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Jovem de 17 anos cria projeto para doar absorventes a mulheres pobres

 Luana Escamilla criou o projeto "Fluxo Sem Tabu", - Arquivo pessoal
Luana Escamilla criou o projeto "Fluxo Sem Tabu", Imagem: Arquivo pessoal

Giulia Granchi

Colaboração para Universa

07/02/2021 04h00

22% das meninas de 12 a 14 anos no Brasil não têm acesso a produtos de higiene adequados durante o período menstrual. A porcentagem sobe para 26% entre as adolescentes de 15 a 17 anos, de acordo com uma pesquisa da marca de absorventes Sempre Livre feita em 2018.

Foi pensando nisso, que a estudante de ensino médio Luana Escamilla, de 17 anos, teve a ideia de criar o "Fluxo Sem Tabu", um projeto cujo objetivo é fornecer absorventes para centenas de brasileiras que estão em vulnerabilidade social.

"A ideia surgiu depois de assistir ao documentário "Absorvendo o Tabu", que fala sobre um grupo de mulheres na Índia que não possuíam acesso a produtos de higiene. Quando conseguem a doação de uma máquina, elas criam uma pequena fábrica de absorventes feitos com matéria-prima local biodegradável e popularizam o uso entre mulheres da região", conta Luana.

A jovem então criou um perfil Instagram e um site que administra completamente sozinha, exceto pela ajuda de uma designer para produzir artes para as redes sociais. Em parceria com as instituições ABCD Nossa Casa, Casa Hope e Instituto C., Luana tem como meta arrecadar por meio de uma vaquinha, em um primeiro momento, absorventes para atender a 700 pessoas por dois meses.

"Aprendi muito com todo o processo e pretendo aumentar a meta depois, para fornecermos mês a mês. Os números foram baseados em um levantamento de adolescentes e mães [das crianças beneficiadas pelas ONGS] em idade fértil", diz.

"Como não tinha absorventes, usava panos velhos"

O projeto poderá ajudar milhares de meninas com histórias similares as de Maria Clara Souza. Natural de Água Doce, município no Maranhão com cerca de 12 mil habitantes, Maria Clara viveu em uma região rural com seus cinco irmãos — duas meninas e três meninos — até os 18 anos. Com pouco dinheiro para as necessidades da família e em uma região definida por ela como "onde a menstruação é definitivamente um tabu", o acesso a absorventes era muito raro.

Maria Clara Souza com 17 anos em sua cidade natal, Água Doce - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Quando a primeira menstruação chegou para Maria Clara, aos 11 anos, ela sentiu que vivia um pesadelo. Sem saber exatamente por que tanto sangue manchava suas roupas, já que ninguém havia explicado a ela o evento natural que ocorre com todas as pessoas com vagina durante a vida fértil, sua primeira reação foi esconder-se da família.

"Foi assim que aprendi, já que minha mãe sempre escondeu de nós. Eu e meus irmãos chegamos a ver calcinhas e panos manchados, mas quando perguntávamos, ela falava que tinha se cortado, arrancado uma unha, tinha tirado um pelo... Nunca disse que isso também aconteceria comigo", lembra.

"Na maioria das vezes, usava panos velhos, retalhos de blusinhas rasgadas, para conter o sangue. Depois, pela vergonha, enterrava-os no quintal. Quando finalmente conseguia um absorvente, usava até o limite - o que geralmente me causava assaduras", conta.

Hoje com 27, estudando para ser enfermeira em Crato, no Ceará, a maranhense sonha em voltar à Água Doce e compartilhar conhecimento com jovens da região. "Não só sobre a menstruação, mas outras coisas que aprendi no curso de enfermagem, como por exemplo, métodos para evitar ISTs (infecções sexualmente transmissíveis) ", diz.

Mais informações para desmistificar

Além da arrecadação financeira, Luana busca compartilhar informações e usar os canais criados por ela para divulgar a ideia de que a menstruação é algo completamente natural.

"O tabu alimenta a pobreza menstrual. Acredito que a educação sobre o tema seja uma forma de combater isso", afirma.

Por que absorventes descartáveis e não coletores menstruais?

De acordo com um levantamento realizado pela ONG Trata Brasil, 1,6 milhões de brasileiros não têm banheiro em casa, 15 milhões não recebem água tratada e 26,9 milhões moram em lugares sem esgoto.

"Sabendo que alguns não têm nem acesso a condições ideais de saneamento, sabemos que muitas pessoas que vamos atender não conseguem fazer a higienização adequada de coletores menstruais e calcinhas absorventes", explica Luana.

Sem a higiene correta, coletores menstruais e absorventes internos, os "OBs", podem ser extremamente perigosos para a saúde. "Se os produtos ficam no corpo por muito tempo, tornam-se um meio excelente de cultura para bactérias, o que pode causar infecções ginecológicas e até a progressão do quadro da vagina para o útero, trompas e cavidade abdominal, aumentando a gravidade do problema. O uso recomendado máximo é entre seis a oito horas, dependendo do fluxo. Depois, deve-se fazer a troca ou a lavagem com cuidado", explica Ilza Monteiro, ginecologista e professora da UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas).

Embora geralmente não resultem em infecções tão graves quanto as causadas por acessórios internos, o uso dos absorventes comuns ou panos por muito tempo também oferecem riscos. "Esses hábitos podem mudar o PH da vagina, alternando a temperatura e aumentando a umidade local. É possível que as pessoas desenvolvam quadros como vaginite inflamatória e vaginose bacteriana", indica Monteiro.

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