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Pais têm confirmação de que filha foi dopada e estuprada antes de morrer

Milena morreu em setembro, mas pais só tiveram certeza das causas após laudos - Arquivo Pessoal
Milena morreu em setembro, mas pais só tiveram certeza das causas após laudos Imagem: Arquivo Pessoal

Hygino Vasconcellos

Colaboração para o UOL, em Chapecó (SC)

28/01/2021 17h20

Uma família recebeu no começo deste ano a confirmação que faltava para um crime que ocorreu em 20 de setembro: a adolescente Milena Eduarda Deckert Schreiber, 15 anos, morreu após ser dopada e estuprada durante uma confraternização em Ijuí (RS), a 321 km de Porto Alegre.

Os parentes da garota já desconfiavam do que tinha acontecido, mas preferiram manter silêncio "para não cometer injustiça", como explicou a Universa o pai dela, Cristiano Schreiber, 42 anos.

"A gente não tinha como provar, não tínhamos todos os laudos. Não foi fácil, tivemos que ficar quatro meses sem abrir a boca. A gente até queria esperar o exame de DNA, mas não tinha mais como segurar", observa.

No começo do mês, a polícia concluiu o inquérito e confirmou a causa da morte e a possível autoria: um adolescente de 17 anos.

A reportagem procurou a Polícia Civil e o Ministério Público, que informaram que não iriam se manifestar. Já o advogado do adolescente disse que "demonstrará a inocência" do rapaz.

No dia do crime, Milena foi com a irmã de 13 anos a uma confraternização na casa do patrão de um piquete, como é chamada uma entidade tradicionalista gaúcha. Chegaram por volta das 10h30, levadas pela mãe, Márcia Cristiane Deckert Schreiber, 39, que não permaneceu no local devido a uma crise de rinite.

O combinado era que elas permanecessem até as 14h30 no local, mas quando Márcia estava se preparando para buscá-las, recebeu uma ligação da filha mais nova, avisando que Milena estava a caminho do hospital.

"Quando eu dei entrada no hospital, às 14h55, ela já estava em óbito", conta Márcia para Universa.

Vendo a comoção, o médico decidiu poupá-la dos detalhes. Passado o funeral, uma parente decidiu contar o que já era um burburinho na cidade de pouco mais de 83 mil habitantes.

"Para mim, ela morreu duas vezes. Uma vez quando o doutor disse que ela tinha sofrido uma parada cardíaca e outra quando minha cunhada falou a verdade. Naquela hora, parece que ela morreu de novo. Minha filha morreu de uma forma horrível, não tem explicação. Ela era uma menina cheia de saúde, cheia de vida, tinha uma vida inteira pela frente, com sonhos enormes", lamenta a mãe.

Mas o pai da garota soube antes, ainda a caminho do hospital. "Nesse meio tempo eu consegui falar com minha filha mais nova. Ela disse que a Milena estava com uma hemorragia, estava sangrando muito, como se estivesse menstruada. Ali eu já desconfiei."

Schreiber conta que antes de liberar o corpo, o perito já adiantou para ele que havia ocorrido violência sexual e que ela poderia ter sido dopada, já que não havia marcas de luta corporal e estava "com semblante de quem estava dormindo".

Segundo o advogado da família, Humberto Meister, foi comprovado o "rompimento do hímen" e "grave laceração do canal vaginal, o que causou rompimento de vasos, o que levou a grave hemorragia". Em dezembro, a família recebeu a confirmação de que Milena havia sido dopada com duas substâncias diferentes, uma sedativa e outra anestésica.

"Eu tive acesso rápido ao inquérito, não me deixaram fazer cópias, mas o que se pode compreender é que foi usado um medicamento como o (calmante) Diazepam, além de um sedativo", explica o advogado.

Ainda segundo Meister, o adolescente confirmou o ato sexual que, segundo ele, teria sido consentido. O garoto segue solto e, caso seja internado, cumprirá pena de no máximo três anos, com possibilidade de ser reduzida.

À reportagem, o pai disse que teve acesso ao depoimento da dona da casa onde ocorreu a confraternização. No relato, a mulher relatou que percebeu quando Milena começou a sentir mal, ao reclamar de "ardência nos olhos". Em seguida, ajudou a colocá-la em um colchão em um quarto, onde outras participantes do piquete tinham dormido. "Isso só é sintoma de doping", entende o pai.

A irmã mais nova estava andando a cavalo em frente à propriedade e não presenciou quando Milena começou a passar mal, conforme o advogado da família. Além da mulher, outras pessoas ouvidas pela polícia não relataram nada atípico. Só relataram quando o adolescente foi correndo atrás de seu pai.

Atleta, do campo e querida, diz pai

A família mora em uma propriedade há 20 minutos do centro da cidade. E, diferente de muitos jovens, Milena pretendia seguir a vida no campo. Segundo o pai, já havia aprendido a colheitadeira e estava fazendo técnico agrícola na cidade vizinha de Catuípe, junto com o ensino médio.

Milena, do campo - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Jovem pretendia seguir no campo e estudar agronomia
Imagem: Arquivo Pessoal

"Ela queria fazer agronomia para tocar a propriedade", conta Schreiber.

Além da lida no campo, a garota também gostava de esportes. Nas paredes do quarto dela há diversas medalhas de competições das quais tinha participado, principalmente dos Jergs (Jogos Escolares do Rio Grande do Sul).

"No começo ela podia se meter, ela ia. Era handebol, corrida", conta o pai.

A jovem tocava três instrumentos — violão, violino e flauta doce — e era líder de jovens na igreja. "Isso tudo foi arrancado de nós. Quero que alguém dê resposta, o ECA (Estatuto da Defesa da Criança e do Adolescente) é uma piada. O agressor é protegido, não pode ter nome divulgado. Mas e para a vítima? Cadê a proteção", revolta-se o pai, que promete cobrar mudanças na legislação de políticos.

"Este ano foi nosso primeiro Natal, Ano Novo sem a Milena. No dia 17 de janeiro, ela iria completar 16 anos. A gente decidiu ir até o cemitério e deixar um presente para ela: um buquê de flores."

Contrapontos

Procurado por Universa, o Ministério Público informou que não iria se manifestar pois a investigação está em segredo de justiça. O delegado Amilcar Neto, responsável pela investigação, também não quis se pronunciar pelos mesmos motivos.

Já o advogado Guilherme Kuhn, que defende o adolescente, encaminhou uma nota à reportagem. Primeiro, o advogado começa criticando o movimento #JustiçaporMilena.

"Neste movimento, pretende-se, de um lado, apresentar às pessoas quem era Milena e, de outro lado, criar uma atmosfera de pressão social com a clara finalidade de obter uma resposta 'imediata' da justiça. Almeja-se uma punição sem processo, uma punição sem garantia de prévia defesa. Algumas pessoas pedem a 'prisão' imediata dos 'monstros'; outras pedem pena de morte; outras, prudentemente, clamam por justiça", disse.

Em seguida, observa que precisa fazer esclarecimentos. Entre eles, salienta que tem "profundo respeito pela família de Milena" e que não é o primeiro caso de repercussão nacional que atua. Na sequência reclama da "espetacularização da imprensa".

"E, sinceramente, tenho muito receio quando uma investigação ou um processo toma o rumo midiático, o rumo da espetacularização. Já disse, em outras ocasiões, valendo-me das palavras valiosas de Elias Mattar Assad, que o apelo midiático nada mais é do que uma tendência de Pilatos, segundo a qual, 'onde e quando o povo aplaude, tudo pode'."

O advogado cita dois casos regionais de "repercussão midiática" que, segundo ele, provaram "justamente o oposto, isto é, a inocência do suspeito". E observa que o adolescente "esteve e sempre estará" à disposição da polícia e da Justiça.

Além disso, destaca que a versão da defesa ocorrerá em "espaço próprio, no momento adequado, em respeito às pessoas envolvidas no caso" e que serão apresentadas "inúmeras provas e elementos" para esclarecer os fatos e obter "resultado justo ao final". Por fim, salienta que a defesa "demonstrará a inocência" do adolescente.