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Fisio revela luta de paciente covid por ar: "angústia em querer respirar"

A fisioterapeuta Meryane Fernandes, de Maceió (AL), ajuda pacientes com covid a voltarem a respirar e a andar - Arquivo pessoal
A fisioterapeuta Meryane Fernandes, de Maceió (AL), ajuda pacientes com covid a voltarem a respirar e a andar Imagem: Arquivo pessoal

Meryane Fernandes, em depoimento a Carlos Madeiro

Colaboração para Universa, em Maceió (AL)

02/04/2021 04h00

"Sou fisioterapeuta e trabalho em duas UTIs (Unidades de Terapia Intensiva) de um hospital privado de Maceió (AL). Além disso, faço também atendimento domiciliar a pacientes de covid-19 que tiveram alta hospitalar. Com a pandemia, uma das UTIs foi destinada só para pacientes de covid-19, onde eu dou plantão à noite, e a outra recebe as pessoas com outras patologias. Nesta, eu sou diarista pelas manhãs.

A rotina da UTI que não é de covid também está muitíssimo sobrecarregada e vive lotada: sai um paciente e nem seis horas depois já há a admissão de outro. Mas na de covid os plantões são altamente exaustivos. São pacientes de alta complexidade, que exigem tanto da gente fisicamente, mentalmente do ponto de vista técnico e emocionalmente.

A gente vê a angústia do paciente em querer respirar, mas ter falta de ar. É algo que salta aos olhos.

Quando o paciente está respirando apenas com o auxílio de oxigênio, trabalhamos com o gerenciamento desse oxigênio e ajudando com a pronação, a manobra em que colocamos ele de barriga para baixo. É um momento delicado, no qual o componente emocional do paciente é muito importante. Alguns ficam menos colaborativos com essas terapêuticas, outros são mais queixosos. A respiração deve ser sincronizada e tranquila à medida do possível. É preciso tranquilizar o paciente também e tentamos sempre fazer isso com diálogo e carinho.

Nós, fisioterapeutas, participamos diretamente, junto com o médico, do ato de intubar o paciente. A gente auxilia na parte ventilatória: o médico intuba o paciente e a gente está lá, a postos, para qualquer intercorrência. Nesse processo, a gente corre riscos pela alta dispersão de aerossóis pelo paciente. Nessa segunda onda da pandemia, mais que na primeira, a equipe se contaminou, mas não houve casos graves.

Quando os pacientes não precisam mais da ventilação e é feita a extubação, trabalhamos bastante nas 48h seguintes, que é tempo para saber se está indo tudo bem. A fisioterapia trabalha com alongamentos da musculatura respiratória e gerenciamento de oxigênio na tentativa de finalmente deixar o paciente respirando sozinho novamente.

Quando ele sai da UTI, o acompanhamento da fisioterapia respiratória e motora continua duas ou três vezes ao dia no quarto e depois em casa ou em algum centro de reabilitação até toda sua função respiratória e motora se restabelecer. Já tratei uma pessoa em casa que teve 80% de comprometimento pulmonar, que tomava banho sentada, e a deixei subindo escada correndo, pronta para voltar às atividades físicas normais de antes da covid. Mas esse tempo de recuperação não é exato. Isso depende do organismo, do comprometimento pulmonar, da persistência no tratamento. É relativo e pode levar de três a seis meses.

Essa segunda onda veio com uma característica bastante diferenciada em relação à primeira: estamos atendendo muitos jovens com órgãos em estado grave, que estão sendo intubados.

É muito sofrido tratar pacientes da nossa idade ou até mais jovens em uma gravidade extrema. Do ponto de vista técnico emocional, é muito desgastante. Isso compromete muito a rotina psíquica dos profissionais de saúde. Uma das coisas mais difíceis é lidar com um paciente que sabe do risco que sofre. A gente tem de lidar com o emocional dele, com ele agarrando sua mão e dizendo: 'pelo amor de Deus, me ajude, me salve'. Isso é altamente angustiante.

Nesta segunda onda, acho que a gente está com o emocional mais fragilizado. Esse processo já vem de um ano. Quando a gente pensava que a coisa ia melhorar, a pandemia ficou pior. Acredite: às vezes a gente tem a impressão que está enxugando gelo. Parece que a gente não está caminhando, não está fazendo nada, porque vem e aparece um paciente mais grave. Mas a gente vai lidando com um dia após o outro, cheios de fé e esperança de que as coisas evoluam bem.

*Meryane Fernandes, 41, é fisioterapeuta e trabalha na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) de um hospital particular de Maceió (AL)

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