa, o mesmo tipo de produto.

Se o mercado quer que eu seja sempre a bixa preta, não vai rolar. Eu já fui bixa preta, bixa travesti, fui mulher, agora eu me pergunto de novo: quem sou eu? Eu não sou mais aquela de 2017, sou outra pessoa. Não estou apegada a mim mesma, se não a gente fica enclausurada nas próprias identidades.

Na sua última música, "Mate e morra", você encena seu próprio velório, e diz que já morreu muitas vezes. O que quis dizer com isso?

Eu acho que nós precisamos entender o que é importante matar em nós mesmos, coletivamente.

É importante matar cada um de nós o macho branco, senhor de engenho, colonizador. Entender em cada um de nós onde o racismo opera, onde a misoginia sobrevive, a transfobia, e matar isso. Quando eu falo de matar e morrer, vejo como um movimento necessário para que a gente possa evoluir, nos tornar uma sociedade menos violenta

Eu mesma já matei pensamentos que não me agregam, vícios que não me movimentam. Matei minha necessidade de sucesso, neste lugar nos holofotes que mantém a competição, que provoca inveja. E matei também meu olhar sobre o mercado, sobre essa falsa ideia de representatividade.

Por que chama de falsa ideia de representatividade?

Eu chamo de falsa essa ideia de representatividade que vemos hoje porque ela serve apenas como pula pula, e não como trampolim. O mercado usa esse conceito fazendo dele um pula pula, ou seja, a gente fica ali pulando, pulando, mas não sai do lugar. Acredito na representatividade não como um objetivo final, mas como meio para que a gente chegue a outros lugares, ainda mais distantes — como um trampolim, que nos faz saltar mais alto e mais longe.

É impossível que só uma ou duas de nós continue sendo representatividade para toda uma comunidade negra, LGBTQIA+, marginal.

Linn da Quebrada - Divulgação/Gabriel Renne - Divulgação/Gabriel Renne
"Acredito na representatividade não como objetivo final, mas como meio para ir mais longe"
Imagem: Divulgação/Gabriel Renne

Durante a última edição do BBB, você se posicionou mais de uma vez contra episódios de machismo e homofobia, e chegou a provocar outros artistas para fazer o mesmo. De que forma o que acontece na TV impacta pessoas LGBTQIA+ na vida real?

Essas questões são tão naturalizadas dentro da TV que viram entretenimento. Isso é perigoso porque leva [esses ataques] para o imaginário social. Se a gente naturaliza uma violência, deixa de se comover com elas. Não tem como não se posicionar nesses casos, porque não se posicionar já é uma posição. E a gente já viveu isso [LGBTfobia como entretenimento]: no passado, tivemos a Lacraia, a Vera Verão, que eram personagens negras e LGBTQIA+ que ocuparam a TV e foram motivo de riso pela precariedade, pela pobreza. A gente tem que se manter atenta para que esse movimento não se repita diante dos nossos olhos. Se riem do nosso cabelo, da nossa pele, da nossa roupa, e tornam isso normal, essas violências continuam a se instaurar aqui fora.

Linn da Quebrada se apresenta no primeiro dia do festival GRLS!, em São Paulo, em março de 2020 - Iwi Onodera/UOL - Iwi Onodera/UOL
Linn da Quebrada se apresenta no primeiro dia do festival GRLS!, em São Paulo, em março de 2020
Imagem: Iwi Onodera/UOL

Como você passou esse primeiro ano da pandemia com os eventos culturais paralisados?

Foi um ano de organizar o caos. Tive o privilégio de poder ficar em casa, viver mais a minha intimidade, cuidar da minha relação, da minha cachorra [Sky, adotada durante a pandemia], de ser dona de casa. Trouxe a minha mãe para ficar comigo nesse período e pude conviver mais com ela, cuidar dela e deixar que ela cuidasse de mim. Eu amadureci e envelheci muito nesse período.

Foi também um ano de muita tristeza diante de tudo o que estamos vivendo, de botar os pés no chão e entender o que é possível fazer politicamente estando dentro de casa. É muito triste, porque estamos falando de diversos corpos que são olhados com descaso. Tenho cuidado da minha mãe, evitado sair de casa, usado máscara, fortalecido minha rede afetiva — tudo isso são decisões políticas. Cuidar de si e cuidar do próximo são as melhores maneiras que temos de fazer política neste momento.

Você é cantora, atriz, roteirista, performer e apresentadora. Qual desses títulos vem primeiro para você? E o que ainda sonha em fazer?

Talvez eu não tenha encontrado uma categoria que me encaixe melhor. Acho que sou uma artista do corpo e da palavra, tenho me apresentado assim porque uso corpo e palavra sendo atriz, apresentadora, cantora, performer e tudo mais. E o que eu mais quero fazer agora é escrever um livro. É um sonho que ainda vou realizar — não sei quando, mas vou.

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