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"Mulher em posto de liderança deve ter sororidade", diz Carol Conway

Carol Conway é cofundadora do WOB - Arquivo pessoal
Carol Conway é cofundadora do WOB Imagem: Arquivo pessoal

Luiza Souto

De Universa

09/03/2021 04h00

Criar iniciativas que promovessem mais diversidade em conselhos de administração das empresas era o desejo da diretora de Assuntos Regulatórios e Institucionais do UOL, Carol Conway, 42, quando, em 2018, ela se uniu a um grupo de mulheres para criar a WOB (Women on Board).

O selo, apoiado pela ONU Mulheres, é dado a empresas que se comprometem a ter mais mulheres em postos de alto comando. Em seu terceiro ano, a iniciativa já reconheceu o esforço de 27 empresas, entre elas Banco Fibra, Oi e Burger King.

Carol conversou com Universa nesta segunda-feira (8), Dia Internacional da Mulher, após participar do Ring the Bell, evento que acontece em várias Bolsas de Valores pelo mundo para conscientizar a sociedade sobre a igualdade de gênero. O ato aconteceu na B3, a Bovespa, em São Paulo, que ganhou seu certificado em dezembro.

"O selo vem para promover uma melhor distributividade nos órgãos máximos de liderança das companhias, e a B3 tem papel fundamental nisso. Quando a Bolsa dá esse exemplo, é uma sinalização bastante importante para o mercado", ela diz.

Leia os principais trechos da conversa.

UNIVERSA: Como surgiu a ideia de criar o Women on Board?

CAROL CONWAY: Nasceu de um desejo muito grande que eu e outras cofundadoras tínhamos em fazer alguma coisa para mudar o mundo, especialmente para igualdade de gênero. Pensamos no que acrescentar de diferente e que ainda não estava sendo feito. E chegamos ao selo de reconhecimento de empresas que têm pelo menos duas mulheres no conselho de administração ou consultivo, que são órgãos máximos em termos de governança. Veio muito no sentido "cara-crachá", para gerar um movimento no sentido de que outras empresas, vendo seus pares e concorrentes, se sintam inspiradas.

Por que é interessante para a empresa ter um board diverso?

Para ter maior aderência ao mundo real. As companhias não fornecem só produtos e serviços para homens ou para um determinado tipo de pessoa, mas para todos. Elas precisam espelhar isso nos seus conselhos. Além disso, acreditamos que quando se tem um conselho diverso, você tem muitos perfis contribuindo nas decisões, e as empresas conseguem inovar e discutir ideias. Elas se tornam um ambiente mais produtivo. de discussão. Acredito nisso como força motriz de inovação, para gerar lucros. Hoje há pesquisas comprovando que a diversidade é lucrativa sob o ponto de vista dos negócios, e é o trabalho que a gente espera fazer, além desse reconhecimento cultural.

Que retorno vocês têm tido das empresas?

O que percebemos é que o WOB gerou bastantes discussões sobre o porquê de não se ter um ambiente mais diverso. Tem empresa que já tem WOB e o feedback que a gente tem recebido é: "que bom que alguém está colocando isso aqui na pauta", porque não dá para negar que as empresas têm uma história de poucas mulheres nos seus conselhos. O trabalho de longo prazo tem sido gratificante.

Existe um serviço de consultoria atrelado à concessão do selo?

Não, mas dialogamos com essa empresa sobre onde obter ajuda. Temos grupos de mulheres conselheiras organizadas e estimulamos a divulgar e procurar mulheres conselheiras. Cada vez tem mais mulheres se candidatando.

Qual a maior dificuldade a mulher tem para chegar aos cargos mais altos nas empresas?

No meu ponto de vista, acho que as mulheres se qualificam muito, mas muitas ficam tímidas em demonstrar seu trabalho e se posicionar, se candidatar para um cargo. Há trabalho interno, elas estão se empoderando. E as que chegaram lá têm um papel muito importante de mentoria. Esse movimento de mostrar que igualdade de gênero é algo muito importante para a empresa numa agenda de correção de um passado histórico vem ajudando. É uma questão das mulheres buscarem seus espaços, e se eles não forem criados, reivindicarem.

Para quem é chefe, como tornar o ambiente mais interessante para as mulheres?

Falando no meu caso, sempre tento levar para a minha equipe a importância do trabalho do WOB. Quando a gente está numa posição de liderança, é preciso que haja sororidade e que as pessoas se empoderem num ambiente onde tem homens, mulheres, pessoas trans, gays. O mais importante, para mim, é que as pessoas olhem para além do gênero, que olhem do ponto de vista de igualdade. Ter essa abertura é fundamental.

Qual o pulo do gato para as empresas abrirem mais espaços para as mulheres?

O primeiro pulo do gato que destacaria é o que mais acredito: alcançar o WOB. Quando a empresa mostra que tem o selo, todo mundo que está olhando se sente inspirado. Outra coisa muito importante é ter o trabalho de mentoria dentro da empresa, alguém com quem você pode conversar e dialogar. E tem também a mentoria reversa, que é ouvir de quem está lá embaixo o que ela pensa da empresa, da liderança, sua expectativa. Essa nova geração vem mais empoderada, numa visão mais horizontal.

E para a mulher que quer chegar no posto mais alto, o que você recomenda?

De novo: acho a mentoria fundamental. Contar com conselheiras que se dispõem a ter uma troca individual, alguém que vai te acompanhar na carreira.

Para você chegar ao cargo que ocupa hoje, enfrentou preconceitos?

Tive episódios, muito lá atrás, em que a mulher não podia fazer serviço interno de escritório de advocacia, e outros que me fizeram trabalhar muito mais. Esses, com certeza, me motivam a tornar os caminhos das novas gerações muito mais fluidos do que o meu foi. Tive alguns aprendizados, principalmente no início da carreira, que me motivaram ainda mais a chegar lá. Tem muita coisa pra percorrer. E tive mulheres que me ajudaram muito também. Trabalho no UOL há bastante tempo e aqui foi importante ter uma liderança inspiradora, e a felicidade de dialogar e entender a neutralidade.

Qual sua opinião sobre política de cotas e a meritocracia?

A meritocracia parte de um ponto onde todo mundo é igual. Aqui a gente está no estágio anterior, a gente está buscando a igualdade. E para isso tem que pinçar todo mundo, puxar e empoderar. Hoje não existe a igualdade. A questão de cotas é super ampla. No nosso caso, no WOB, a gente optou por olhar o que se pode fazer para o próprio mercado se adaptar. Se uma empresa de um setor A, um banco, tem o WOB, outro banco vai quer o selo. Então optamos por trabalhar com o próprio mercado, de forma voluntária. Ninguém é obrigado. É de graça, e se a empresa não estiver cumprindo o que foi proposto, ele será removido, sem pena ou multa. Esse movimento só tem crescido.

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