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Ceia para um: 5 mulheres contam as preparações para passar o Natal sozinhas

Em 2020, elas não participarão de reuniões com a família - Acervo pessoal
Em 2020, elas não participarão de reuniões com a família Imagem: Acervo pessoal

Ana Bardella

De Universa

24/12/2020 04h00

Apesar de ser uma data que remete à celebração e reunião em família, para muitos o Natal de 2020 acontecerá de forma atípica. Seja pela impossibilidade de se encontrar com parentes e amigos ou pela perda de entes queridos, há quem esteja preparando uma versão reduzida da celebração — e até quem vá passar a data sem companhia.

A seguir, cinco mulheres relatam como estão se organizando para passarem a meia-noite do dia 25 sozinhas:

"Comprei pratos e taças novas"

"Estou solteira e moro sozinha há seis anos, desde que minha mãe se separou do meu padrasto. Como tinha muitos conflitos de convivência com ela, que é narcisista, achei que não seria saudável se continuássemos só nós duas na mesma casa, então me mudei. Hoje tenho essas questões bem resolvidas: leio muito sobre psicologia e gosto de investir em autoconhecimento.

Mari escolheu o menu da ceia que pretende preparar - Acervo pessoal - Acervo pessoal
Mari escolheu o menu da ceia que pretende preparar
Imagem: Acervo pessoal

Antes, quando vivíamos juntos, não tínhamos o costume de fazer algo especial na noite do Natal. Então, estava acostumada a passar a data em outras casas, acompanhada de amigos ou de outras partes da família. Nos últimos anos, passei com a minha tia, que agora vive no Paraná. Em 2020, porém, não será possível ir para lá, porque os casos de coronavírus no estado aumentaram muito. Fui convidada para a casa de dois amigos, mas diante de tudo o que estamos vivendo, achei que não seria o momento.

Desde que decidi passar sozinha, tenho pensado sobre como será minha noite. Não posso decorar demais a casa, porque tenho três gatos e eles são muito arteiros: adorariam brincar com luzes ou bolas de Natal. Mas adoro preparar a mesa: já comprei taças e pratos novos. Ainda não decidi o menu, mas estou pensando em preparar um peixe. Comprei um vinho e pretendo passar a meia-noite tranquila ao lado dos meus gatos, ouvindo música.

Até pouco tempo, não gostava do mês de dezembro, mas neste ano, mesmo com todas as adversidades, sinto que consegui ser produtiva profissionalmente e atingir minhas metas. Acho que o Natal é uma data especial por reunir as pessoas, mas, como não será possível fazer isso, decidi ressignificá-lo e estou feliz com isso."

Marina Rubia Bovolin Silva, 35 anos, consultora de carreira, de São Paulo

"Perdi minha mãe, mas faço questão de ter um Natal iluminado"

"Desde 2008 meus finais de ano não são os mesmos: naquela época, eu estava casada, fazendo tratamento para engravidar. Mas em dezembro, minha irmã, que me apoiava em tudo, foi internada com suspeita de meningite. Poucos dias depois descobriram que a suspeita estava errada: na verdade ela tinha uma condição genética rara, teve quatro aneurismas e faleceu na véspera do Natal. Meu casamento, que já estava em crise, acabou de vez em poucos meses.

Cacau perdeu a mãe e passará a data sozinha pela primeira vez - Acervo pessoal - Acervo pessoal
Cacau perdeu a mãe e passará a data sozinha pela primeira vez
Imagem: Acervo pessoal

De lá para cá, tive outro relacionamento, mas ele acabou no ano passado. Foi um término doloroso. Por causa disso, no último Natal, ficamos somente eu e a minha mãe juntas: nossa relação sempre foi muito boa. Consegui comprar um apartamento e estava preparando um quarto para que ela viesse morar comigo.

Nossos planos mudaram quando a pandemia chegou. Ainda não sabíamos muito sobre a doença quando minha mãe começou a passar muito mal. Nem desconfiava que ela poderia ser uma vítima. Quando a levei para o hospital, no entanto, o diagnóstico veio muito rápido. Ela foi imediatamente entubada em decorrência da covid e eu nunca mais a vi. Ela faleceu às vésperas de completar 80 anos.

Tive que desmanchar seu quarto, porque era uma dor insuportável para mim passar por lá. Estou fazendo terapia para lidar com isso, mas confesso que não é fácil. Neste ano, no Natal, seremos apenas eu e os gatos.

Mas me lembro sempre de um conselho da minha mãe: o de que estamos no mundo para sermos felizes, mesmo que sejam pequenos pedaços de felicidade.

Então decidi que iluminaria meu Natal e decorei um canto da casa. Se iluminarmos nossas casas, quem sabe um pouquinho de esperança não vai para o mundo? A minha decoração é, na verdade, um desejo para todos que estão como eu. Para que este seja o último Natal sozinha e para que o ano que vem seja um ano melhor. Quando a meia-noite estiver se aproximando, vou fazer uma pequena ceia, arrumar a mesa, jantar, fazer uma oração e mandar meus pensamentos positivos para minha mãe. Tudo que eu quero, neste Natal, é emanar amor."

Claudiana Pimentel, 43 anos, professora, de São Paulo

"Estou focada no nascimento da minha filha"

"Engravidei no começo da pandemia, uma gestação não planejada. Os primeiros quatro meses foram os mais difíceis: tive muito enjoo, noites em claro, variações de humor. Minha relação não resistiu e acabamos nos separando.

Mayara está ansiosa pela chegada da filha - Acervo pessoal - Acervo pessoal
Mayara está ansiosa pela chegada da filha
Imagem: Acervo pessoal

Minha mãe mora em outra cidade e nós não temos contato. Por isso, hoje minha rede de apoio são meus amigos: fazemos muitas videochamadas e nos encontramos em poucas ocasiões, seguindo todos os cuidados. Como a data prevista para o parto é entre o Natal e Ano Novo, confesso que não consegui pensar nos detalhes das comemorações.

Troquei a decoração e a ceia pela arrumação das coisas da minha filha, para assegurar que ela tenha todo o conforto e segurança. Longe dos meus amigos, tinha tudo para ser uma data triste, mas não me sinto assim nem por um segundo. Vou ganhar o maior presente de todos e preciso estar preparada para cuidar e me dedicar a ele de todo o coração.

Não nego que gostaria de estar com a mesa posta, ao lado de uma família. Mas penso que a partir deste ano não será apenas o Natal, mas também o aniversário da minha Olívia. E que teremos muitos outros anos para curtirmos essas datas juntas."

Mayara Souza, 29 anos, designer gráfica, de Curitiba

"Foi uma decisão totalmente racional"

Eu sou do Pará, mas vim morar em São Paulo sozinha há dois meses para trabalhar — e deixei minha família toda lá. A decisão de passar o Natal sozinha foi bastante racional: primeiro porque os casos de covid estão aumentando no meu estado e não acho que agora seja o melhor momento para viajar. Segundo porque, financeiramente, não compensava. As passagens estavam muito caras.

Emmanuely pretende fazer uma chamada de vídeo com a família - Acervo pessoal - Acervo pessoal
Emmanuely pretende fazer uma chamada de vídeo com a família
Imagem: Acervo pessoal

Ninguém gostou muito da novidade: minha afilhada, que é criança, estava à minha espera. Mas a família é grande e tenho certeza de que a festa será animada. No dia, pretendo fazer uma videochamada com eles. Estou lidando com o assunto de forma tranquila, bem resolvida. Não acho que este seja um ano para grandes comemorações. Mas sou grata, é claro, por estar viva e com saúde.

Presenteei os profissionais da limpeza do meu trabalho, os porteiros do prédio e os funcionários do salão que eu frequento. Não tive tempo de fazer grandes decorações no meu apartamento recém-alugado, mas minha ideia é economizar o máximo que puder para poder viajar no ano que vem. Tenho certeza de que não faltarão oportunidades para reencontrar minha família."

Emmanuely Valente, 24 anos, bancária, de São Paulo

"Vou fazer uma oração"

"Sou apaixonada pelo Natal. Minha família nunca foi unida e nem tinha o costume de celebrar a data, então, logo que casei, um dos primeiros itens que comprei para a nossa casa foi uma árvore natalina. Brinco que a minha casa, nesta época do ano, fica parecendo uma escola de samba: penduro luzes em todos os lugares e faço questão de decorar cada canto.

Desde que o filho nasceu, Natasha passa a data ao lado dele. Neste ano, será diferente - Acervo pessoal - Acervo pessoal
Desde que o filho nasceu, Natasha passa a data ao lado dele. Neste ano, será diferente
Imagem: Acervo pessoal

Há quatro anos, me tornei mãe e, logo em seguida, o meu relacionamento acabou. Mas tenho uma relação boa com meu ex-marido. Ele tem uma profissão que exige muito e, por causa disso, passa menos tempo com nosso filho do que gostaria. Neste ano, pediu para passar a data ao lado dele — só os dois, por causa da pandemia — e deixei. O Thor é apaixonado pelo pai e tudo o que faz bem para ele faz para mim também.

Por causa disso, vou passar a data sozinha. Mas estaria mentindo se não admitisse uma certa tristeza. Sou apegada a meu filho e gostaria que pudéssemos passar juntos. Como não será possível, decidi que vou aproveitar os dias para fazer uma faxina muito caprichada na casa e o menu será um cento de salgadinhos com refrigerante. Vou comemorar no sofá.

Também pretendo fazer uma oração e me conectar com o mundo espiritual. Isso, para mim, é muito importante. Não foi o melhor dos anos. Acho que todos estão sentindo algo parecido. Mas, no meu caso, foi um período de aprendizado, reflexão e crescimento, como mulher e mãe."

Natasha, 27 anos, técnica em administração, do Rio de Janeiro

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