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Duda Salabert, 1ª vereadora trans eleita em BH, recebe ameaça de morte

A vereadora Duda Salabert - Reprodução/Instagram
A vereadora Duda Salabert Imagem: Reprodução/Instagram

Bruno Torquato

Colaboração para Universa, em Betim (MG)

04/12/2020 14h17Atualizada em 04/12/2020 16h50

Vereadora mais votada nas eleições 2020 em Belo Horizonte (MG), com mais de 37 mil votos, Duda Salabert (PDT) foi ameaçada de morte em mensagem encaminhada por e-mail. Duda, que é a primeira mulher trans eleita para a Câmara Municipal da capital mineira, divulgou o conteúdo hoje de manhã em suas redes sociais. O texto enviado contém também expressões de cunho racista.

A ameaça de morte a Duda Salabert foi acompanhada ainda por juramento de invadir o colégio privado Bernoulli, onde ela é professora há 12 anos, para matar "todos os negros" e "vadias". "[...] mas eu juro que vou comprar duas pistola (sic) 9mm no Morro do Engenho aqui no Rio de Janeiro, vou esperar as aulas voltarem, vou invadir uma sala de aula e vou matar todas as vadias, negros e depois vou te matar".

O autor da mensagem também diz que tiraria a própria vida após cometer os atos e já imagina a cena. "Eu já consigo escutar os gritos de terror (...) dentro da minha cabeça", diz o conteúdo do e-mail.

Ao divulgar as ameaças sofridas, Duda acredita que se trata de uma pressão para que o colégio faça sua demissão. "O grupo odioso enviou esse mesmo e-mail para a direção da escola. É uma estratégia não só para me intimidar, como também para forçar que a escola me demita", disse na postagem. Ela afirmou ainda que irá à delegacia fazer uma denúncia. "Não irão silenciar minha luta por justiça social. Não vão me intimidar. Serão todos presos!", completou.

O autor, que assina o e-mail como Ricardo Wagner Arouxa, de acordo com Salabert, diz que está com problemas financeiros em sua casa. "Enquanto você ganha um salário de vereador apenas por ser pedreiro de peruca, eu estou desempregado, minha esposa com câncer de mama e vivendo de auxílio emergencial", relata na mensagem.

O nome do autor seria um pseudônimo usado por um grupo de extrema-direita no Brasil. No final, ele avisa ainda que "não adianta ir na (sic) polícia ou denunciar na mídia". O conteúdo do e-mail seria parecido com as ameaças que a prefeita eleita de Bauru (SP), Suéllen Rosim (Patriota), recebeu após o resultado oficial.

A Universa entrou em contato com o Colégio Bernoulli, que se posicionou por meio de nota enviada por sua assessoria de imprensa. A instituição de ensino disse: "em relação às ameaças sofridas pela professora Duda Salabert e que citam o Bernoulli, a questão já foi direcionada às autoridades competentes para que sejam tomadas as providências cabíveis e acompanharemos seus desdobramentos. O Bernoulli ressalta que repudia qualquer tipo de violência, preconceito e ódio".

A Polícia Civil afirmou a Universa que "até o momento, não localizou registro de ocorrência com as informações repassadas. A orientação é que a vítima procure uma Delegacia de Polícia Civil, mais próxima, para o registro da ocorrência e a devida representação".

Procurado pela reportagem, o PDT de Minas Gerais ficou de retornar as ligações, mas até o fechamento da matéria não obtivemos retorno. Quem também não se pronunciou até o momento para a reportagem é a Câmara Municipal de Belo Horizonte.

Duda fala em transfobia

A Universa, Duda Salabert acredita que o fator que mais motivou a ameaça sofrida é a transfobia. "Há uma estrutura odiosa contra pessoas trans e isso se revela nos números. Cerca de 90% das trans estão na prostituição e a expectativa de vida é de 35 anos", disse. Ela confessou que não esperava receber ameaças desse nível ao se candidatar: "Desse porte não, as palavras foram muito fortes".

Apesar das crescentes manifestações de ódio, Duda disse para a reportagem que Belo Horizonte não é mais conservadora e que há como combater a violência. "Sou a pessoa mais votada da história de BH e isso mostra que a sociedade avança em consciência e no respeito a diversidade", ressaltou. "O combate é feito ampliando o debate de gênero em sala de aula. O que muda [a realidade] é a criação de novas consciências no ambiente escolar. Temos que debater cada vez mais. Além disso, a transfobia é crime inafiançável e o estado precisa combater", defende Duda.

Para ela o maior empecilho de avanço é o que se passa em Brasília. "O problema é o governo federal que tem o discurso de ódio e, como resultado, os grupos neonazistas se fortalecem e ganham espaço". Ela alega ainda que o grupo que assina o e-mail é neonazista e acredita que se trata de um atentado psicológico e contra a democracia.

Apoio recebido

Pelo Instagram, Duda Salabert (PDT) recebeu apoio de outros políticos e famosos, além de seus eleitores. A deputada federal Áurea Carolina (PSOL), que foi candidata a prefeita de Belo Horizonte, postou uma mensagem dizendo para contar com o apoio dela. "Conte com o nosso total apoio. Chega de violência política", disse.

O gastrônomo trans Erick Witzel desejou a prisão dos envolvidos em mensagem postada. "Que todos sejam presos urgentemente! Meu Deus, como pode um absurdo desses, como pode tanto ódio? Duda, que você e sua família tenham todo o apoio e fiquem em segurança, se cuidem. Muita força para vocês, um abraço apertado".

Já a atleta olímpica Joanna Maranhão postou um comentário dizendo "toda minha solidariedade, Duda".