PUBLICIDADE

Topo

Minha história

"Fiz pornô tradicional, mas hoje produzo meus próprios vídeos para redes"

Emme White é atriz pornô desde 2015. "Queria poder falar o que faço sem ser julgada" - Reprodução/Instagram
Emme White é atriz pornô desde 2015. "Queria poder falar o que faço sem ser julgada" Imagem: Reprodução/Instagram

Emme White em depoimento a Camila Brandalise

De Universa

24/11/2020 04h00

Quando eu entrei no pornô, em 2015, só queria fazer esse trabalho sem ser julgada. Sempre gostei de sexo, sempre me senti muito à vontade com a minha sexualidade. Quando eu era mais nova e mostrava isso, era tachada de puta. Decidi que seria uma puta remunerada.

Comecei tarde, com 33 anos. Eu queria seguir a carreira de dançarina, mas o que eu ganhava não compensava o que eu investia em cursos. Então passei a fazer transmissões pela webcam, mas só do nariz para baixo. Até que mostrei meu rosto e adotei o nome de Emme White, apelido de Emmeline, meu nome verdadeiro.

Foi quando comecei a pesquisar sobre produtoras de pornô e conversei com outras atrizes para saber como funcionava. Entrei em contato com a produtora XPlastic dizendo que gostaria de fazer um trabalho com eles justamente porque tinham uma proposta diferente do pornô tradicional, com mulheres de diferentes tipos de corpos, filmes mais elaborados e produzidos.

Mas, em 2016, fui para o pornô mainstream. Estava na fase de experimentar. Fui para a Casa das Brasileirinhas [reality show adulto] três vezes. Depois de um tempo, comecei a ter meu julgamento próprio.

Os filmes adultos tradicionais ainda carregam resquícios dessa coisa machista de o ponto principal ser o gozo do homem. Na hora do sexo oral, tem muito mais a satisfação do homem do que o contrário, as posições são as que agradam os homens, o foco é o prazer masculino.

Minha avaliação mudou na gravidez

Eu já tinha construído meu nome e pensei: 'Peraí, vamos parar pra pensar o que eu gosto na verdade de fazer?' Não era aquilo.

Bati o martelo sobre isso quando tive a minha filha, em 2018. Ainda grávida, fiz trabalhos para a XPlastic, e um especial sobre sexo na gravidez. As outras empresas não quiseram, não sei o que passou na cabeça deles, acho que ficaram com medo de algo acontecer comigo e não queriam se responsabilizar.

Sentia um julgamento moral, ouvi de pessoas coisas como: 'Mas você vai gravar? Não pensa no seu filho?' Eu dizia que continuava sendo mulher, que estava tudo bem comigo e com a gestação. Qual era o problema? Se eu estivesse fazendo sexo com um marido não teria problema nenhum.

Depois que minha filha nasceu, fiquei quatro meses parada. Voltei a fazer webcam aos poucos e a gravar filmes da XPlastic para o canal Sexy Hot. O que eu gosto dessas produções é que elas têm roteiro, é mais elaborado, têm história, uma estrutura, figurino.

Produzindo material para mim mesma

Com a pandemia e parada nas gravações, veio o pontapé para eu começar a produzir para os meus canais nas redes sociais. Comecei a gravar com atores e atrizes que já conhecia, e combinamos que cada um postaria o material em suas redes. Vejo que o mercado está nessa transição, os atores e atrizes descobriram que se pode ganhar dinheiro em outras mídias, do seu jeito. Foi o que eu fiz.

Como camgirl e por já ter um certo nome, agora ganho R$ 300 em uma hora. Entre as vantagens, não preciso sair de casa e ninguém encosta em mim. Ainda presto a atenção no que a audiência quer, mas faço do meu jeito.

A maioria que consome esse conteúdo ainda é homem. Percebo que está aumentando o número de mulheres vendo pornô e elas estão mais livres para falar do que gostam. Eu, antes de ser atriz, também não assistia ao pornô.

Não considero o pornô uma opressão. Eu sou exemplo de sei o que estou fazendo, gosto, não me sinto oprimida. Fico preocupada com a exposição precoce dos adolescentes, até crianças, a esse conteúdo. Mas aí é outra conversa.

O pornô não vai acabar, as pessoas sempre tiveram e vão ter a curiosidade de ver outras pessoas nuas, fazendo sexo. O que acho que dá para fazer é tornar os filmes mais humanos, menos mecânicos.

Eu queria ir poder ir ao parquinho com a minha filha e dizer o que eu faço se me perguntarem, sem ser julgada.

Meu trabalho me dá prazer, dinheiro, gosto muito do que faço. É possível uma mulher escolher esse caminho porque quis, porque gosta, porque acha que é bem remunerada por isso. Se quiser ser dona de casa, tudo bem também. Me considero feminista porque acredito que feminismo também é isso: deixar a mulher livre para fazer o que quiser fazer.

Minha história