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Ela cria cervejas: "Achava que mulher não poderia ser mestre-cervejeira"

Laura Aguiar, chefe da área de conhecimento e cultura cervejeira da Ambev - Renata Monteiro/Divulgação
Laura Aguiar, chefe da área de conhecimento e cultura cervejeira da Ambev Imagem: Renata Monteiro/Divulgação

Marcelle Souza

Colaboração para Universa

19/04/2021 04h00

A gaúcha Laura Aguiar, 37, entrou na indústria da cerveja um pouco por acaso, quando foi aprovada em um processo seletivo para um estágio na Ambev na época em que cursava a faculdade de engenharia de alimentos na UFGRS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).

"Nessa época, eu olhava para os mestres-cervejeiros, porque ainda eram poucas as mulheres nesse cargo, e achava que eram seres inatingíveis, que era difícil chegar lá", diz em entrevista a Universa.

Trezes anos depois, ela passou de estagiária a mestre-cervejeira e responsável pela área de conhecimento e cultura cervejeira da Ambev. E, nesse percurso, diz, acabou se apaixonando pelo assunto. Confira a entrevista.

UNIVERSA - O que faz uma mestre-cervejeira?

LAURA AGUIAR - Ela atua desde a criação da cerveja, com inovação, pensa nas receitas e nos ingredientes, faz a melhor escolha para chegar ao sabor que a gente deseja; também acompanha todas as etapas de produção, área em que eu sempre trabalhei. Ela pode estar focada nos equipamentos, em qualidade, olhando os resultados das análises, entendendo os controles, fazendo as degustações — não só da cerveja em si, mas durante todo o processo —, para ter certeza de que todas as etapas estão de acordo com o planejado.

De modo geral, o mercado cervejeiro é machista? Você se sente acolhida e bem recebida nos cursos e eventos da área?

O mercado cervejeiro, de forma geral, é um ambiente machista, porque a mulher ainda precisa entregar o currículo para ser valorizada. Quando eu comecei a ter mais contato com o mercado cervejeiro, eu já trabalhava há algum tempo na área e acho que isso ajudou a me inserir de uma forma mais positiva. É fato que no mercado a gente tem muito menos mulheres trabalhando nas cervejarias. Essa é uma questão a ser resolvida.

Quando um homem fala que é cervejeiro, todo mundo aceita e não faz muitos questionamentos. Quando eu falo que sou cervejeira, sempre vem uma pergunta do tipo 'que curso você fez?', 'quanto tempo você trabalha com isso?', sempre tem um questionamento depois.

Como surgiu o seu interesse em trabalhar na indústria cervejeira?

Eu sou formada em engenheira de alimentos e, quando eu estava no último ano da faculdade, fui atrás de um estágio na área em Porto Alegre (RS), que é a minha cidade; e foi assim que eu entrei no mundo da cerveja. O pessoal costuma perguntar se eu era apaixonada por cerveja, mas não é tão romântico assim [risos]. Eu entrei nesse mundo por acaso, mas eu continuei nele porque me tornei uma apaixonada por cerveja. Dentro da Ambev, eu me lembro que, quando ainda estava no estágio, me perguntaram se eu queria ser mestre-cervejeira. Nessa época, eu olhava para os mestres-cervejeiros, porque ainda eram poucas as mulheres nesse cargo, e achava que eram seres inatingíveis, que era difícil chegar lá

No fim das contas, ter essa liderança me instigando e falando que era possível contribuiu para aumentar o meu interesse pela área. Foi nesse processo que eu me tornei uma apaixonada por cerveja.

Laura Aguiar fez cursos fora do Brasil e foi se tornando apaixonada por cerveja - Renata Monteiro/Divulgação - Renata Monteiro/Divulgação
Laura Aguiar fez cursos fora do Brasil e foi se tornando apaixonada por cerveja
Imagem: Renata Monteiro/Divulgação

Como você se capacitou para se tornar uma mestre-cervejeira?

Em 2009, fiz o curso de técnica cervejeira no Senai em Vassouras (RJ) e, em 2010, fui para a Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, para fazer o de mestre-cervejeira, que é uma especialização. No currículo, os cursos me trouxeram esses conhecimentos, mas não foi só isso. Eu tive toda a prática de cervejaria dentro da Ambev, fiquei muito próxima de um mestre-cervejeiro muito experiente, que me ajudou a me capacitar. Eu fiz ainda um curso de sommelier de cervejas, em 2015, quando eu fui trabalhar com inovação.

Qual foi o momento mais difícil e desafiante da sua carreira?

A primeira gerência, de qualidade em uma das nossas cervejarias, que eu assumi foi um momento muito marcante para mim, porque eu estava em um processo de aprendizado — e acho que vou sempre estar —, mas eu não tinha a maturidade que eu tenho hoje para entender isso. Nessa época, eu ainda me cobrava, o que é uma coisa muito relacionada à liderança feminina, que tinha que ser a pessoa que sabe tudo. Hoje eu não sei tudo, e nunca vou saber, só que naquela época eu me cobrava muito nesse sentido. Esse foi um desafio que eu tive que vencer e, para isso, tive lideranças que me apoiaram muito e contribuíram para a minha formação. Acho que nós, mulheres, temos essa cobrança em tudo que a gente faz, até porque é algo social

Qual foi o momento mais importante da sua carreira?

Foram dois grandes momentos: o primeiro quando eu passei na seleção de estágio e depois quando fui aprovada para fazer o curso de mestre-cervejeira. Eu me lembro que, no dia em que recebi a ligação para o estágio, não conseguia parar de chorar. Eu fiquei muito emocionada e até com vergonha da pessoa que estava me dando o retorno da vaga. Eu senti que aquilo ia mudar a minha vida. Mesmo sendo um estágio, sabia que ali eu tinha oportunidade, e é uma coisa muito importante poder mostrar do que você é capaz. Depois disso, foi a seleção para o curso de mestre-cervejeiro, uma conquista, algo que eu já estava trabalhando na empresa, foi uma valorização do meu trabalho. Outro momento especial foi quando eu assumi um cargo gerencial, o primeiro em que eu tive que lidar com uma equipe.

Você entrou na indústria cervejeira aos 24 anos e hoje tem 37. O que mudou no mercado desde então?

Ela diz que é preciso aumentar a presença feminina nas cervejarias - Renata Monteiro/Divulgação - Renata Monteiro/Divulgação
Laura conta que trabalhar com uma equipe feminina e tem lutado por mais espaço para mulheres na área
Imagem: Renata Monteiro/Divulgação

Na época em que eu entrei nesse mercado, havia menos mulheres trabalhando com cerveja. Hoje há um movimento de questionar isso, entender por que essas mulheres não estão trabalhando, por que elas não têm as mesmas oportunidades. Estamos iniciando um caminho de mudança. Eu falo que ainda estamos no caminho, porque não acho que a gente tenha um cenário tão diferente hoje em termos de participação feminina, de participação de pessoas pretas. Então há um caminho grande que construir, mas a discussão já começou e as mudanças também. Dentro do nosso quadro de especialistas cervejeiras, a gente já tem 50% de mulheres, mas quando eu olho para a liderança como um todo, estamos com 30%. A gente tem conversado muito para conseguir mudar esse cenário e chegar a, pelo menos, 50%. São compromissos que a gente leva muito a sério e, como a maior cervejaria do país, é importante que a gente olhe para esses temas, porque gera um impacto em todo o mercado.

Nesse período, algumas empresas também passaram a prestar mais atenção nas mulheres como consumidoras, mudando, por exemplo, as propagandas de cervejas

Isso é reflexo dos postos que elas vêm ocupando na indústria cervejeira ou foi uma pressão do público?

Eu acredito que é resultado das duas coisas. É fato que a diversidade dentro da empresa traz questionamentos e faz com que essas mudanças aconteçam, porque são pontos de vista diferentes, ideias diferentes. Só que essa é uma discussão da nossa sociedade e é fato que o movimento das consumidoras também tem impacto. Falo isso porque, além de trabalhar na Ambev, eu também sou uma mulher consumidora e estou cobrando as empresas dessa mudança.

Você já teve síndrome de impostora?

Sim, mas demorei um pouco para me dar conta. Quando meu chefe falou de uma vaga para ser líder da área industrial de todas as cervejarias artesanais da empresa, imediatamente eu disse que não tinha certeza se queria. Era uma vaga que todos os cervejeiros da companhia achavam incrível, e ele deve ter achado um pouco estranha a minha resposta. Quando eu parei para pensar, me dei conta de que, na verdade, estava com medo de não dar conta da função, de não entregar o que era necessário. Então eu voltei para ele e disse que sim, que era um desafio e acabei assumindo a posição algum tempo depois. Eu acho que esse apoio é importante para consolidar as lideranças femininas, para que cada vez mais mulheres se sintam seguras para ocupar esses lugares, para que se enxerguem nessas posições e vejam que são caminhos possíveis

Você se imagina trabalhando em outras áreas?

Hoje eu não consigo ver outros caminhos. Cerveja é uma coisa que me fascina. Eu gosto muito da parte de química, de bioquímica, de entender o que acontece dentro da cerveja. Hoje é a bebida mais versátil que existe, tem mais 200 estilos, muitos sabores, muitas possibilidades de harmonizar com a comida. É um mundo tão rico, que eu tenho certeza de que eu vou trabalhar com isso para sempre, vou estudar isso para sempre e eu vou sempre ter o que aprender. Isso me estimula muito também.

O que você diria para outras mulheres que querem investir nessa carreira?

Eu acho que é importante as mulheres acreditarem nelas mesmas. A nossa sociedade é machista, o que às vezes faz com que a gente desacredite um pouco de nós mesmas. Eu acho que a gente tem que se unir mais, mulheres têm que conversar com mais mulheres que estão ocupando funções, trabalhando nesse mercado, para se sentirem estimuladas a continuar, porque esse é um caminho que a gente vai ter que construir juntas e isso ajuda para que a gente não se sabote. Eu acho que têm que procurar trabalhar em empresas que valorizem o trabalho das mulheres, porque gera um movimento de obrigá-las a mudar e, como profissional, ser agente dessa mudança também.

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