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Evangélica e blogueira: por que ela decidiu discutir machismo na igreja

Há quatro anos, Isabela Garrido mantem o blog "Tem Mulher na Igreja", onde escreve sobre feminismo, racismo e homofobia - arquivo pessoal
Há quatro anos, Isabela Garrido mantem o blog "Tem Mulher na Igreja", onde escreve sobre feminismo, racismo e homofobia Imagem: arquivo pessoal

Isabela Garrido em depoimento a Fernando Barros

Colaboração para Universa

19/04/2021 04h00

"Cresci numa família religiosa, estudei em colégio de freiras e me considerava católica até os 12 anos quando me descobri evangélica. Perdi o horário da missa um dia e resolvi entrar na Igreja Batista Sião em Salvador para assistir o culto. Gostei do local, me senti acolhida, voltei algumas vezes e passei a frequentar. Foi uma mudança muito natural.

Nessa Igreja, fiz amizades, me entrosei com as outras pessoas e me tornei bem ativa, participando de todos os eventos, atividades, dos trabalhos, grupos de jovens. Vivia sempre lá. Minha mãe dizia que eu era "rata de igreja".

Apesar de serem conservadores, os batistas são bem abertos ao diálogo, ao debate de ideias e à liberdade de expressão. Então, era um lugar onde eu encontrava espaço para questionar e trazer coisas novas. Fiquei nessa Igreja até os 24 anos, quando senti necessidade de experimentar congregações diferentes e ver como elas funcionavam.

Isabela Garrido tem 33 anos, é jornalista, relações-públicas, autora do blog Tem Mulher na Igreja e mora em Salvador (BA). - arquivo pessoal - arquivo pessoal
Isabela Garrido tem 33 anos, é jornalista, relações-públicas, autora do blog Tem Mulher na Igreja e mora em Salvador (BA).
Imagem: arquivo pessoal

Quando estava perto de me casar, passei a frequentar grupos de casais em outras igrejas evangélicas e foi aí que me dei conta do machismo dentro do meio religioso. Antes nunca tinha elaborado sobre isso, talvez por ser mais jovem. Mas, como nessa época eu já era adulta e tinha uma maturidade maior, fui percebendo como o discurso era pesado em relação à mulher. Sobretudo, porque eu estava prestes a casar e as cobranças apareceram com tudo.

Havia um sexismo difundido e uma postura bem forte de que a mulher nasceu para o casamento e o homem para o trabalho, de que a mulher devia se comportar de determinada maneira, que ela tem que satisfazer o marido, que ela era responsável pelo sucesso do casamento...

Cheguei a ouvir que a mulher podia até ter uma profissão, mas que a prioridade tinha que ser o marido e os filhos. E, se por causa disso, ela tivesse que abandonar a carreira era o correto a se fazer. Passei a notar também um ideal sacramentado de que devemos ser recatadas, discretas, falar manso.

E eu não era nada daquilo. Sempre fui vaidosa, extrovertida, expansiva, gosto de usar batom vermelho, minhas bijuterias. Falo e rio alto. Aqueles discursos começaram a me incomodar e eu não aguentava ficar calada quando ouvia.

Decidi compartilhar minhas reflexões na internet

Comecei a tentar trabalhar essas questões da Igreja que me causavam desconforto na terapia e a psicóloga passou a me aconselhar que escrevesse a respeito. Eu ainda não me considerava feminista. Até porque no ambiente da Igreja isso era reprimido, demonizado. Mas eu tinha muito interesse em saber e entender sobre o feminismo.

O tempo passou e, depois que eu casei, um belo dia, caiu em meu colo o livro "O mito da beleza", da Naomi Wolf. Li, me identifiquei e fui pesquisar mais sobre o assunto. Como eu tinha acabado de terminar a faculdade, tive tempo para estudar, ler mais sobre o feminismo e tive a ideia de fazer um blog para falar sobre o machismo dentro das igrejas.

O objetivo era dialogar com as mulheres evangélicas para apresentar outra visão de mundo, um olhar diferente sobre o papel delas. Mostrar que elas podiam ser crentes, cristãs, servir a Deus, sem necessariamente ter que ser submissas, apagadas ou nulas, como muitos discursos religiosos tentavam fazer parecer.

No início, comecei a escrever os textos e guardar para mim, sem postar nada. Depois, aos poucos, me organizei para planejar e providenciar a plataforma, o layout, logomarca etc e botei o blog no ar. Nasceu, assim, o Tem Mulher na Igreja há quatro anos.

Por lá, já falei sobre os discursos religiosos que oprimem a mulher, a cobrança de que elas quem devem edificar a relação familiar, a questão da virgindade antes do casamento, o preconceito nas igrejas contra mulheres solteiras após os 30 anos, a leitura enviesada da Bíblia para manter a supremacia masculina e excluir o protagonismo feminino, entre outros padrões que, como mulher evangélica, me deparei.

Aos poucos, fui entendendo que falar sobre esse machismo nas igrejas passava também por refletir sobre outros pontos como racismo e homofobia e busquei incorporar tais temas aos debates que propunha. A receptividade em relação ao blog foi muito boa.

Eu até me surpreendi porque, por tocar em pontos sensíveis dentro do ambiente evangélico, já estava preparada para ser atacada em massa.

Mas muita gente me apoiou: pastores, lideranças religiosas masculinas, pessoas que eu nem esperava que acolhessem a minha iniciativa tão bem. Mulheres começaram a me agradecer por estar falando daquelas questões. Claro que isso se deve também ao fato de eu sempre estar filiada a igrejas batistas, que possuem uma tendência mais plural. Congregações pentecostais e neopentecostais costumam ser mais rigorosas e inflexíveis.

Houve quem dissesse que eu estava profanando o nome de Deus

Um rapaz que eu conhecia da época dos grupos de jovens na Igreja e com o qual eu tinha perdido contato me encontrou nas redes sociais, viu que eu estava fazendo esse blog e começou a me ofender. Mandava mensagens dizendo que isso era perda de tempo, que eu estava cometendo heresia, que assim eu levaria muitas pessoas para o inferno.

Outra conhecida não gostou de me ver escrevendo sobre as questões que subjugam a mulher, levou para o lado pessoal e precisei cortar relações. Há Igrejas mais conservadoras também onde não sou bem-vinda, que não me chamam para atividades porque para elas o que eu faço é desrespeito, pecado, profanação. Mas eu nem ligo.

Além disso, alguns temas mais sensíveis dentro do meio evangélico costumam me render ataques na internet. Um exemplo é quando tento propor uma discussão sobre aborto ou falo de forma crítica sobre Bolsonaro. É certeza de que vou ter haters e gente me agredindo. Já percebi até que, ao trazer esses pontos, perco seguidores. Mas também não vou deixar de escrever sobre por causa disso.

Se com os pensamentos que compartilho na internet, eu conseguir alcançar uma ou duas pessoas, despertar uma mentalidade mais crítica, mais reflexiva e fazer a diferença na vida de alguma mulher, já cumpri meu objetivo. Tenho convicção da fé que tenho, do Deus que eu acredito e sei que esse Deus não é machista."

Isabela Garrido tem 33 anos, é jornalista, relações-públicas, autora do blog Tem Mulher na Igreja e mora em Salvador (BA).

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