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Direitos da mulher

Programa espacial ajuda a reduzir desigualdade de gênero no Quirguistão

Iniciativa impacta a autoestima das garotas e até jovens de fora do programa espacial a repensarem seus papéis na sociedade - Kloop media/Kyrgyz Space Program
Iniciativa impacta a autoestima das garotas e até jovens de fora do programa espacial a repensarem seus papéis na sociedade Imagem: Kloop media/Kyrgyz Space Program

Breno Damascena

Colaboração para Universa

02/01/2021 04h00

Um grupo de jovens mulheres do Quirguistão, país do continente asiático, está trabalhando para construir e lançar o primeiro satélite de sua história. O projeto é a primeira incursão do Quirguistão no espaço, desde que o país conquistou se tornou independente da União Soviética, em 1991. Com pouquíssima ou sem nenhuma experiência, as meninas precisam aprender tudo do zero. "Usamos livros, Youtube, Google e, às vezes, especialistas de outros países, que nos ajudam por meio de webinars", explica Kyzzhibek Batyrkanova, diretora do programa.

Ainda que nos últimos anos o país tenha evoluído em questões como a inserção de mulheres em cargos políticos e no mercado de trabalho, a população ainda enfrenta problemas sociais relacionados à violência de gênero. No Brasil, que ostenta números assustadores de violência contra a mulher e casos de feminicídios, não parece tão chocante o fato de que 13% das meninas do país asiático se casem antes dos 18 anos e cerca de 12 mil são sequestradas e forçadas a se casar com o próprio sequestrador todos os anos, de acordo com ONGs locais.

É neste ambiente que oito jovens com idade entre 18 e 25 anos estão se tornando exemplo para que outras garotas saibam que é possível ir além das probabilidades. "Em nossa cultura, estereótipos são muito explorados. Garotas são criadas para serem donas de casa e qualquer caminho além desse é desaprovado", diz Aidana Aidarbekova, integrante da iniciativa, em entrevista a Universa.

"É uma grande missão. Uma luta contra a discriminação e contra a violência que as mulheres sofrem", completa Kyzzhibek.

A iniciativa pretende lançar um CubeSat - um cubo tipo de satélite pequeno - com cerca de 1 kg e 10cm² que normalmente é usado para pesquisas espaciais e comunicação com a órbita terrestre. Na prática, ele deve receber informações sobre o ambiente em volta e enviar os dados captados para o grupo. Porém, apesar do tamanho do satélite, o plano das jovens é muito mais ambicioso: superar a desigualdade e descriminação de gênero.

Iniciativa impacta a autoestima das garotas e até jovens de fora do programa espacial a repensarem seus papéis na sociedade - Kloop media/Kyrgyz Space Program - Kloop media/Kyrgyz Space Program
Imagem: Kloop media/Kyrgyz Space Program

"As meninas que participam do projeto são, agora, todas feministas. A nossa iniciativa impacta a auto-estima das garotas e até as jovens de fora do programa espacial reimaginam seus papéis na sociedade", justifica Batyrkanova. Lançado pela Kloop Media Foundation, um veículo de comunicação, o programa não conta com apoio governamental. Toda a verba necessária para a iniciativa continuar de pé vem de uma vaquinha virtual.

Atualmente, elas recebem cerca de 1.200 dólares por mês, por meio de doações de ONGs e da plataforma online Patreon. No entanto, essa contribuição se tornou insuficiente neste momento, em que o covid provocou um abalo no projeto. A iniciativa precisa de aproximadamente 250 mil dólares - no total- para manter o programa espacial de pé até o lançamento, previsto para 2021.

"Não podemos chamar nosso país de um país científico. Apesar disso, nossas garotas são como titans. Estão envolvidas no projeto e se entregando. Mas falta dinheiro é isso é um problema" lamenta Batyrkanova. "Todas têm dúvidas e medos com essa incerteza, mas vamos insistir", afirma a jovem. "Queremos, um dia, levar o projeto a uma universidade, para que ele possa ser mantido e expandido sem precisar de novas vaquinhas. Que se torne mais sustentável e continue inspirando as mulheres daqui", complementa.

Mais importante que os avanços tecnológicos, Aidarbekova acredita que o programa espacial tem um poder mais significativo do que criar um legado. "Quando estava na escola, os caras tinham mais oportunidades simplesmente porque eram homens. Fui questionada do porquê estava estudando se, no fim, eu iria me tornar apenas uma dona de casa. Aquilo me impactava", relembra. Desta forma, embora o lançamento ainda pareça distante, essas jovens caminham para alcançar o primeiro e mais importante objetivo: serem modelos para toda uma geração de meninas e mulheres do Quirguistão.

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