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Cancelamento vida real: por que elas decidiram excluir pessoas do convívio

Isa fala sobre a difícil decisão de cortar a relação com os pais - Arquivo Pessoal
Isa fala sobre a difícil decisão de cortar a relação com os pais Imagem: Arquivo Pessoal

Júlia Flores

De Universa

30/03/2021 04h00

A palavra cancelamento, que já domina as redes sociais há um tempo, tem ganhado ainda mais destaque por causa de atitudes dos participantes do BBB 21. Cancelar é o ato de excluir alguém do seu círculo social, ou de suas redes sociais — e indo além, das suas playlists, da sua estante e até da sua lista de filmes preferidos. Se alguém erra, seja falando algum absurdo ou tendo uma atitude condenável em um programa, como no caso do BBB, não tem segunda chance: você dá unfollow nas redes sociais e até parar de escutar uma cantora que até então você gostava.

Não é de hoje que a eficácia da cultura do cancelamento vem sendo questionada. Depois do que aconteceu no reality, quando a rapper Karol Conká, Projota, Nego Di e Lumena, entre outros brothers, "cancelaram" o colega Lucas Penteado por atitudes dele as quais eles não gostaram, voltou-se a discutir o cancelamento. E eles, os canceladores lá dentro, foram cancelados pelo público saindo com recordes de rejeição.

Para muitos espectadores, os cancelamentos no programa serviram de gatilho para lembrar de quando cancelaram alguém ou foram cancelados. Dialogar com quem é contrário ao que você pensa, relevar erros e entender que por trás de perfis da internet existem pessoas, não é uma prática comum nas redes sociais e nem fora delas, como explica a psiquiatra Natalia Timerman.

O maior cancelamento é feito fora da internet, quando deixamos de conviver com a pessoa, deixamos de falar, a excluímos. O cancelamento diz muito sobre a capacidade de lidar com nossas próprias questões. Quando uma coisa incomoda no outro é porque ela também está na gente.

Universa ouviu três mulheres para entender o que as levou a cancelarem ex-parceiros, familiares e amigos. Leia a seguir os relatos.

"Minhas melhor amiga duvidava da pandemia"

"Eu tive uma briga com uma das minhas melhores amigas porque ela não acreditava na pandemia. O auge foi quando uma pessoa da minha família morreu por covid-19, e ela disse que tinham falsificado o laudo da morte.

O processo de romper a amizade foi feito aos poucos. Apesar de morarmos em cidades diferentes (ela em São Paulo, eu, no interior do estado), antes da pandemia a gente se via bastante. Ela também é amiga da minha irmã e sempre saíamos juntas. Desde que a conheço, sabia que ela tinha opiniões politicas diferentes da minha. Na época das eleições de 2018 nos afastamos um pouco, mas depois retomamos a amizade.

No começo da pandemia, como eu estava sem aula e ela, desempregada, ficamos mais próximas. Até que ela começou a falar absurdos sobre o coronavírus -- que era, por exemplo, uma invenção por trás da teoria da nova ordem mundial. Como eu sou da área das ciências biológicas, não dá para duvidar desse vírus. Sei que tem gente mais velha que acredita nessas coisas, mas ela é jovem, devia ter um 'feeling' de ir atrás das informações, pesquisar o que recebe no WhatsApp. Me senti muito desrespeitada e ofendida, parecia que ela estava cega pela própria opinião.

Foi quando tivemos uma discussão, e ela disse que eu estava sendo enganada. Hoje, a gente não se fala, bloqueei ela de todas as redes e a gente se afastou. Sinto falta da nossa relação, porque ela era legal, engraçada e tínhamos pontos em comum, só que não consigo imaginar uma reaproximação, porque ela brincou com a morte de uma pessoa da minha família.

Eu não me sinto culpada por ter me afastado dela. Acredito que o que eu fiz foi certo e acho também que as coisas que defendo são verdadeiras. Vejo que a prática do cancelamento foi banalizada ultimamente. Agora o que eu fiz com a minha amiga eu vejo mais como um afastamento necessário, porque eu estava machucada."

Depoimento de Isa, 22 anos, estudante de biologia.

"Após três anos de namoro, ele não teve responsabilidade emocional comigo"

Rebeca cancelou o ex-namorado por irresponsabilidade afetiva - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Rebeca cancelou o ex-namorado por irresponsabilidade afetiva
Imagem: Arquivo Pessoal

"Cancelei o meu ex-companheiro principalmente por falta de responsabilidade afetiva. Mesmo sendo um relacionamento aberto, foi uma relação longa que durou três anos e ele parecia não se importar em ferir os meus sentimentos.

Apesar dele dizer que não queria um namoro fechado, estávamos sempre juntos, nos víamos todos os dias, eu conhecia o filho dele e frequentava eventos com os amigos. Mas, depois de pouco mais de um ano, ele começou a se distanciar e parou de ter o cuidado para que eu não percebesse que ele estava vendo outras mulheres. Foi quando terminamos pela primeira vez, em 2016.

Depois de um ano, ele me procurou e dei outra chance para o relacionamento. Dessa vez me sentia mais segura e livre, saía com outros caras e até tive um segundo relacionamento aberto em paralelo. Durou dois anos e foi muito bom, mas com a pandemia ele se mudou para a cidade onde o filho mora com a mãe.

A distância começou novamente, ele só respondia as mensagens depois de dias e ficava monossilábico. Ligações só quando ele não estava em casa e para falar de assuntos triviais. Me cansei, perguntei se ele havia voltado com a ex e ele foi evasivo e não respondeu.

Então terminei por telefone, deixei as coisas dele na portaria, apaguei as conversas do WhatsApp, bloqueei o número e saí das redes. Esse foi meu cancelamento, ele não me ver mais e não poder mais falar comigo. Não sei se vou perdoá-lo um dia, ele não está disposto a mudar. Acho que já o deixei ir, não considero a chance dele voltar para minha vida.

O cancelamento sempre existiu, ele só ganhou um nome e novas proporções — injustas muitas vezes, principalmente nas redes sociais. As pessoas não têm nem chance de se defender dos erros. Claro, existem situações sem explicação, tipo agredir alguém física ou sexualmente. Mas existem outros erros que fazem parte da vida da pessoa. Esse tipo de cancelamento acho cruel e perigoso."

Depoimento de Rebeca A. W., 42 anos, veterinária

"Cancelar meus pais: a melhor decisão que já tomei"

"Acho que a palavra cancelar está na moda. Para mim, cancelar é se afastar e não querer saber mais da outra pessoa. Por muito tempo, tentei manter o relacionamento com meus pais, mas decidi cortar os laços depois de alguns episódios conturbados.

Meu pai é uma pessoa ausente e minha mãe foi mãe solo por um longo período; eles sempre estavam em conflito, mesmo não dividindo o mesmo teto. Tenho um irmão mais velho e uma irmã caçula. Vivemos situações difíceis na minha infância. Minha mãe se estressava e trazia problemas para casa — e a gente morava em um lugar minúsculo na periferia de São Paulo.

Quando eu fui demitida do segundo emprego, em 2015, passei a ficar mais tempo em casa e meu convívio familiar piorou. Um dia minha mãe me expulsou de casa por ciúmes, porque eu tinha ido viajar com uma amiga. Eu fui embora e passei a morar em uma pensão. Foi quando decidi parar de falar com ela.

Eu tentei pedir ajuda para o meu pai, mas ele não quis me receber na casa da minha avó, onde ele também morava. Mesmo assim, eu o perdoei e seguimos em contato. Até que ele voltou a morar com a minha mãe e a minha irmã mais nova e vi que eles repetiam as mesmas ações com ela.

A partir daí, decidi parar de falar com meu pai também. Tentei ser a filha perfeita, mas não adiantou. Meu pai não tem empatia e minha mãe não cuida da saúde mental dela, não revê os relacionamentos. Depois que minha irmã saiu de casa, cancelei de vez os dois. Hoje eu moro na Nova Zelândia e recomecei a vida por aqui. Era um relacionamento que não fazia bem para o meu psicológico e foi melhor eu me afastar de ambos. "

Depoimento de Isabella Istome, 31 anos, administradora l

Qual a melhor saída?

Para Natalia Timerman, o cancelamento é uma prática que prejudica ambos os lados.

Cancelar reproduz a mesma violência que fizeram com a gente. A prática 'ajuda' a distinguir as pessoas como vilãs ou boazinhas, porque quando a gente cancela alguém, a gente assume que o outro é ruim e nós, bons, mas isso não existe. Todo mundo é complexo."

A psiquiatra afirma que, em casos de violência, o afastamento se faz necessário. "Não dá para dizer o que é certo ou errado. Cada situação é única", diz. O diálogo, ressalta, é importante para que, enquanto sociedade, possamos evoluir em questões estruturais. "

Por exemplo, em situações de racismo, não dá para cancelar todos os racistas, porque a nossa sociedade é racista. Racismo não se repara com cancelamento, se repara com conversa, com ações em conjunto. Já dizia a filósofa alemã Hannah Arendt, 'se a gente quer operar mudanças, precisamos agir coletivamente'. Cancelar é o oposto disso, cancelar é agir como se o problema não existisse."

Para aqueles que buscam a "cura" de relacionamentos tóxicos, Timerman diz que entende o afastamento como um ato necessário para se reelaborar aquela relação, mas que excluir a pessoa completamente da sua vida pode não ser a melhor saída.

"Se você cancela alguém, você não se resolve com essa pessoa e nem com você mesmo. Cancelar é agir como se aquilo não existisse. Nesses casos, é preciso tentar inverter a situação e pensar: por que essa pessoa me incomoda? O que tem dela dentro de mim para que eu não consiga, não suporte, ou não tolere estar perto dela? A solução é não generalizar."