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"No Brasil não se respeita a dor", diz médica do Ambulatório do Luto do HC

A psiquiatra Tânia Maria Alves, criadora do Ambulatório do Luto do Hospital das Clínicas, em SP - Paula Nogueira/UOL
A psiquiatra Tânia Maria Alves, criadora do Ambulatório do Luto do Hospital das Clínicas, em SP Imagem: Paula Nogueira/UOL

Paula Nogueira

Colaboração para Universa

07/05/2021 04h00

"As mulheres não são mais frágeis do que os homens, mas culturalmente elas têm uma permissão maior para viver o luto", afirma a psiquiatra Tânia Maria Alves que, após superar uma perda familiar importante, decidiu ajudar pessoas que atravessam momentos semelhantes. Há 14 anos, ela criou e coordena até hoje o Ambulatório do Luto do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, em São Paulo.

Ela diz que isso acontece porque as mulheres têm uma autorização maior para procurar ajuda. No caso dos homens é esperado que eles não chorem. "Demonstrar suas emoções é visto como uma condição frágil e não como força para enfrentar a vida, é a cultura do silêncio."

A superação passa por entender melhor o vínculo com quem se foi, explica a psiquiatra. É esse o trabalho que ela desenvolve no ambulatório dedicado a pessoas que tiveram diferentes tipos de perdas. "O luto pode ocorrer com a morte de pessoas amadas, por uma separação dolorosa, perda de emprego ou até após uma amputação."

Todas as sextas-feiras pela manhã, Tânia está lá no Ambulatório do Luto, de prontidão para acolher as pessoas, e conta que a demanda desde o ano passado passou a ser mais de pessoas que perderam parentes por causa da covid-19. "A paciente de hoje perdeu a mãe e dois irmãos em 15 dias, ela não sentia nada e perguntou se isso era normal", relata a médica em entrevista a Universa. "Não é normal você não sentir nada."

Universa: Aumentou a procura por atendimento no Ambulatório do Luto nesse último ano de pandemia?
Tânia Maria Alves:
Sim. Semanalmente são, em média, cinco pacientes, com retornos semanais ou a cada 15 dias. Os casos que aumentaram foram de pessoas que perderam mais de um ente querido em pouquíssimo tempo, às vezes em uma semana, 15 dias ou um mês. Muitos perderam mais de um parente da mesma família, pessoas com luto múltiplo e suicídios.

Quais são as angústias que essas pessoas trazem?
O grau de dor é o que mais chama atenção, é muito alto, a dor psíquica é muito grande. As pessoas se desorganizam e não têm forças para se conduzirem, para cuidar do filho, da casa, têm dificuldades para dormir e sentem medo. Alguns falam do desejo de morrer porque seria um conforto sair daquela dor. Há reclamações de que não houve tempo para velar a pessoa e de se despedir [por causa dos protocolos de enterro na pandemia]. E também reclamam do tratamento do serviço funerário, por uma sensação de que a dor não foi respeitada.

Como está sua saúde mental?
Eu tenho muito cansaço físico, é exaustivo. O atendimento é muito longo e às vezes o sentimento é de impotência. São sofrimentos muito agudos.

Por que as mulheres buscam mais por esse atendimento?
Culturalmente as mulheres têm uma permissão maior para viver o luto. Para os homens, quando eles perdem alguém ou terminam um relacionamento, não é muito permitido e nem respeitado esse luto. Dizem para ele virar a página e continuar. Isso é muito enraizado.

Aqui no Brasil, infelizmente, não há muito respeito pela dor. Há uma desvalorização da dor psíquica

Como é o tratamento dessas pessoas que buscam ajuda?
A primeira coisa é avaliar a dor. Saber o que a pessoa sente. Como isso está atrapalhando a vida, as atividades fundamentais, sono, fome e se pensa em suicídio. Se for intenso, eu pergunto se a pessoa gostaria de tomar medicação para diminuir a dor, geralmente é uma dosagem reduzida, pois é para dor psíquica, ou se prefere acompanhamento psicológico.

São utilizados também instrumentos de pesquisa para avaliar os riscos de um luto intenso, questionários que avaliam o grau de intensidade do luto. No Japão, foram usados depois de um tsunami e nos Estados Unidos, após o atentado de 11 de Setembro de forma preventiva para os familiares e amigos próximos às vítimas.

O que um luto pode causar?
Vai depender da função que o outro exercia na sua vida. Por exemplo, uma criança perde o pai e a mãe. Qual é a consequência disso? Depende da idade que ocorreu a perda, do grau da dependência, só analisando a relação envolvida para saber o que significa lidar com aquela dor. Precisa fazer uma investigação para entender o vínculo, a separação e como a pessoa vai se adaptar.

Qual o sinal de alerta dentro da vivência do luto?
A paciente de hoje perdeu a mãe e dois irmãos em 15 dias. Ela não sentia nada e perguntou se isso é normal, sentia como se estivesse fora do mundo. Isso pode indicar perigo quando a pessoa chega ao estado de "Socorro não estou sentindo nada" [se referindo à canção "Socorro" de Alice Ruiz, interpretada por Arnaldo Antunes].

Não é normal você não sentir nada. Por exemplo, a pessoa chega ao pronto-socorro e diz "Eu não sinto minha perna", mas imagine você não se sentir inteira. Nesse caso, o aparelho psíquico teve que fazer um corte para ela não sentir a perda e continuar viva. Então são situações emergenciais para o aparelho psíquico, significa um grande sofrimento

Quais são as fases do luto?
O caminho é perguntar como, por que e a relação daquele vínculo. Qual a repercussão disso e como vai lidar? Cada momento é uma fase, não é um processo que ocorre de forma rápida.

Há, por exemplo, a etapa de não suportar a perda, dos questionamentos: por que isso aconteceu comigo? A carga emocional nesse período é de mais intolerância, irritação e raiva

Tem algum caso mais emblemático para contar que mostre a importância desse atendimento?
Eu tive uma paciente que perdeu uma filha de 16 anos por suicídio. O luto dela estava muito complicado. A filha era muito bonita, modelo. A mãe dizia: "Não é justo que a minha filha jovem tenha morrido e eu ainda esteja aqui". Após muitos atendimentos descobrimos que a mãe valorizava na filha a beleza que ela própria tinha tido quando era mais jovem, mas foi subestimada. Ela vivia através da filha o próprio sonho, assim foi possível identificar o que ela precisava, o que ela queria e o que ela gostaria de viver.

Ela superou a dor da perda quando entendeu o vínculo com a filha. Depois de algum tempo ingressou na faculdade, porque queria viver um novo sonho. Antes ela não tinha essa consciência.

O trabalho de luto é a pessoa trazer todas essas etapas para a consciência e mudar a percepção da morte, se adaptando e ressignificando a separação. Nos casos mais graves, se a pessoa não for ajudada, pode ser trágico

Quando devemos procurar ajuda?
Quando a carga de dor atrapalhar a vida e as atividades básicas forem afetadas, de alimentação, cuidados com a higiene, quando a pessoa achar que a morte seria um alívio para aquela intensidade. Esse é o momento de procurar um serviço de saúde. Procurar um amigo que já passou por algo semelhante também pode ser de uma ajuda diferente e importante. Se você já viveu aquela experiência, você olha para outro com mais calma e com um pouco mais de sabedoria. Então você é capaz de ensinar e ajudar com conhecimento próprio.

CVV atende em casos de pensamentos suicidas

Quem tem pensamentos suicidas ou está com depressão, entre outras dificuldades relacionadas à saúde mental, e precisa de apoio emocional, pode ligar para o CVV (Centro de Valorização da Vida) no número 188, 24 horas por dia. O atendimento também pode ser feito por chat no site da entidade e por e-mail. Existem ainda os prontos-socorros psiquiátricos, que podem ser especializados ou funcionar em hospitais gerais.

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