PUBLICIDADE

Topo

Minha história

"Projetei uma carretinha para andar de bike com meu filho cadeirante"

Carolina se inspirou em uma mãe americana para adaptar uma carretinha para o filho - Acervo pessoal
Carolina se inspirou em uma mãe americana para adaptar uma carretinha para o filho Imagem: Acervo pessoal

Carolina Vieira Liberatti Rosa em depoimento para Claudia Dias

Colaboração para Universa

27/04/2021 04h00

"Sempre gostei de andar de bicicleta com meu pai aos finais de semana. Quando fiquei noiva do Rogério, hoje meu marido, me mudei para Santos e, juntos, aproveitávamos para passear pela extensa ciclofaixa da orla. Nosso filho Gabriel nasceu e, por ser cadeirante, eu precisava encontrar alguma solução para que ele tivesse essa vivência ao ar livre. Foi então que eu projetei uma carretinha e, sem esperar, a ganhamos de presente de gente que não nos conhecia ao redor do Brasil.

Sou designer de produto e fiz mestrado em design. Dei aulas e, hoje, me dedico aos cuidados do Gabriel, além de dar suporte em modelagem 3D ao projeto de inclusão social Santos às Cegas, do professor Renato Frosch. Tenho 33 anos e o Gabriel fará 3 anos em setembro.

Eu e o Rogério nos casamos em junho de 2017. Engravidei em março do ano seguinte, mesmo mês que perdi meu pai. Eu daria à luz em dezembro, mas meu último ultrassom mostrou aumento do líquido na bolsa.

Gabriel nasceu prematuro extremo, com 29 semanas, bem no dia em que o depósito da qualificação do mestrado, em São Paulo. Por sorte, estava na Universidade Anhembi Morumbi quando entrei em trabalho de parto. Fui de ambulância para o Hospital São Luiz. Chegando lá, meu bebê veio ao mundo em 10 minutos, de parto normal.

Para a idade gestacional, nasceu em boas condições. Porém, com o passar dos dias, ele enfrentou diversos desafios, como um sangramento cerebral. Foi um período muito difícil. Como dizem, UTI neonatal é uma montanha-russa: tem dias que você recebe boas notícias, em outros dias, nem tanto.

Ficamos, no total, três meses e meio no hospital, até o tão esperado dia da alta, com direito à música e abraços de toda equipe do hospital e dos pais no chamado "corredor".

Hoje, o Gabriel tem como diagnóstico paralisia cerebral e epilepsia de difícil controle. Ele usa cadeira de rodas e tem baixa visão. Fazemos terapias para reabilitação, como fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional.

Inspiração de mãe americana

Há algum tempo, comecei a buscar soluções para que Gabriel pudesse andar de bicicleta com a gente. Minha maior motivação era o desejo de poder proporcionar ao nosso filho essa experiência ao ar livre. Entretanto, descobri que quase não há produtos desenvolvidos para inserir esse público em atividades cotidianas à venda no mercado.

Fiz uma pesquisa extensa em busca de alternativas e não encontrei nada que permitisse levar a cadeira de rodas junto. Essa era uma necessidade pontual para que, quando parássemos em algum lugar, eu pudesse usar a cadeira de rodas em percursos menores, já que o Gabriel está com 11 kg e fica difícil carregá-lo no colo.

Pesquisando no Pinterest, cheguei ao blog da Ann Peart, um mãe norte-americana que adaptou um triciclo para fixar a cadeira de rodas do filho a bicicleta dela. Vi, pelas fotos compartilhadas, que era possível proporcionar os passeios de bike que tanto queria ao lado do meu filho.

Inspirada pelo que vi, fiz um projeto preliminar em 3D para explicar minha ideia, planejando encontrar alguém que pudesse construir uma carretinha que suportasse a cadeira de rodas do Gabriel, com segurança. Eu e Ann trocamos ideias via Facebook. Ela me deu mais dicas sobre o triciclo que adaptou.

Tirei as medidas da cadeira de rodas e da minha bicicleta. No software 3D, desenhei as primeiras ideias e fui pedir ajuda nas bicicletarias da cidade, mas me diziam que nunca tinham visto algo assim para ser usado com cadeira de rodas e que eu deveria procurar serralheiros e torneiros mecânicos.

Meu marido, quando me viu nessa procura toda, sugeriu procurar quem trabalhava com carretas para carro e moto. Foi nessa pesquisa que encontrei o Shopping das Carretas, em São Paulo.

Do outro lado do país

O Leandro, do Shopping das Carretas, não conseguia nos ajudar, mas compartilhou meu projeto em um grupo de WhatsApp de fabricantes de carretas do Brasil inteiro, no início de dezembro passado. Aí entrou na história a SCX, uma empresa de Ananindeua, no Pará.

O pessoal da SCX, a quase 3 mil quilômetros de distância de Santos, se colocou à disposição para ajudar. Foi com muito carinho, rapidez e bom humor que trocamos ideias. Eles compartilhavam comigo fotos e vídeos de cada etapa da construção da carretinha do Gabriel.

Inicialmente, eles nos ofereceriam a mão-de-obra e nós pagaríamos apenas o material, já que o frete seria rateado entre as empresas do grupo do WhatsApp - AJ Reboques, Grupo TX, Ícaro Reboques, Shopping das Carretas, Forte Carretas, AL-KO, Reboques Dreyer, Reboques Assunção, 2E Carretas, JR Reboques e Trailer, Brasil Carretas, FAMIT, Bia Ferreira Reboques, Torpa, Rek Reboques, Fersan, Kiko Trucks, Norte Reboques, Giovani, Rone, Samuel e SCX. Entretanto, durante o processo, me informaram que os materiais também seriam pagos pelo grupo e que a carretinha era um presente de Natal para nosso filho.

Nossa família não pôde conter a emoção em saber que um grupo de pessoas que não nos conhecia dedicou atenção, tempo e recursos para realizar nosso sonho

Como funciona a carretinha

No projeto final, desenvolvido pela SCX, a carretinha apresenta um sistema basculante. A base muda de altura, facilitando a entrada da cadeira de rodas. Na prática, com a carretinha parada, a base dela abaixa e toca o chão. Depois de acomodada e presa a cadeira de rodas de Gabriel, é só elevar a base com o basculante. A peça foi fixada no selim da minha bicicleta.

A carretinha chegou no dia 30 de dezembro. Não temos saído muito, por causa da pandemia, mas já testamos na garagem do nosso prédio. Funciona muito bem em pisos planos.

Ainda acho que tem muitas questões de projeto a serem melhoradas, mas já é um começo. Infelizmente, a maioria dos produtos destinados aos deficientes são caros, feios ou ainda nem foram desenvolvidos. Por isso, quero desenvolver muitas coisas para ajudar nosso dia a dia.

O nosso filho nos trouxe um outro olhar sobre o mundo, que nos faz querer buscar caminhos para ter qualidade de vida. Nossa bagagem profissional e de experiência de vida são as ferramentas que usamos para solucionar qualquer questão.

Tudo o que desenvolvemos para o Gabriel está no nosso instagram, assim outras familias também podem dividir com a gente suas dificuldades e compartilhar suas conquistas.

O desenvolvimento dessa carretinha nos mostrou que existe muita gente querendo ajudar o próximo, a realizar sonhos e proporcionar a inclusão de deficientes em atividades do dia a dia - como também é a ideia do projeto Santos às Cegas. Foi uma experiência muito rica e que vamos lembrar para toda a vida

Espero, um dia, poder ajudar o próximo, da mesma forma que nos ajudaram e, assim, formar uma corrente do bem. Quando comecei a pesquisa por opções de levar nosso filho cadeirante na bicicleta, jamais poderia imaginar que a ajuda viria do outro lado do país. Foi incrível!"

Minha história