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Dilema moderno: Curtir foto de outra mulher de biquíni é motivo pra ciúme?

Luma não tem ciúmes do que o namorado curte nas redes sociais - Acervo pessoal
Luma não tem ciúmes do que o namorado curte nas redes sociais Imagem: Acervo pessoal

Ana Bardella

De Universa

15/05/2021 04h00

Se você está em uma relação e percebe que a outra parte tem o hábito de curtir fotos de outros corpos nas redes sociais, isso te incomoda? Talvez a resposta seja não — mas, para muita gente, os likes se tornam um problema. Basta uma pesquisa para perceber isso: enquanto no TikTok o assunto é tratado de um jeito bem-humorado, no YouTube é alvo de debate por parte de psicólogos e especialistas em relacionamento, que dão conselhos sobre como se comportar diante da situação.

Já no Facebook, muita gente busca a opinião de terceiros em grupos privados para entender se o ciúme é natural e qual a melhor forma de lidar com ele. Alguns destes posts, conforme apurou Universa, somam mais de 1500 comentários e quase nunca chegam a um consenso. A seguir, duas mulheres expõem seus pontos de vista sobre o assunto:

"Me sinto amada e admirada, por isso não vejo problema"

Luma Mattos - Acervo pessoal - Acervo pessoal
Luma sentiu ciúmes no passado, mas não vê problema hoje em dia
Imagem: Acervo pessoal

Na adolescência, era mais insegura e por isso meus relacionamentos também eram instáveis. Eu ficava procurando indícios de que meus namorados da época pudessem estar me traindo, de que tinham interesse em outras mulheres. Isso mudou com a maturidade e também quando conheci meu atual marido, que nunca me deu motivos para desconfiar. Hoje me sinto amada e admirada. Sei que, se ele está comigo, é porque escolheu assim.

Também entendo que, mesmo nas relações monogâmicas, é natural e saudável que o casal continue achando outras pessoas bonitas — e não encaro isso como um desrespeito. Por isso, não faço questão alguma de entrar nas redes sociais dele com o intuito de monitorar as suas atividades. Até porque, sei que muitos parceiros admiram a beleza de outras pessoas, mas não curtem fotos para evitar uma briga e isso não é garantia de fidelidade".

Luma Mattos, professora e empresária, 30 anos, Juiz de Fora (MG)

"Acredito que as curtidas alimentam um padrão de beleza inalcançável"

"Nunca tive problemas com meu corpo, pelo contrário, sempre me considerei bonita e acreditava ter uma autoestima alta. Há poucos anos, porém, me envolvi em um relacionamento no qual meu parceiro tinha o costume de passar muito tempo vendo fotos de modelos de biquíni, ou só de sutiã, mesmo quando estava do meu lado. Ele não só curtia, como também salvava as imagens no celular, tirava prints e compartilhava em grupos de Whatsapp dos amigos, elogiando os corpos delas.

Eu me incomodava e sempre pedia para que parasse, mas esse era um ponto no qual discordávamos: ele dizia que aquilo era uma invasão de privacidade. Tentava argumentar que, se fosse o contrário, não se incomodaria — mas eu sempre soube que não era possível comparar, porque o peso desses likes para uma mulher é muito maior.

Sem perceber o quanto esse comportamento mexia com meu inconsciente, fui levando a relação. Em pouco tempo, comecei a perder peso e cogitava colocar silicone: hoje entendo que, no fundo, queria poder tirar fotos tão bonitas quanto as delas. Só tomei consciência de quanto a relação era tóxica quando fui a uma ginecologista e ela me alertou de que eu havia perdido 10 kg em muito pouco tempo. Meu corpo já estava apresentando falta de vitaminas — e minha relação com a comida tinha se transformado completamente. Em meio aos nossos desentendimentos, dei início a um quadro de transtorno alimentar.

Terminei a relação e estou em tratamento, mas ainda não aceito meu corpo como ele é. Por isso, hoje entendo que existe um significado por trás dessas curtidas: a falta de empatia com as mulheres. É o homem que você ama, confia, com quem você tem relações sexuais, desejando outras na sua frente como se isso fosse totalmente normal. No fundo, o que ele está fazendo é aumentando a pressão que já existe em cima dos nossos corpos, estimulando a nossa vontade de corresponder a um padrão de beleza que nunca vai poder ser atingido"

Camila*, 20 anos, estudante, de São Paulo (SP)

"Não existe uma resposta certa", diz psicóloga

Segundo a psicóloga Thaís Araújo, em razão das novas plataformas digitais, a maneira como nos relacionamos mudou — e, com isso, mais questões passaram a ser problematizadas. "O ciúme ou o incômodo em relação às atividades dos parceiros nas redes sociais se tornou um tema frequente entre os diferentes sexos", afirma.

Entre as mulheres, porém, costuma ser mais presente. "Isso acontece em função da comparação. Por questões sociais, mulheres tendem a ser mais inseguras com seus corpos. Algumas pensam se a ex-namorada era mais bonita do que elas, outras, ao verem que o parceiro curte muitas fotos da mesma pessoa, pensam 'O que ela tem que eu não tenho?' e coisas do tipo", diz.

Porém, Thaís recomenda que, antes de transformar a questão em um desentendimento, a pessoa investigue os motivos pelos quais as atitudes incomodam. "É preciso entender se o sentimento vem de uma insatisfação pessoal, por exemplo, com a própria imagem, ou se você realmente julga a atitude do outro como desrespeitosa", pontua. No primeiro caso, o mais indicado é trabalhar as questões internas, a fim de fortalecer a autoestima. Já no segundo, o ideal é dialogar com o parceiro e propor uma mudança.

"O melhor é expor a insatisfação, falar sobre o que incomoda em detalhes. Por exemplo: o problema é só com fotos de ex-namoradas? Ou com atrizes e modelos de biquíni também? E então dar abertura para que o outro também faça isso. Caso o parceiro reaja de forma ríspida ou sem se importar com as queixas, isso pode ser considerado um sinal de alerta. Se ele não está disposto a ceder em algo pequeno, pode agir assim em outros pontos da vida em comum, o que é problema", alerta.

Existe a possibilidade de o parceiro não concordar com seu ponto de vista — e para lidar com isso, é necessário refletir. "É preciso entender se isso é um ponto chave para o relacionamento e, em seguida, chegar a uma conclusão se vale a pena continuar ou não". Por fim, Thaís orienta que a pessoa que se sente incomodada reflita também sobre a forma como está se relacionando. "É necessário cuidado para não alimentar um comportamento controlador. Repense o quanto de tempo você está investindo em stalkear ou monitorar seu parceiro e de que formas, mais saudáveis, poderia estar investindo essa energia em si mesma".

*Nome trocado a pedido da entrevistada

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