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Mulheres Pós 2020

Debates transmitidos por Universa sobre o impacto da pandemia na vida das mulheres


"Negras são as mais sobrecarregadas na pandemia", diz pesquisadora da FGV

A jornalista Cynthia Martins mediou o painel com a médica e escritora Júlia Rocha, a advogada e pesquisadora Alessandra Devulsky e Marta Rodriguez de Assis, professora da FGV e pesquisadora do Afro/Cebrap. - Reprodução
A jornalista Cynthia Martins mediou o painel com a médica e escritora Júlia Rocha, a advogada e pesquisadora Alessandra Devulsky e Marta Rodriguez de Assis, professora da FGV e pesquisadora do Afro/Cebrap. Imagem: Reprodução

De Universa

28/04/2021 00h08

"Sim, nós, mulheres negras, estamos cada dia mais cansadas. Porém, cada dia mais firmes em nossos ideais".

A frase dita pela jornalista Cynthia Martins marcou a abertura do primeiro dia do "Mulheres Pós-2020", evento que discute os impactos da pandemia na vida feminina, que começou nesta terça-feira, 27, com transmissão ao vivo de Universa. O painel "Estamos finalmente falando sobre justiça racial" foi comandado por Cynthia e contou com a participação da médica e escritora Júlia Rocha, da advogada e pesquisadora Alessandra Devulsky e de Marta Rodriguez de Assis, professora da FGV e pesquisadora do Afro/Cebrap.

Foi Marta quem deu o pontapé inicial no debate. Na visão da pesquisadora, a mulher negra é a mais afetada pela desigualdade no Brasil. "Somos impactadas pelo machismo e também pelo racismo. As mulheres negras são as mais sobrecarregadas, as que têm os piores salários, as que mais sofrem violência doméstica e as que mais morrem por falta de atendimento apropriado no SUS na hora de dar à luz, por exemplo".

A análise feita por Marta é uma avaliação interseccional do panorama brasileiro; ou seja, na visão da especialista, as mulheres negras lidam diretamente com uma série de opressões (desigualdade de gênero, econômica e racismo) que as afastam ainda mais de seus direitos. Estamos finalmente falando sobre justiça racial, mas o caminho pela igualdade ainda é longo.

"Justiça racial não é colocar negro contra brancos"

A médica Júlia Rocha reforçou a importância de pessoas brancas na luta antirracista. "Não temos a intenção de colocar pessoas negras contra brancos", disse, acrescentando: "Precisamos entender que, em uma estrutura desigual de sociedade, algumas pessoas estão mais vulneráveis do que outras. Se estivéssemos em um país sério existiriam políticas públicas para melhorar essa condição".

Para Alessandra Devulsky, é importante que pessoas negras ocupem cada vez mais posições dentro do cenário político brasileiro, assim, novas mudanças estruturais poderão acontecer.

"É essencial que brancos componham a luta antirracista, mas negros precisam entrar e ocupar espaços públicos para terem o poder de tomar decisões coletivas", enfatizou Alessandra Devulsky

Ao ser indagada sobre como a questão do colorismo pode afetar o debate racial, ela respondeu: "As distinções de cor entre pessoas negras não são assim tão importantes, mas é importante que as pessoas percebam que quando você é não-branco no Brasil você passa a ser visto sob uma ótica diferente. Não existe privilégio em ter a pele mais clara ou mais retinta".

Júlia Rocha destacou, usando a ministra Damares Alves do Ministério de Direitos Humanos, Família e Mulher como exemplo, que ter figuras diversas em cargos de liderança não é suficiente para que as mudanças efetivamente ocorram. É preciso que essas personalidades também estejam alinhadas a um discurso igualitário. "Representatividade não é o suficiente para mudar o sistema", frisou, "é importante sim que tenhamos pessoas negras em todos os ambientes, mas se o racismo é estrutural, é preciso também que tenhamos força para mudar esse cenário".

Racismo afeta a saúde pública

Júlia trouxe também outro recorte para debate. Como quase 70% das pessoas atendidas pelo SUS são negras, é essa também a população mais afetada pelo desvio de verbas, pelas más condições dos serviços de assistência pública e, consequentemente, a população que mais morre por falta de um sistema de saúde de qualidade.

"Quando acenamos para a privatização do SUS estamos falando sobre genocídio", cravou. "O racismo é estrutural. O que eu faço enquanto médica impacta apenas meu paciente. Nossa sociedade se baseia na coisificação das pessoas", lamenta a médica.

Já Marta Rodriguez traçou um paralelo entre o descaso no sistema público de saúde e a legalização do aborto. "Quem necessita da legalização do aborto são as usuárias do sistema público de saúde — no caso, as mulheres negras. Hoje em dia, no Brasil falta assistência inclusive para o aborto legal. Vale lembrar que no nosso país hoje temos mais de 11 milhões de famílias comandadas por mães solteiras, sendo que 60% delas são negras".

Mulheres Pós 2020 continua nesta quarta

Comandado pela jornalista Ana Paula Padrão, o Mulheres Pós 2020 continua nesta quarta e na quinta-feira, com uma série de painéis com lideranças femininas globais e transmissão ao vivo de Universa a partir das 18h30. Confira a programação completa:

Quarta, 28/04

Entrevista: Stefania Giannini (Diretora-Geral da Unesco para Educação), por Joice Berth

Painel 1: "Pandemia, um colapso na educação e por que as principais vítimas são as mulheres"
Convidadas: Luanda Moraes (Reitora da UEZO - Universidade Estadual da Zona Oeste do RJ) Lourdes Atié (socióloga) e Priscila Cruz (Presidente do Todos pela Educação)
Mediadora: Deh Bastos (comunicadora)

Entrevista: Grazielle Parenti (VP Global de Rel. Inst. e Sust. - BRF), por Ana Paula Padrão

Painel 2: "A saudável pressão por investimentos mais sustentáveis e diversos"
Convidadas: Andrea Quintana (Ger de Mkt e Inovação - Irani), Grazielle Parenti (VP Global de Rel. Inst. e Sust. - BRF) e Mariana Oiticica (Head ESG - BTG Pactual)
Mediadora: Tatiana Schibuola (Gerente-geral de marcas editoriais do UOL)

Painel 3: "Mudanças no consumo: uma janela para um mundo mais sustentável"
Convidadas:
Erica Migales (Dir Mkt e Trade Mkt - Danone), Cintia Gonçalves (Founder da Wiz&Watchers) e Marcella Kanner (Dir Mkt - Riachuelo)
Mediadora: Claudia Lima (jornalista)

Quinta, 29/04

Painel 1: "Um burnout mundial: como evitar a epidemia do esgotamento mental"
Convidadas:
Camila Almeida (Dir Pessoas - Azul), Mariana Holanda (Dir Saúde Mental - AMBEV) e Viviane Elias Moreira (Ger Resiliência Corporativa - United Health)
Mediadora: Maíra Liguori (jornalista)

Entrevista: Marília Rocca (CEO Grupo Hinode), por Ana Paula Padrão

Painel 2: "O Papel Decisivo das Empresas para Devolver Oportunidades e Autonomia às Mulheres"
Convidadas:
Ana Fontes (CEO da Rede Mulher Empreendedora), Crisciane Rodrigues (Pres Comitê Líderes Grupo Hinode) e Flavia Schlesinger (VP Finanças Pepsico)
Mediadora: Dolores Orosco (Editora-chefe de Universa)

Palestra: Pamela Figueroa (cientista política - Chile)

Painel 3: "Mulheres pós 2020: como resgatar aquelas que estão ficando pelo caminho"
Convidadas:
Flavia Rodrigues (Pres Comitê Mulheres Paraisópolis), Ilona Szabó (Pres Instituto Igarapé) e Paula Tavares (Advogada e Especialista Banco Mundial)
Mediadora: Joyce Ribeiro (jornalista)

Entrevista: Silvia Federici (escritora e filósofa), por Lia Rizzo (jornalista)