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Você boicota a relação quando está se apegando? Isso tem explicação

Mulher olha celular, fala de influencer viraliza, rede social - golubovy/Getty Images/iStockphoto
Mulher olha celular, fala de influencer viraliza, rede social Imagem: golubovy/Getty Images/iStockphoto

Heloísa Noronha

Colaboração para Universa

14/03/2021 04h00

Começar brigas ou discussões bobas, provocar ciúmes, não se envolver na mesma intensidade que o outro, arrumar um monte de defeitos no parceiro, compará-lo com o ex, deixar mensagens sem resposta e até mesmo sumir sem nenhuma explicação (o já famoso "ghosting") são algumas das estratégias que muitas mulheres adotam quando querem sabotar um relacionamento. Só que nem sempre essas atitudes são conscientes: muitas vezes são uma defesa contra um possível sofrimento.

O problema é que acabam, porém, se machucando com suas próprias atitudes. "Esse boicote é uma maneira de burlar à vulnerabilidade necessária para que possam receber e dar amor, ter responsabilidade afetiva e assumir os próprios desejos e carências", fala a psicanalista Sandra Hott.

Investir em relacionamento exige se expor à vulnerabilidade. Aceitar que a possibilidade de ser abandonada, sofrer existem tanto quanto a de dar certo e ser feliz, assusta muitas mulheres. "A ilusão, o desejo e o sonho podem estar enclausurados nos limites da zona de conforto. Por isso, sempre que chegam perto da realização acabam, de uma forma, estragando tudo, seja afastando-se ou criando situações que repelem o parceiro, quase que forçando um abandono pois preferem permanecer em um universo ruim já conhecido, pois para elas é um local seguro", afirma a psicóloga clínica e terapeuta de casal Triana Portal, de São Paulo.

Esse padrão, na verdade, se mantém em função de vários fatores que precisam ser analisados com cuidado. Só assim, tomando consciência deles, é possível romper modificar o comportamento e se permitir dar uma chance ao amor. Segundo especialistas, os mais emblemáticos são:

- Idealização do amor: a fantasia do amor romântico dos contos de fadas e das comédias românticas faz com que várias mulheres acreditem em "almas gêmeas" e numa felicidade quase sobrenatural ao encontrar um parceiro, o que só gera infelicidade e frustração - afinal de contas, as pessoas são humanas e, portanto, imperfeitas. Assim, o grau de exigência altíssimo faz com que muitas sabotem o namoro ao primeiro sinal de "erro".

- Medo de amar/se envolver e se machucar: Esse temor, segundo Triana, tem estreita relação com fragilidade emocional, pouca vivência afetiva e/ou ausência modelo de relacionamento amoroso saudável e traumas nos anos de formação da personalidade e por relacionamento abusivo na vida adulta. "Figuras parentais disfuncionais, rompimentos, abandono e o fato de não ter recebido amor suficiente podem tornar as pessoas inaptas a ter relacionamentos afetivos plenos. A possibilidade de dar certo assusta, é algo desconhecido. Ser amada quando nunca foi pode parecer algo que sufoca", fala a terapeuta.

O medo de ser rejeitada novamente ou de não ser correspondida faz com que algumas pessoas evitem um relacionamento, o que, segundo os especialistas, é um erro. "Independente de alguém ter tido ou não tais experiências, ninguém tem garantias que o relacionamento dará certo", comenta a psicóloga Joselene L. Alvim, especialista em neuropsicologia.

- Medo de perder a liberdade: De acordo com a terapeuta de casal e de família Carmen Cerqueira Cesar, de São Paulo (SP), muitas mulheres lidam muito bem com o lado prático da vida mas, ao se apaixonarem, temem perder o focos nos seus objetivos. "Algumas confundem amor com dependência, acham que serão obrigadas a viver a vida do outro e que não terão mais espaço para si mesmas. Podem também ter uma imagem de relação amorosa mais ultrapassada, um modelo de relação de pais, por exemplo, em que a mulher se submetia ao homem de alguma forma e deixava de existir. Elas não querem perder a identidade, mas isso só acontece se elas deixarem", observa Carmen.

- Histórias mal resolvidas no passado: essas lembranças tornam-se um refúgio como forma de compensar o medo de se relacionar. "Essas experiências permanecem não resignificadas e são constantemente resgatadas em forma de comparações e projeções, criando obstáculos para que a relação atual ", afirma Triana.

- Insegurança mascarada de arrogância e vaidade: quando a pessoa tem conflitos interiores pode agir de forma instável, exigente, determinando expectativas grandiosas e inatingíveis. "Ela se torna controladora e a forma de minar qualquer possibilidade de um amor pleno é sempre desqualificando o outro, suas qualidades, como se ninguém fosse bom o bastante para ela", pontua Triana.

- Baixa autoestima: por não se achar digna de amor. a mulher já entra no campo com o jogo perdido. "Ou ela vai achar um motivo para terminar ou vai dar um motivo para o outro terminar. E vai continuar sempre nesse circuito infeliz, de decepção em decepção, na maioria das vezes por situações criadas por ela mesma", explica Carmen.

Estratégias para deixar de praticar a autossabotagem

O que leva uma mulher a não estabelecer um vínculo duradouro pode envolver questões objetivas ou subjetivas, por isso é fundamental buscar se conhecer bem, em primeiro lugar. Outras sugestões pinçadas por Universa com as especialistas são:

- Aprender a equilibrar razão e emoção. Algumas mulheres aparentemente são mais racionais e lidam bem com a vida prática, mas diante do amor temem "perder o controle". Então, criam defesas para a vida afetiva, porque temem que, caso se abram à emoção, esta possa ser destrutiva e trazer sofrimento. "Na verdade, ela precisa aprender a lidar consigo mesma", diz Carmen.

- Questionar crenças a respeito das relações amorosas. Principalmente os modelos malsucedidos do passado familiar e as falas que os acompanhavam e que foram certamente internalizadas e consideradas verdades.

- Superar as relações que deram errado: entendê-las como experiências importantes para o crescimento. É importante aprender com elas.

- Conscientizar-se que relacionamentos são feitos de concessões: "Porém, ao mesmo tempo, é necessário o respeito da individualidade do outro. Isso pode ser colocado através de um diálogo franco em que cada um coloca as expectativas que tem da relação", fala Joselene.

- Dar tempo ao tempo para que o outro também se mostre na relação: assim, é possível observar e tirar as próprias conclusões. É preciso dar espaço para que a relação aconteça e avançar com calma, pois a ansiedade é inimiga neste caso.

- Lembrar-se que todos os relacionamentos são desafiadores: "É essencial identificar os próprios medos e como eles influenciam nosso comportamento, e a partir daí, amadurecer, enfrentar os riscos inerentes à vida em busca de realização", aconselha Triana.

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