PUBLICIDADE

Topo

Minha história

"Cansada de violência policial, criei a faixa 'Lar de moradora, respeite'"

Moradoras do Complexo do Viradouro se reúnem para instalar recados aos policiais - Arquivo pessoal
Moradoras do Complexo do Viradouro se reúnem para instalar recados aos policiais Imagem: Arquivo pessoal

Eloanah Gentil em depoimento a Fabiana Batista

Colaboração para Universa

08/12/2020 04h00

"Fui criada pela minha avó, mas diferentemente da rua [fora das favelas], temos uma vivência coletiva entre a vizinhança. O morro é uma espécie de quilombo onde as mulheres, chefes de família, cuidam umas das outras, e estendem esse cuidado para as crianças. Por exemplo, além da minha avó, nossas vizinhas também cuidavam de mim.

Em um contexto de operação policial, não é diferente. Até hoje, em cenários repetitivos que levam à morte, seja a vítima envolvida com o tráfico ou não, os moradores tentam se proteger entre si. E as mulheres, independentemente se são seus filhos, se preocupam em colocar as crianças que estão brincando na rua para dentro de suas casas.

No início da quarentena, meu trabalho aderiu ao isolamento social -e permanece até hoje, e não deixou de remunerar seus funcionários. Mas não fiquei trancada em casa. Como ativista social, ajudei na distribuição de cestas básicas e kits de higiene para as pessoas em situação de vulnerabilidade da minha favela. Além disso, disponibilizei a internet da minha casa para as crianças estudarem até que as apostilas das escolas chegassem.

Esses foram dias fortes para mim, durante as entregas vi situações de precariedade em que pessoas ainda vivem sem água e banheiro dentro de casa. Ao vê-las, fiquei pensando: como é injusto que ainda há quem viva sem saneamento básico. Ainda mais neste período, que precisamos de água para os cuidados de combate ao coronavírus.

Eloanah - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Eloanah Gentil, moradora do Complexo do Viradouro
Imagem: Arquivo pessoal

Quando a polícia chegou, eu sabia do risco de pessoas amanhecerem mortas

Já as operações policiais continuam sem interrupção, e, mesmo dentro de casa, as pessoas se sentem cada vez mais expostas à violência. Lembro do dia [19 de agosto] em que a PM [Polícia Militar] se instalou, sem previsão de saída, aqui na favela: eu passei o dia em minha rotina normal de trabalho e a polícia chegou de noite.

[Desde 19 de agosto, o Complexo do Viradouro está sob tutela dos agentes de elite da Polícia Militar fluminense, incluindo o COE (Comando de Operações Especiais), o Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais), o BAC (Batalhão de Ações com Cães) e o BPChq (Batalhão de Polícia de Choque).]

Foi uma loucura. Fechamos, cada um na sua casa, as portas, e ninguém saiu mais. Ainda assim, eu sabia da probabilidade de pessoas amanhecerem mortas.

Durante os dias que se passaram, os abusos policiais foram muitos. A minha casa, graças a Deus, não foi invadida, mas muitas pessoas relatam que tiveram seus pertences quebrados pela polícia, que invadiam as casas e amedrontavam a todos.

Depois de alguns dias a associação de moradores tentou realizar uma manifestação, mas por medo de represália, os moradores não participaram.

Desse fracasso, eu, por ser ativista e conhecer uma rede ampla de instituições internacionais, decidi utilizar essas ferramentas e dar visibilidade às denúncias. Chamei as mulheres aqui do Morro da União [Complexo do Viradouro, em Niterói, RJ], que toparam imediatamente. Produzimos lençóis com a frase "Lar de moradora, respeite", e penduramos em nossas janelas. Decidimos que a frase deveria ser no feminino, porque a maioria das que aderiram à campanha é mulher.

Viradouro - Rafael Lopes/Divulgação - Rafael Lopes/Divulgação
Moradores se organizam e pedem fim da truculência da polícia no Complexo do Viradouro, em Niterói
Imagem: Rafael Lopes/Divulgação

Para divulgar a ação, fizemos um vídeo, e publicamos nas redes sociais de parceiros da campanha, pois, no primeiro momento, não queríamos nos expor. Em três dias o vídeo viralizou na internet. Depois do Morro da União a ampliamos para todo o Complexo [do Viradouro].

Campanha "Lar de moradora, respeite" se amplia

Não paramos por aí, o mesmo grupo criou a OCA [Ocupação Cultural e Artística do Viradouro], onde produzimos atividades culturais com apresentações de diferentes expressões culturais, os artistas convidados são do Complexo da Viradouro e de outras comunidades. Naquele momento, buscamos mostrar que não há apenas violência na nossa favela, mas também potencialidades artísticas.

Essas, campanha "Lar de moradora, respeite" e a OCA, vieram para ficar. Apesar das cabines policiais instaladas no Complexo, nossas ações deram certo. Atualmente, as moradoras -com a faixa pendurada em suas janelas- não têm mais suas casas invadidas como antes. Ao contrário, quando os policiais decidem entrar em alguma delas, eles entram com respeito."

Minha história