PUBLICIDADE

Topo

Minha história

"Tortura não sai de nós", diz ex-presa política 57 anos após golpe militar

A ex-presa política Ana Bursztyn-Miranda em ato público em frente ao antigo prédio do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) para marcar o Dia Internacional de Combate à Tortura, em 2015 - Tânia Rêgo/Agência Brasil
A ex-presa política Ana Bursztyn-Miranda em ato público em frente ao antigo prédio do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) para marcar o Dia Internacional de Combate à Tortura, em 2015 Imagem: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Ana Bursztyn-Miranda em depoimento a Nathália Geraldo

De Universa

31/03/2021 04h00

"Tenho 72 anos. Aos 21, fui presa e torturada durante a ditadura. Tenho um inventário de cicatrizes de mais de 30 companheiros que conheci que foram mortos. Quando eu fui presa, não estava preparada. Não dá para se preparar para uma ditadura.

A gente lutou para diminuir a desigualdade, melhorar a relação do Estado com a população e minha geração não imaginava o que vivemos agora. Hoje, a violência permanece, mas eles mudaram o foco para os negros, os jovens e matam a rodo. O que a gente precisa é de racionalidade, para entender se há algo além de um projeto pessoal de se manter no poder e defender os próprios filhos. Porque a violência do Estado continua, ainda temos entulhos daquela época, como a Lei de Segurança Nacional, que está sendo discutida.

Em março de 1964, eu tinha 14 para 15 anos. Entrei na faculdade de Farmácia e Bioquímica, na UFRJ, em 1967. Então, fui da típica geração 68. Até ali, eu sentia as lufadas da ditadura, estudava em um instituto de educação que passou a ter greves e, em casa, havia um peso de "e agora? será que vão prender todo mundo?". Meu pai era um cara progressista, mas nunca foi militante, e pelo namorado da minha irmã, que já estava na faculdade, passei a ouvir os ecos do que acontecia.

Na faculdade, já entendia mais sobre a ditadura instalada e tinha conhecidos que militavam. Entrei já procurando o que fazer. Me enfiei de cabeça no movimento estudantil, e tinha grupos de leitura e protestos de rua. Para mim, aquilo era atividade de construção para uma luta contra ditadura. Em 1968, a barra pesou, então íamos muito para a rua. Eles mataram em março [o estudante secundarista] Edson Luis de Lima Souto, do qual não participei da missa porque cheguei atrasada e já estava tudo fechado do lado de fora, com gás lacrimogêneo e tudo.

Enquanto isso, a gente discutia como denunciar ao mundo o que estava acontecendo. Fui presa duas vezes em movimento estudantil, em que os militares tentaram entrar em uma assembleia que estávamos fazendo no campus da Praia Vermelha. Começaram a atirar para baixo, e a gente recuou. Foram 300 presos, e saímos com as mãos para cima no jornal Correio da Manhã. Uma semana depois, houve a passeata de 100 mil com repercussão nos jornais, e, depois dos 50 mil, a primeira em que houve tiros no final.

A segunda prisão foi em um congresso clandestino de estudantes, em 12 de outubro daquele ano. A maioria das lideranças ali ficou presa por uma semana, mas alguns foram para o presídio de Tiradentes, em São Paulo, e outros para o São Judas Tadeu, no DOPS do Rio. Ficharam todos nós e ficamos no famoso álbum de reconhecimento. Foi um dos setes processos a que eu respondi, que depois caiu."

"Escolhi a resistência armada depois do AI-5"

Na passeata dos 100 mil já se falava que somente o povo armado derruba a ditadura, mas, para mim, era algo completamente teórico. Havia uma repressão, mas a luta era pelas palavras e pelas manifestações. Com o AI-5 as coisas pioraram, e eu escolhi a resistência armada.

Tem aquele livro "68, o ano que não terminou", né? Penso que o ano de ruptura foi 1969, porque eles começaram a se estruturar melhor na repressão, com referência na forma com que a França massacrou os argelinos, na Guerra da Argélia, e na Escola das Américas [escola de treinamento do Exército dos Estados]. O Exército, por aqui, tomou a frente da repressão, mas Corpo de Bombeiros, Polícias civil e militar e delegacias podiam trabalhar para eles, além da Marinha e da Aeronáutica, que também tinham centros de informação.

Em abril de 1969, fui levada para o DOPS de Curitiba depois de ter ido visitar um namorado que estava preso lá e era presidente de diretório de uma faculdade de Economia. Era 21 de abril, um feriado, e fui com dois colegas militantes, um inclusive que foi morto e é desaparecido. Quando me chamaram no pátio, já falei para eles escaparem. Fiquei horas lá e me levaram para a Polícia Federal, onde fiquei incomunicável.

Por eu ter 20 anos na época, pediram para meu pai me buscar. O comandante falou: "Você tá fichada, processada, mas dessa vez você escapa da prisão".

Foi então que entrei na semiclandestinidade e passei a fazer parte da Ação Libertadora Nacional, a ALN, no Rio. A barra pesou de vez naquela época, com o sequestro do embaixador [o americano Charles Burke Elbrick foi sequestrado por grupos revolucionários em troca da libertação de presos políticos], a prisão de muita gente em São Paulo e no Rio de Janeiro e o assassinato de Virgilio Gomes da Silva dentro da Oban [Operação Bandeirante].

E aí, em 30 de dezembro, no meu aniversário de 21 anos, recebo um presente do estado militar terrorista brasileiro. Eu estava na casa de amigos, mas cercaram a casa da minha família. Minha mãe, minha irmã de 14 anos e meu irmão mais velho foram levados em carros particulares para o DOI-CODI.

Tinha marcado de encontrar com minha mãe, que me levaria um lanche, dinheiro, mas ela não apareceu. Resolvi ir até lá. No caminho vi um orelhão e liguei antes. Ela disse: "Desaparece, que a casa está cercada desde às 5 da manhã. Meu pai foi avisado por um porteiro amigo e conseguiu correr atrás das coisas para libertarem eles.

"Você não tem alguma coisa com terrorista, não?"

Ana Miranda - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Ana Miranda tem hoje dois filhos e dois netos. Conseguir engravidar, para as mulheres torturadas, era uma "afirmação de vida"
Imagem: Arquivo pessoal

Fui para São Paulo completamente clandestina por conta da organização. Até que fui presa em julho de 1970, no 1º DP, no centro da cidade. Já saíram me dando choques elétricos em uma sala, porque eu reagi à prisão por estar armada. O delegado me perguntou: "Você não tem alguma coisa de terrorista, não?". Inventei que tinha um namorado que era policial e que a arma era dele, mas descobriram minha ficha.

À noite, fui levada para a Oban, onde se torturava barbaramente. Havia dois agentes que não sabiam nem o que perguntar para mim. Eles me estupraram com cassetetes. Pareciam ter a ideia de que podiam matar sem consequências.

É como o que está acontecendo no governo atual, temos um Estado violentíssimo, com mães que não sabem onde os filhos estão, com 'muitos Amarildos' por aí.

Fiquei dez dias na Oban, depois fui para cela do DOI-CODI, do Rio, chamada de "Maracanã", porque era a maior, mas ficava completamente sozinha, só vendo torturador o dia inteiro. Ainda passava semanas no hospital por causa de porrada, afogamento, jacarés colocados no nosso corpo.

Também cheguei a ficar um ano e meio no presídio Tiradentes [na Torre das Donzelas, penitenciária feminina em que a ex-presidenta Dilma Rousseff também foi presa], que foi quase um oásis dentro da repressão, porque havia coletividade, que é muito importante. Só saí da prisão em 1974, com uma condicional.

"Não há como se preparar para uma ditadura"

Tenho um inventário de cicatrizes de mais de 30 companheiros que conheci que foram mortos. Quando eu fui presa, não estava preparada. Não dá para se preparar para uma ditadura. E nós, jovens, achávamos que podíamos ter uma sociedade menos desigual, e que iríamos enfrentá-los.

Tenho pensado muito nisso neste isolamento. Estou comprometida psicologicamente por causa das torturas e das prisões, por mais que eu tenha me tratado com psicanalistas, é uma marca muito forte para se ultrapassar.

Mas eu segui minha vida. Tenho dois filhos, que eles disseram que eu nunca ia ter. Para as mulheres torturadas, isso é uma afirmação da vida. Conseguir sobreviver e ter um filho. Só que a tortura não sai da gente. A gente vai tentando andar...

"O Exército nunca se desculpou pelo que aconteceu"

Duas coisas marcam os militares daquela época: a ida à Escola das Américas e a medalha dos pacificadores, que vários receberam, como o coronel Brilhante Ustra e o delegado Fleury. Deveriam ser retiradas essas medalhas, como reparação simbólica de um Estado que conviveu com torturadores e assassinos que as receberam, que nunca se desculpou pelo que aconteceu.

Aliás, a violência permanece, mas eles mudaram o foco para os negros, os jovens e matam a rodo. A gente lutou para diminuir a desigualdade, melhorar a relação do Estado com a população e minha geração não imaginava o que vivemos hoje.

"Hoje, estamos vivendo a alta madrugada antes do despertar da aurora"

O golpe de 1964 foi dado com um projeto econômico, de concentração de renda, e político para o Brasil, e com um certo sentido nacional desenvolvimentista que não há hoje. Fico me perguntando qual é o projeto atual. Porque o parque industrial do Brasil está destruído, falta incentivo para Cultura, Ciência... E é um governo que é civil, mas militarizado.

O que a gente precisa é de racionalidade, para entender se há algo além de um projeto pessoal de se manter no poder e defender os próprios filhos. Porque a violência do Estado continua, ainda temos entulhos daquela época, como a Lei de Segurança Nacional, que está sendo discutida.

Por isso, temos que disputar a memória e a narrativa do que dizem ser essa 'revolução' de 1964. É preciso ter reparação, as Forças Armadas não podem tutelar a sociedade civil, precisamos acabar com as mentiras.

Outros países da América Latina foram construindo políticas publicas de memória, justiça e verdade na ditadura. Para mim, em um curto espaço de tempo nosso horizonte é estreito, mas isso pode alargar. Em 2011, fundamos o Coletivo RJ Memória, Verdade e Justiça, e também atuamos pela Plenária Anistia Rio, já que a Comissão de Anistia é composta por generais que colocam livros do Ustra sobre as mesas.

O Brasil de hoje me faz lembrar o "A hora do lobo", filme do Ingmar Bergman que se passa na alta madrugada antes do despertar da aurora. Estamos vivendo isso.

Se não houver políticas públicas claras de memória, verdade e justiça, vamos ficar pelo meio do caminho. E não sei se vou ver isso, minha geração já está morrendo.

Enquanto isso, aos 72 anos, já tomei minha primeira dose da vacina contra covid-19. A segunda vai ser em meados de abril. Quem sabe em maio, junho, já conseguiremos ir para as ruas?"

Minha história