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Após ataques misóginos no Dia da Mulher, paratleta recebe chuva de amor

Claudine Santos foi estrela de uma campanha cujo mote é mostrar que o esporte é para todos - arquivo pessoal
Claudine Santos foi estrela de uma campanha cujo mote é mostrar que o esporte é para todos Imagem: arquivo pessoal

Júlia Warken

Colaboração para Universa

12/03/2021 04h00

Responder o ódio com amor. Esse tem sido o lema de Claudine Santos, 31 anos, após sofrer uma série de ataques misóginos no Instagram. Medalhista em competições de paratletismo, ela foi convidada pela Netshoes para uma campanha cujo mote é mostrar que o esporte é para todos.

Veio o 8 de março e a empresa resolveu postar uma foto de Claudine - e de várias outras mulheres - em uma ação referente à data. Foi o suficiente para que comentários como "Por que escolheram um homem para a campanha de Dia da Mulher?", "Será que a mulherada gostou de ser representada por essa pessoa da foto?" e "Cadê a mulher?" começaram a se multiplicar no Instagram da marca.

"Teve muita repercussão negativa e é óbvio que isso me afeta. Não tem jeito. Por mais que a gente esteja preparada para segurar isso, porque eu já passei por muita coisa na vida. Você pensa 'ah, não vou ler os comentários', mas você acaba lendo, não tem muito o que fazer. Aí você vai ler e começa a ver como o mundo é mau."

Felizmente, a ex-atleta acabou sendo surpreendida mais uma vez naquele mesmo dia. Uma corrente do bem - como ela define - acabou surgindo, mobilizada por mulheres que se revoltaram com os ataques.

"Eu nunca recebi tanta mensagem na vida, estou até com dificuldade para responder todo mundo. Estou recebendo mensagem de muitas mulheres dizendo que elas se sentiram representadas por mim, que elas estão comigo, que elas vão estar lá para o que eu precisar".

Além de ser procurada por diversas mulheres, Claudine também viu crescerem as mensagens de apoio no post da Netshoes. A empresa, aliás, tomou a decisão de apagar os comentários ofensivos e dar apoio à ex-atleta.

"É importante ressaltar que não encaramos como uma crise, mas como uma resposta natural ao novo ou aquilo que está fora do padrão a que estamos habituados", disse a Netshoes a Universa. Segundo Claudine, a empresa também mostrou-se preocupada com o bem-estar dela frente às manifestações de ódio.

Com serenidade, Claudine afirma que nunca cogitou responder aos agressores na mesma moeda. "Eu penso que você tem que combater o mal com amor. Você vai lá, joga amor em cima e pensa 'gente, eu não vou xingar, eu não vou brigar, eu não vou fazer o que vocês fizeram'". Pelo Instagram, ela se posicionou com uma mensagem em que agradece a todo mundo que está lhe apoiando.

Apesar do baque ao ver tantas ofensas, Claudine conta que foi vítima de discriminação outras vezes. Relata que já ouviu coisas criminosas como "sapatão tem que morrer" e "além de deficiente é lésbica", além de ter escutado do dono de uma empresa onde trabalhava que "ele não ia falar com sapatão".

Uma das três mudanças na vida

Abertamente lésbica, ela também sofreu rejeição na família e até mesmo sua filha Maria Eduarda, hoje com 10 anos, já foi verbalmente agredida por um estranho. Em uma ida das duas à padaria, um homem ouviu a criança chamando pela mãe e falou: "Não é sua mãe, é seu pai. Não tá vendo? Parece um homem".

Claudine Santos com a filha, Maria Eduarda, de 10 anos - arquivo pessoal - arquivo pessoal
Claudine Santos com a filha, Maria Eduarda, de 10 anos
Imagem: arquivo pessoal

Cheia de orgulho da filha, Claudine diz que Maria Eduarda já sabe se posicionar em situações como essa e que a configuração familiar fora do padrão tradicional é assimilada com tranquilidade pela menina. Depois da chuva recente de negatividade, agora Claudine está radiante por conta do carinho que vem recebendo.

"Somos só eu e a minha filha. Eu me viro sozinha e é bem complicado. Me sentia sozinha, mas hoje eu vejo que não estou. Muita gente está me abraçando e eu realmente me sinto abraçada. Se não tivesse a repercussão positiva em resposta à negativa, não sei como eu estaria me sentindo agora".

Ela revela que também está sendo procurada para outras campanhas publicitárias. "Eu falo que eu tive três mudanças de vida: quando eu sofri o acidente, quando eu decidi pela amputação e agora. Estou me achando o máximo", comemora, sorrindo de orelha a orelha.

De acidente de moto à dedicação ao atletismo

Para além da repercussão recente, aos 31 anos Claudine tem uma história e tanto para contar. Com 18, ela sofreu um acidente de moto que a deixou em coma por sete dias e afetou sua perna direita de maneira irreversível. Quatro anos depois, tomou a decisão de amputar a perna, após pesquisar muito a respeito do assunto e chegar a conclusão de que isso lhe traria muito mais qualidade de vida.

Nesse meio tempo, acabou engravidando. "Eu tinha uma perna que não funcionava e uma filha recém-nascida. Eu não conseguia andar com ela no colo, então sempre tinha que pedir para alguém colocar ela no meu colo. Era muito complicado e foi uma motivação muito grande para eu decidir pela amputação. Depois da amputação foi quando eu comecei a viver com a minha filha de verdade. A Eduarda já tinha quase três anos quando eu finalmente pude andar com ela no colo".

Claudine atleta - arquivo pessoal - arquivo pessoal
Claudine participou de competições de paratletismo entre 2014 e 2016.
Imagem: arquivo pessoal

Voltar a andar por meio da prótese também mudou completamente os rumos da carreira de Claudine. "Quando dei meus primeiros passos [após a amputação], foi muito incrível. Eu pensei assim: 'cara, eu não quero ficar só andando, preciso fazer uma coisa a mais'. Aí foi quando eu conheci pessoas que me levaram para o esporte. Eu comecei a correr... e eu voei. Consegui superar meus próprios limites dentro do esporte".

Claudine foi medalhista de competições nacionais de atletismo - ela ganhou, por exemplo, medalha de ouro no Circuito Caixa (100 e 200 metros) e no Circuito Paulista entre 2014 e 2016. Infelizmente, a falta de patrocínio fez com que se afastasse das pistas de corrida. O esporte também acabou fazendo com que ela se tornasse modelo de campanhas publicitárias, mas Claudine não esconde que gostaria de se dedicar mais a outra área na qual atua: a de palestras motivacionais.

Além de defender a representatividade de mulheres que, assim como ela, não estão dentro dos padrões estéticos e heteronormativos, ela também procura criar uma corrente de apoio e incentivo a pessoas com deficiência. "Conheço gente que diz que, por exemplo, queria acampar, mas não faz isso por ser amputado. Quero chegar nessas pessoas e dizer 'lógico que consegue, vamos lá, eu vou te mostrar como é que é'", aponta. Acreditando mais do que nunca na força do coletivo, Claudine quer passar adiante a onda de positividade que tomou conta de sua vida nos últimos dias: "Quero motivar as pessoas. Quero que a galera se sinta abraçada como eu me senti depois disso tudo que aconteceu".

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do que foi publicado primeiramente, a atleta não representou o Brasil nos Jogos Olímpicos de 2012 e 2016.

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