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"Também somos da linha de frente", diz professora que concorre a prêmio

A professora de matemática e diretora da Etec Pirituba Eliane Leite concorre ao prêmio Mulheres Transformadoras, na categoria Educadora do Ano - Divulgação/Equipe Thiago Hernandez
A professora de matemática e diretora da Etec Pirituba Eliane Leite concorre ao prêmio Mulheres Transformadoras, na categoria Educadora do Ano Imagem: Divulgação/Equipe Thiago Hernandez

Luiza Souto

De Universa

03/03/2021 04h00

Quando a professora de matemática Eliane Leite era criança, ela e a irmã gêmea, apoiavam-se uma na outra para ignorar os racismos que sofriam na escola. Ao tornar-se diretora da Etec (Escola Técnica Estadual) de Pirituba (zona norte de São Paulo) e perceber olhares estranhos, como se o lugar dela não pudesse ser aquele, Eliane convidou palestrantes para falar sobre igualdade racial e de gênero.

A iniciativa lhe rendeu uma indicação ao prêmio Mulheres Transformadoras, na categoria Educadora do Ano, promovido pela XP. O resultado da votação, que foi aberta ao público, será anunciado nesta quarta-feira (3).

"A escola, às vezes, pode ser muito cruel, porque ela reforça o comportamento racista da sociedade. Você nunca vai ser a escolhida para alguma coisa. Se tiver uma festa junina, a criança negra vai ser a última a ter um par", explica ela, líder dos Comitês de Educação e de Igualdade Racial do grupo Mulheres do Brasil e co-autora do livro "Mulheres que Empreendem e Transformam".

Já contemplada com o prêmio Mulher Negra Latina Americana Caribenha 2018, Eliane teve em casa dois fortes aliados nessa trajetória: o pai, Antônio Leite, um mineiro que "abria rua" em São Paulo, mas fez Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização), supletivo e chegou na faculdade de ciências sociais, além de ter sido um dos fundadores do Movimento Negro Unificado. A mãe, a dona de casa Iracema Amorim Leite, juntava ambas as avós das três filhas para contar histórias sobre ancestralidade enquanto faziam bolo ou criavam suas próprias bonecas.

"A força que eles deram acabou colaborando para que eu tivesse uma juventude mais saudável", indica.

"A gente tem que provar que é boa duas vezes"

Formada em matemática pela PUC-SP, Eliane chegou à direção da Etec de Pirituba, administrada pelo Centro Paula Souza, do governo do estado, em 2014. Até aquela época, a unidade era comandada por homens, e tem até hoje no seu corpo discente e docente maioria masculina, com foco no curso de eletrônica.

"A gente tem que provar que é boa duas vezes, e eu, como mulher e negra, ainda mais. Sempre tem um 'senão'. Há coisas que não são expressadas diretamente, mas já cheguei sentindo olhares diferentes."

Ao perceber comentários preconceituosos, inclusive entre os alunos, resolveu abrir uma agenda de debates com a participação de nomes que são referência em diversas áreas, como a astronauta americana Anna Fisher, que participou de missões espaciais da Nasa e esteve no Brasil em 2019, a convite da Embaixada dos Estados Unidos, a jornalista e apresentadora da Globonews Aline Midlej, CEOs das empresas Bayer, Yoki e Blue Tree, além de representantes dos projetos Pensa Grande, da Fundação Telefônica, StartUp in School, do Google, e Leadership, voltado ao desenvolvimento de lideranças.

Levou ainda o "Plano de Menina", projeto da jornalista e empreendedora Viviane Duarte, que conecta esse público a conteúdos diversos, inclusive de forma online.

"Era importante mostrar para as meninas que elas podem chegar onde quiserem, e também fazer os meninos entenderem a responsabilidade deles nesse processo todo. Se não conversarmos com os homens, a gente não muda."

E parece estar gerando impacto.

"Fora isso, já levei um grupo de cinco alunas e apenas dois homens para uma olimpíada de matemática na Índia. Fomos para a Colômbia numa competição de ciências só de meninas", conta Eliane, que é ainda palestrante e fundadora da consultoria Uzoma Diversidade, Educação e Cultura, especializada em implementar políticas de equidade em empresas.

Na pandemia, ação buscou evitar evasão escolar

Além da saudade de dar aulas, o que não acontece há seis anos, Eliane hoje apoia-se na família e nos amigos que construiu dentro da escola para amenizar a falta que faz o contato com os alunos, já que há um ano escolas do país vêm promovendo cursos online para evitar o avanço da pandemia provocada pela covid-19.

Por causa desse cenário, atrelado à dificuldade de acesso à internet que muitos estudantes de baixa renda têm, alguns alunos desistiram da escola no meio do caminho. Eliane conta que criou uma força-tarefa dos professores para ligar para cada um dos alunos, para que eles não desistissem. Dos 440 estudantes, apenas uma não voltou.

"Quando a gente vê jovens sem acesso à nada, estamos perdendo talentos. O governo precisa fazer políticas públicas para que haja acesso, e a gente precisa trazer de volta essa geração", afirma. "Os educadores estão num momento desafiador, fazendo seu trabalho para que os jovens não percam as esperanças. E isso vai além do conteúdo. Temos que falar para eles que a educação vale a pena, e considero até que essa premiação vem para homenagear esses profissionais, que também estão na linha de frente."

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