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Cansada de bancar a forte sempre? Não faz mal desabar de vez em quando

É preciso estabelecer limites entre ser "durona" e ser "empoderada": e, afinal, quando é possível desabar? - FG Trade/Getty Images
É preciso estabelecer limites entre ser 'durona' e ser 'empoderada': e, afinal, quando é possível desabar? Imagem: FG Trade/Getty Images

Heloisa Noronha

Colaoração para Universa

01/05/2021 04h00

Palavras como "empoderamento" e "protagonismo" estão cada vez mais presentes no universo feminino com o propósito de incentivar as mulheres a assumirem as rédeas da própria vida e a se tornarem visíveis e condutoras de sua história. Nesse importante processo de fortalecimento, porém, muitas confundem o desejo por autonomia com tentativas de se mostrarem duronas e autoconfiantes o tempo todo.

Para a psicanalista Renata Bento, primeiro é preciso mudar a perspectiva do que se entender por ser forte. "Ao contrário do que se pensa e prega, uma pessoa forte não é aquela que aguenta tudo, e sim quem sabe quais são seus pontos fracos e seus medos, ou seja, suas fragilidades. A partir daí, se sente capaz de falar sobre elas, melhorar alguns aspectos e aprender a conviver com outros que não consegue modificar em sua personalidade", observa.

Segundo a psicanalista, às vezes se mostrar durona e empoderada revela um movimento de autodefesa - é uma forma de se esconder dos outros e de si mesma as dores e as insatisfações e seguir em frente.

"A mulher, de modo geral, tem uma capacidade enorme de fazer várias tarefas ao mesmo tempo e ainda de se provar forte e competente naquilo que faz. É um comportamento que a coloca diante de um acúmulo de atividades que muitas vezes a deixa estafada. Em meio a tudo isso, é preciso encontrar um equilíbrio entre necessidades e prazer para que não se viva a vida apenas para cumprir obrigações e acumular insatisfações", diz Renata.

O que se observa é que mulheres muito controladoras tendem a acumular mais responsabilidades e tarefas buscando o reconhecimento externo de força e poder; isso pode ter a ver, inclusive, com a opressão estrutural sobre nós. Para reverter essa situação, é necessário aprender a delegar e estabelecer prioridades. A culpa também é outra batalha a ser vencida para que as mulheres compreendam que o sentido da vida não é abdicar de seus próprios desejos em prol dos outros - ou de provar algo para os outros.

Na opinião da psicóloga Fernanda Aoki, do Rio de Janeiro (RJ), muitas mulheres veem o empoderamento através de uma lente distorcida, o que contribui para deixá-las exaustas. "Empoderar-se não é deixar de errar ou a partir de um determinado momento se posicionar como perfeita. Empoderar-se é assumir a própria potência e continuar evoluindo.

Quem acha que já atingiu um determinado patamar de crescimento acaba se 'achatando' e se tornando menos disponível e aberta para aprender e contribuir", comenta. "Provar que se está forte é uma coisa, se fortalecer é outra", complementa Fabíola Furlan, psicóloga de São Paulo.

Está liberado sofrer e chorar

Quem acha que precisa se mostrar indestrutível não costuma se abrir com facilidade, pois isso implicaria em se mostrar vulnerável. Por isso, é importante saber que não há nada de errado em tirar a máscara de empoderada e desabar quando for muito difícil suportar os problemas.

Nesse sentido, derramar lágrimas ajuda a descartar emoções para aliviar a tensão e funciona como uma espécie de 'pausa' para ganhar forças, retomar o rumo da vida e fazer as mudanças necessárias, diz Fabíola

"Chorar funciona como um alívio, mas não traz a solução. Quando não é possível dar conta de tudo sozinha, buscar o apoio de amigos e até ajuda profissional é a melhor atitude a tomar. E não há nada de errado com isso", pontua a psicóloga Rosangela Sampaio, autora do livro "Autoamor - Um Caminho para a Regulação Emocional e Autoestima Feminina" (Ed. Conquista).

Busque acolhimento

A psicanalista Renata Bento reforça que é essencial saber pelo que se chora. "Pergunte a si mesma: qual o sentimento está por trás disso? É raiva, ódio, vergonha, frustração? Nomear os sentimentos é fundamental para arrumar o mundo interno. Botar para fora alivia, mas também é preciso botar para dentro, ou seja, passado o desespero, se desejar mudança sobre o que se chora, é preciso pensar para entender de onde vem essa dor, para que não precise repetir o erro e chorar novamente pela mesma coisa".

E uma dica: ter uma rede de acolhimento, alguém para poder "desabar" no colo de vez em quando não significa fugir do sofrimento, muito pelo contrário. "Ao desabafar com alguém que se confia, além do fortalecimento que se adquire é possível enxergar novos caminhos a seguir. Isso leva a pessoa a crescer. E não podemos esquecer da sororidade, uma aliança feminina baseada na empatia e no companheirismo", diz a psicóloga Néia Martins, de São Paulo (SP)

Para modificar a vida e criar novas perspectivas é necessário abrir o jogo sobre seus sentimentos, afirma Renata. A especialista ainda reforça a importância de se buscar terapia. "Além de compartilhar as dores com os amigos ou familiares, fazer terapia favorece o entendimento dos sentimentos confusos e ajuda a encontrar a melhor palavra para aquilo que se sente, dando 'nomes aos bois'. Às vezes é preciso deitar no divã para se levantar diante da vida", afirma Renata.

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