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Minha história

"Alisada desde a infância, recuperei a autoestima junto com os meus cachos"

Rafaela Oricchio: "Me libertar do alisado me livrou de tentar agradar todo mundo"  - Arquivo pessoal
Rafaela Oricchio: "Me libertar do alisado me livrou de tentar agradar todo mundo" Imagem: Arquivo pessoal

Rafaela Oricchio em depoimento a Karina Hollo

Colaboração para Universa

16/12/2020 04h00

"Meu cabelo nasceu liso espetado e, já no primeiro banho, cacheou. Na minha casa, nenhuma mulher tinha cabelo cacheado como o meu. Só meu pai. Então, ninguém sabia cuidar. Penteavam ele bem grudado na cabeça e prendiam.

Fui crescendo e, com quatro anos, fui morar com a minha avó -que tinha cabelo igual ao de um bebê. Quando ela ia me pentear para a escola, eu chorava e ela me deixava ir despenteada mesmo. Meu pai e minha madrasta da época não gostavam muito e faziam escova em mim. Eu tinha uns cinco anos e um pavor de secador que dura até hoje.

Eu não podia brincar muito nas festinhas porque suava e estragava a escova que tinham feito. Eu não me sentia muito bem daquele jeito, mas fui criada no lema 'criança não tem querer'.

"Após alisamento, minha mãe não me reconheceu"

rafaela - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Rafaela Oricchio, de escova no cabelo, em seu aniversário de quatro anos
Imagem: Arquivo pessoal

Até que, em umas férias, quando eu tinha sete anos, minha madrasta resolveu alisar meu cabelo, em casa mesmo, com aqueles produtos que cheiravam muito mal. Mas, como ia me livrar do secador, nem achei tão ruim. Mudou tanto minha aparência que, na volta das férias, minha mãe não me reconheceu no aeroporto.

Lembro que, na primeira série, um menino me chamou de medusa. Eu nem sabia o que era, mas sabia que era ofensivo. Os colegas de escola me zoavam, mas eu não me importava muito nessa época.

Depois, eu vivia penteada e com o cabelo preso. Mas minhas melhores amigas tinham cabelos parecidos e usavam os mesmos penteados, então não era tão ruim.

"Passei a adolescência de rabo e coque"

Com uns dez anos, apareceu a progressiva e, a partir dali, a cada três ou quatro meses, eu ia ao salão para fazer a bendita. Nunca ficou totalmente liso -minha raiz já é bem crespa. Crescia um milímetro e já ficava péssimo. Passei a adolescência de rabo e coque, e não me incomodava.

Nisso, meu pai se casou com minha atual madrasta, e ela falava para eu assumir meu cabelo natural. Eu dizia que não dava, que não tinha cachos. Era o que tinha sido passado para mim a vida toda.

Um dia, uma cabeleireira me recomendou fazer um alisamento e mais uma progressiva, e caiu uma mecha enorme do meu cabelo. Mas, tudo bem, eu tinha tanto que não faria falta.

"Aquela do espelho não era eu"

rafaela - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Rafaela Oricchio: "Nem no dia da foto da escola eu deixava minha avó me pentear"
Imagem: Arquivo pessoal

Fato é que o tempo foi passando, eu fui amadurecendo e vendo que aquela do espelho não era eu. Com 23 anos, navegando aleatoriamente na internet, eu ouvi falar de transição capilar pela primeira vez.

Já estava em uma época de muitas mudanças na vida: terminando um namoro longo, tinha perdido minha avó há pouco tempo, mudado de cidade recentemente também e prestes a me formar na faculdade de direito.

Num sábado qualquer, fui fazer a unha e falei para a cabeleireira: corta todo o alisado. E ela cortou. Faltavam dois dias para eu viajar para a Disney e eu estava com um cabelo na altura da orelha, sem forma nenhuma, sem saber como cuidar dele. Não há uma foto dessa viagem que se salve.

Na volta, comecei a pesquisar, testar e me acostumar com os cuidados desse novo cabelo. Parece que aí até minha personalidade mudou. Meus pais não gostaram —meu pai não gosta até hoje—, mas eu já não ligava muito para o que os outros pensavam. Finalmente, eu era eu mesma!

Cabelo e autoestima crescendo

Meu cabelo foi crescendo, fui ajustando cortes e passava as noites no YouTube estudando no poo, low poo [técnicas de lavagem e cuidados capilares] e as melhores marcas de produtos. Seguia muitas meninas que falavam sobre o tema e vi que existia um mundo de cacheados -e que eu não era a única.

Tudo que aprendi foi na internet. Uso muito creme porque meu cabelo pede. Sempre estimulo os cachos dando aquela apertada. Não penteio seco. E não uso secador nem por decreto.

Quando eu me reconheci cacheada e me senti linda com o meu cabelo, passei em uma entrevista superconcorrida de trabalho e encontrei caras que também amavam os meus cachos.

"Me libertar do alisado me livrou de tantos dramas"

orr - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Rafaela Oricchio: "Não dou mais espaço para ninguém criticar meu cabelo"
Imagem: Arquivo pessoal

Confesso que gasto muito menos tempo do que deveria com meu cabelo. Só hidrato no banho mesmo, e são raras as vezes em que faço uma fitagem [técnica para definir os cachos] caprichada. Mas aprendi a deixá-lo como eu gosto em poucos passos. Tem dias em que ele se rebela, eu prendo e seguimos a vida.

Não dou mais espaço para ninguém criticar meu cabelo. Ou, se alguém critica, eu nem percebo mais. Parei de pedir a opinião dos outros: o que importa é que eu esteja gostando.

Tenho verdadeira aversão a salão de beleza, acho que é trauma de infância. Corto uma vez por ano, mais ou menos. Da última vez, arrisquei e eu mesma cortei em casa. E não é que gostei? Acho que vou aderir.

Hoje, aos 31 anos, sou advogada, mas trabalho como crocheteira e sinto que minha história se confunde muito com a história do meu cabelo. E que me libertar do alisado me livrou de tantos dramas: de tentar agradar todo mundo, de fingir entrar no padrão.

Tem dificuldades? Claro. Mas, agora, posso dançar a noite inteira, que o meu cabelo continua lindo, sempre."

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