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10 Perguntas

Ingrid Silva, bailarina: "Não quero perder a essência. Eu não sou só mãe"

Nathália Geraldo

De Universa

09/03/2021 04h00

Há 12 anos morando em Nova York, a primeira bailarina do Dance Theatre of Harlem Ingrid Silva conseguiu pela primeira vez ficar mais tempo em casa, sem viajar para se apresentar pelos palcos do mundo com a companhia, por conta da pandemia. Ingrid se recolheu por conta dos protocolos de isolamento social, mas também para viver um momento único em sua vida: a primeira gravidez.

Laura nasceu em dezembro, e Ingrid só anunciou que estava grávida nas redes sociais dois meses antes. Até hoje, não publicou nenhuma foto em que o rostinho da filha apareça. A privacidade e a liberdade de escolha da criança são suas preocupações. "Nem brinco na orelha dela eu coloquei, olha o tanto de possibilidades que dou para ela escolher".

ingrid silva - Divulgação - Divulgação
Ingrid Silva, bailarina, fala sobre vida profissional e maternidade
Imagem: Divulgação

Em entrevista para Universa, feita por chamada de vídeo em meio a compromissos da artista em São Paulo (veja trechos acima), Ingrid fala sobre como foi seguir a gestação no isolamento, sobre o puerpério e a importância de ser uma bailarina negra que ocupa espaços antes inimagináveis — as sapatilhas de ponta que ela pintava com maquiagem marrom para ficar no tom de sua pele, por exemplo, foram para um museu estadunidense e ela mesma palestrou em uma conferência da Universidade de Harvard no início deste ano.

UNIVERSA: Você fez fotos e vídeos incríveis na gravidez, inclusive dançando balé. Como você se sentiu física e emocionalmente na gestação?

Ingrid Silva: Descobri a gravidez no dia 1º de abril, dia da mentira, e realmente achei que não era verdade. Pensei: "E agora? O que a gente vai fazer com tanta coisa acontecendo no mundo?". Mas, sempre falo que as coisas acontecem na hora certa. Depois, veio uma calmaria para ver como as coisas iriam funcionar. E acabei inserindo minha gravidez ao meu lado profissional. Foi importante, porque são duas coisas que fazem parte da minha vida.

Eu fiz aulas adaptadas para a gravidez com minha coach, porque sou uma pessoa com muita energia e não ia conseguir ficar parada. Além disso, entrei em uma comunidade de mães que são bailarinas profissionais e foi muito bacana para dividir experiências. Para muitas é uma felicidade, mas também é um choque. Afinal, a maternidade é algo revolucionário, que muda sua vida. É ser responsável por alguém.

Como foi estar grávida no meio da pandemia?

De certa forma, a pandemia veio em um momento em que estou bem profissionalmente. Porque se eu estivesse dançando ativamente e engravidasse, seria uma interrupção muito grande. A pandemia virou uma pausa, em que pude me dedicar o tempo todo à gestação. Passei os nove meses em Nova York, no meu casulo. Fiz muitas boas escolhas de não querer ver algumas pessoas, pela pandemia e porque eu estava trabalhando também na minha energia. Meu momento. Ainda esperei sete meses para anunciar minha gravidez, porque queria me sentir mais segura. Só cabia a minha família e a amigos mais próximos saberem.

Trazer uma criança ao mundo é uma luz, uma alegria, mas a gente também fica superprotetora. Eu estava vivendo esse momento ainda.

Me exercitei todos os dias, ia para o Central Park, andava de bicicleta, fazia caminhada. Me conectei espiritualmente, e com familiares com quem eu não falava direito há algum tempo porque estava muito ocupada...

Como foi seu parto e o que te surpreendeu até aqui na maternidade?

Foi um parto normal e humanizado, com minha médica, Flavia, que é brasileira e me acompanha há anos. E, no final da gravidez, eu descobri uma doula, a Angela Lessa, que também é brasileira e é maravilhosa. Ela esteve presente no parto da Laura, e fez toda diferença, apesar de saber que nem todo mundo tem oportunidade de ter uma doula.

Entrei no hospital numa quinta-feira, dia de Ação de Graças, e foram 23 horas de trabalho de parto. A bolsa estourou, mas eu tive um parto induzido porque não estava tendo contração naturalmente.

É um renascimento para a mãe também. Para mim, a dilatação demorou, e tive anestesia peridural, e aí tudo fluiu mais rápido. Em outro momento, estava tudo OK, dormi para descansar um pouco e os batimentos dela abaixaram. Entrou uma equipe médica no quarto, que nem filme. Depois tudo ficou bem. E, depois, a Laura não estava pronta na minha bacia para sair, então eu tive que ficar duas horas e meia empurrando, porque ela ainda estava em cima. Isso é muito cansativo para o corpo da mulher. E é uma adrenalina muito grande.

Agora, tem a emoção da amamentação. Uma amiga que teve bebê um mês antes de eu ter a Laura, e para ela foi difícil amamentar. Então, ficava pensando o que aconteceria e até tinha chegado em um consenso comigo mesma de que não teria problema se eu não conseguisse amamentar. Mas, eu consegui, me surpreendi com isso.

Para nada mais bonito do que ela estar vivendo de mim. Tudo que ela tem sou eu. A conexão da criança com a mãe é especial.

Como tem sido o puerpério?

Estou aprendendo algo novo todos os dias. O principal é a paciência, tem sido uma grande descoberta de mãe, porque eu quero que tudo aconteça, quero realizar. E quando se tem filho, para tudo para criança, né? Claro, é um acontecimento. Eu parei tudo, mas estou tentando me reorganizar na minha jornada.

Não tive depressão pós-parto, está sendo muito melhor do que eu imaginava. Estudei muito, li muito para que fosse um momento bom agora, para ter minha saúde, mental e física.

Eu sei que tem muita expectativa em volta do meu trabalho, mas eu estou muito pé no chão. Contando com o apoio muito grande de familiares e amigos. Estou em São Paulo e não teve um minuto em que eu me senti sozinha ou achei que não ia conseguir, estando com meu irmão. Até para dar banho nela eu já me achei, tomo banho e também dou banho junto. Para mim, essa é uma das experiências que nunca vou esquecer, porque talvez se fosse feito de outro jeito, não teria essa conexão com ela.

Você postou uma foto "a la Gisele Bundchen", trabalhando e amamentando. Como tem sido essa retomada profissional?

Eu vim para o Brasil fazer uma campanha. Tive resistência para voltar cedo para o trabalho, queria priorizar o tempo que Laura tem comigo. Mas, tive todo suporte da minha família e do meu marido. Isso me ajudou a realizar o trabalho e estar com ela ao mesmo tempo.

Essa foto é de uma potência muito grande. Eu não acho que as mães, como a minha, tenham que abrir mão de fazer as coisas por causa dos filhos. Tem como conciliar. Mas sei que é difícil quando não tem suporte. Penso que estou em um momento de transição, porque quero continuar vivendo minha profissão, que é muito importante e o que vai educar Laura, mas não quero esquecer quem eu sou.

Não quero perder a essência. Eu não sou só mãe. Sou uma pessoa, e é importante as mulheres entenderem que a vida não acabou, apenas começou.

Por isso, essa retomada está sendo especial. É uma força-tarefa, viu? Não é tão fácil, porque às vezes ela começa a chorar, fica cansada, irritada. Agora, meu irmão tem me acompanhado, revezamos fazendo tudo. E acho que isso é importante, ser uma camaleão na jornada da maternidade, que é individual.

Como foi ser a primeira brasileira a ser palestrante principal no Harvard Lead Conference, que aconteceu em janeiro?

Foi uma surpresa muito grande e fiquei feliz pela oportunidade e porque chegaram até mim por causa da minha história. Foi de uma potência muito grande: eu era a primeira brasileira, latina, a participar desse evento na Harvard, e depois fui premiada por eles. Ainda tiveram vários relatos emocionantes durante a palestra, de pessoas que realmente se identificaram com minha história. Foi um dos momentos mais importantes da minha vida, e mostrou onde a dança tem me levado, a lugares que eu jamais tinha imaginado.

Você conta em entrevistas que no Teatro Municipal do Rio, nas companhias de dança, não enxergava outras pessoas negras. Como isso refletiu na sua vontade de se profissionalizar na dança? E, hoje, você se vê como referência para meninas negras que começam no balé?

No projeto "Dançando para não dançar", onde comecei, eu via pessoas que se pareciam comigo. Quando eu fui para escola de dança do Municipal e para o Centro de Movimento Deborah Colker, foi onde as pessoas não se pareciam. Era outro mundo. Foi de um impacto social muito grande, quando percebi que o ambiente em que eu estava, o balé, não tinha tanta diversidade. Tinha quando eu estava ali com o meu grupo, mas quando eu sai dali, não via tanta.

Isso fez toda diferença para mim. Todos os dias, eu ainda me surpreendo muito com conquistas, com como a minha carreira está indo agora, com oportunidades. Não é que eu pense que não vou tê-las, mas fico pensando como que essas pessoas me acharam, o que acharam de interessante na minha história...

E acho que é de uma responsabilidade muito grande representar outras pessoas que um dia sonharam em ser bailarinos, mães que têm crianças que sonham em ser bailarinos. Isso é muito gratificante.

Ingrid silva - Divulgação - Divulgação
Sapatilhas da cor da pele de Ingrid, pintadas de base, foram para museu nos EUA
Imagem: Divulgação

Suas sapatilhas pintadas da cor de sua pele foram para o Museu Nacional de Arte Africana Smithsonian, nos EUA. Por que é tão importante que essa história esteja registrada e o que ela diz sobre a conquista das pessoas negras no mundo da arte?

É muito importante fazer parte de um museu que conta a história do afro-americano sendo uma brasileira. É mais um lugar que eu talvez não chegaria, mas em que estou representando um Brasil que é tão diverso. E, mais, representando a arte, que muitas vezes não se é valorizada. A minha história é um exemplo: tive que sair do Brasil e fazer sucesso globalmente para ser reconhecida aqui, sendo que muitas pessoas ainda diziam que eu comecei ontem. Não, eu danço há 24 anos, é uma jornada para chegar onde eu cheguei.

Então, para mim, tem sido de uma gratificação grande poder ir ao museu e um dia levar minha filha e falar: "Olha, essa aqui é a sapatilha da mamãe". É algo histórico. Eu pensava que as pessoas que tinham as coisas que faziam parte do acervo do museu já não estavam mais aqui. E eu estou viva, tenho algo que faz parte daquilo, continuo trabalhando e trazendo a visibilidade para a diversidade da dança.

Em 2020, tivemos uma onda antirracista no mundo. Há alguns anos você fala sobre a questão, além de diversidade e pelas mulheres. Como prevê que essas questões serão tratadas nos próximos anos?

Eu habito dois mundos diferentes. Nos Estados Unidos, a gente fez as passeatas de Black Lives Matter, fomos para rua e colocamos a boca no trombone. Algumas coisas mudaram. Depois de um tempo, retornaram à estaca zero. Mas nós mudamos nosso presidente, então é um respiro.

Eu tenho uma filha que nasceu numa nova era. Uma filha que vai ter uma [vice] presidente mulher, negra, sendo uma menina americana, então, isso já é importante. Aí que a gente vê as mudanças.

No Brasil também houve mudanças, mas ainda caminhando muito devagar. O nosso entendimento ainda precisa ser mais bem usado, e infelizmente nem todos têm acesso à educação. São esses detalhes que fazem com que a gente regrida em muita coisa. Criar projetos e falar sobre esses assuntos são passos que podem ajudar, mas tem que comover toda uma nação.

E não adianta eu falar sobre isso e não ter apoio em algumas plataformas, não ter apoio no meu meio, porque senão a gente não vai para frente. Também vai da empatia do próximo. As pessoas entenderem que elas também fazem parte [da pauta racial]. Que afeta o cotidiano da vida delas. Vamos melhorar, mas em passinhos de tartaruga.

Falando de balé, o que te faz falta na rotina e quais são os planos para 2021?

Se eu pudesse, ia direto para o palco. Tenho um tédio de fazer aula todo dia, de ensaiar todo dia... Queria simplesmente chegar, bum, dançar, ir embora para o próximo palco. Estou morrendo de saudade de dançar, inclusive a campanha que vim fazer foi dançando.

Faz muita falta fazer o que eu gosto, interagir com a barra, com o chão, com as dificuldades da dança. E tenho certeza que, quando eu voltar, vou ser uma nova bailarina. Vai ser como se eu tivesse começando a dançar de novo. Imagina, se equilibrar com uma barriga de nove meses e agora a barriga não estar aqui? O corpo está totalmente fora do eixo, e isso vai ser legal, para voltar a ter esse desafio.

Minha licença-maternidade termina em abril. O mundo não tem planos, então também não tem como a gente planejar, porque estamos na pandemia. Nos Estados Unidos, as coisas estão melhorando, as pessoas estão se vacinando de novo, entrando no eixo... Mas, meus planos são me dedicar ao EmpowerNY e ao Blacks in Ballet.

E me dedicar à fase de mãe o quanto eu puder, sem ter que viajar com a companhia. Além disso, costumo brincar que sou meio Zeca Pagodinho, vou deixando a vida me levar, porque quando a gente planeja muito, sempre tem outro retorno.

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