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Direitos da mulher

Como ativistas se uniram para ajudar 32 mil mulheres a abortar na Argentina

Mulheres acompanham votação na Câmara dos Deputados da Argentina que aprovou projeto de lei que torna aborto legal no país - AGUSTIN MARCARIAN/REUTERS
Mulheres acompanham votação na Câmara dos Deputados da Argentina que aprovou projeto de lei que torna aborto legal no país Imagem: AGUSTIN MARCARIAN/REUTERS

Luciana Rosa

Colaboração para Universa, em Buenos Aires

12/12/2020 04h00

Em uma região em que países contam com duras leis para impedir que uma mulher faça um aborto, foi preciso que grupos de ativistas, em sua maioria mulheres, unissem forças para encontrar uma brecha para que mulheres possam interromper a gravidez indesejada com segurança. A saída encontrada pelo movimento foi o direito à informação, dando origem a grupos como Las Comadres, do Equador, Com Amigas e Em Casa, do Chile, e o Socorristas en Red, da Argentina.

Esses grupos conversam com cada uma das mulheres que os procuram por ajuda para interromper uma gravidez, orientando sobre procedimentos seguros e menos traumáticos. Na Argentina, onde o tema ganhou projeção com a aprovação pela Câmara do projeto por aborto legal, as Socorristas ajudaram 31.936 mulheres a interromper voluntariamente suas gestações em todo o país entre 2014 e 2019.

Os 54 coletivos de mulheres espalhados por toda a Argentina se uniram em forma de rede nacional desde 2012. Elas são facilmente encontradas em uma busca no Google, têm perfis abertos no Instagram e até um canal de Youtube com vídeos educativos. Universa conversou com uma das fundadoras da rede que acompanha abortos autogestionados realizados com medicamentos, a socorrista Ruth Zurbriggen.

Ela fala sobre o efeito da pandemia nas buscas por auxílio e qual será o destino da própria instituição se a atividade hoje criminalizada se tornar legal no país, o que pode acontecer nos próximos dias.

UNIVERSA: Como funciona o processo de acompanhamento de mulheres que querem fazer um aborto?

RUTH ZURBRIGGEN: O que nós fazemos, na prática, é disponibilizar linhas através das quais as mulheres podem nos contatar para tirar suas dúvidas sobre as diversas etapas que envolvem a interrupção voluntária da gravidez. Eu falo desde as dúvidas com relação ao procedimento mais adequado segundo o tempo de gravidez, sobre como conseguir o misoprostol, quais médicos estão dispostos a atender essa paciente para realizar os exames necessários, entre outras questões. Além disso, no dia do procedimento nos propomos a acompanhar em linha, ou da maneira que seja mais confortável para essa mulher, todo o processo.

O que possibilita a existência de um grupo de atenção como as Socorristas?

Nós nos baseamos no princípio do direito a dar e receber informação. E o fazemos publicamente, mantendo uma página web cuidadosamente trabalhada, com uma estética atrativa e didática, além da atenção em centros comunitários com reuniões que estão abertamente difundidas. Essa é uma decisão política, porque se acreditamos em alguma coisa, é tirar a experiência do aborto de um lugar de silêncio.

Como assim?

Nós acreditamos que é preciso desestigmatizar o termo aborto. Aquelas que abortam têm que poder utilizar essa palavra, porque a experiência silenciada traz a culpa, levando à estigmatização, à vergonha, tudo acompanhado de um silêncio atroz.

Existe um encontro presencial entre as socorristas e a mulher que deseja abortar?

Sim, antes da pandemia, nos reunimos com estas mulheres em um lugar público. É muito importante que a pessoa que a acompanhe tenha uma cara, um corpo, uma voz que possa ser reconhecida e identificada. Até o momento em que se resolve a questão estamos em contato com ela. Durante as oficinas presenciais, colocamos em circulação a palavra, a possibilidade de dizer coletivamente o que fazemos, legitimando a decisão de abortar. Após um longo trabalho, o aborto se transformou em um tema de discussão política, a palavra aborto, hoje, está mais audível.

Ruth Zurbriggen - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Ruth Zurbriggen em manifesto pela legalização do aborto na Argetina
Imagem: Arquivo pessoal

Como foi acompanhar mulheres durante a quarentena?

Nos foi tirado -entre muitas outras coisas- o que temos de mais valioso nesta rede, que é o encontro cara a cara com quem precisa de um aborto. Porque existe a presença inevitável dos corpos. Discutimos muito a respeito das pedagogias do corpo-aborto, nelas é central o encontro face a face que nos permite colocar nossos corpos, olhar-nos, sentir-nos. Diante dessa nova realidade, tudo teve de ser feito de modo virtual ou telefônico, abrimos espaço para outras trocas, tivemos que expandir nossa capacidade de escuta, que esta fosse muito mais aberta.

As Socorristas se consideram feministas?

O que nós fazemos é um feminismo de ação direta. Nós damos informação, quando é necessário nos reunimos com as mulheres em seus lares ou nos nossos, as acompanhamos neste processo -porque elas, geralmente, estão sozinhas. Não pensamos nas mulheres como vítimas, o que nos move é o que essa mulher pode fazer, é ajudá-la em seu poder de decidir. Nós não praticamos aborto.

Por isso mesmo a ação de vocês só é possível até a etapa em que o aborto pode ser feito através da administração do misoprostol, não?

Claro, o fato de que exista uma medicação para abortar é uma revolução tecnológica, da qual nos apropriamos. Nós avaliamos caso a caso a situação das mulheres que nos procuram. Se percebemos que, em função do tempo de gestação [após a 12ª semana] isso não é possível, obviamente a encaminhamos para outros tipos de intervenção. Para isso, conformamos, através de um trabalho "formiguinha" de conscientização, uma Rede de Profissionais pelo Direito de Abortar, que são profissionais de saúde comprometidos em ajudar essas mulheres. Alguns casos sem dúvida são os mais dolorosos, quando a gravidez está avançada a um ponto em que sua interrupção coloque em risco a vida da mulher, procedemos a acompanhar o nascimento e o processo de adoção desse bebê.

Qual a posição das Socorristas sobre o projeto de lei do Executivo aprovado pela Câmara?

O aborto legal para não morrer, que é o lemo desse projeto, segue colocando o aborto em um lugar de necessidade porque existem mulheres que morrem pela insegurança que existe na prática do aborto clandestino e inseguro. Nós o necessitamos legal por uma questão de dignidade humana. De nossa parte, somos um ínterim enquanto não se aprova a lei. Mas, ela vai ser aprovada.

Com a legalização, o trabalho das Socorristas deixa de existir?

Nos transformaremos em difusoras do que implica a lei, daremos muita informação sobre como ela vai funcionar, para divulgá-la. De fato, teremos um grande trabalho pela frente em termos de informar e sensibilizar as equipes de saúde para que a atenção seja garantida, pois não podemos esquecer que o projeto conta com a objeção de consciência, que permite ao profissional se negar a atender a paciente. Além disso, na Argentina a possibilidade de legalizar o aborto não começou agora, é algo que nós ajudamos a propor, é fruto de um longo trabalho de sensibilização. Nós vamos seguir acompanhando e estamos felizes porque virá um período com mais cuidados.

Existe um clima de otimismo entre vocês, então?

Este não foi um ano fácil, terminá-lo celebrando o aborto legal, seguro e gratuito na Argentina é um salto enorme em direção ao reconhecimento de nossa dignidade e de nossas liberdades.

Além disso, estamos organizando uma rede latino-americana e caribenha há dois anos, em um processo contínuo. Pensamos que em fevereiro já poderemos lançar essa organização oficialmente. No Brasil, por exemplo, temos a rede Julias, mas como é um país tão grande, existem diferentes experiências. No Chile estão as Lesbianas y Feministas Línea Aborto Libre, no Uruguai (onde o aborto é legalizado) Mujeres en el Horno e, no México, o Fondo de Aborto para la Justicia Social Maria.

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