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Mulheres protagonizam um mundo em evolução


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Festival de cinema quer combater o machismo no audiovisual brasileiro

Cena do longa "Papicha", de Mounia Meddour, em cartaz no festival  - Divulgação
Cena do longa "Papicha", de Mounia Meddour, em cartaz no festival Imagem: Divulgação

Mariane Morisawa

Colaboração para Universa

21/11/2020 04h00

Em 2015, a roteirista e diretora Marília Nogueira se deu conta de que todos os seus curtas-metragens até então tinham homens como protagonistas -inclusive um que era baseado numa história real acontecida com sua avó, que virou vovô no filme.

"Achei muito assustador", diz ela em entrevista a Universa. "E eu não sei em que momento meu inconsciente me disse que esse personagem tinha de ser homem." Conversando com outras mulheres da indústria audiovisual, ela notou que era algo comum. "Existe o pensamento de que, se você quer contar uma história universal, tem de ser sob o ponto de vista masculino. Isso, para mim, foi um dos grandes estalos de que está tudo muito errado."

Foi assim que ela criou o Cabíria Prêmio de Roteiro, para histórias escritas e protagonizadas por mulheres, que acabou dando origem ao Cabíria Festival - Mulheres & Audiovisual, numa parceria com a roteirista Vânia Matos.

A segunda edição do evento acontece até o dia 29 de novembro, em versão gratuita e online. A programação, com 35 filmes e 22 microfilmes, além de debates e master classes, pode ser vista em www.cabiria.com.br. É uma iniciativa para combater a hegemonia masculina no cinema, na televisão e na publicidade, dar espaço a mulheres talentosas e discutir como equilibrar essa balança. "O audiovisual brasileiro é machista, porque a sociedade brasileira é extremamente machista", diz Vânia Matos.

"Quem conta a história acaba se refletindo nas mulheres que vemos nas telas"

marilia - Divulgação - Divulgação
A roteirista e diretora Marília Nogueira, criadora do festival
Imagem: Divulgação

A representatividade feminina dentro e fora das telas é um assunto em voga no mundo todo, com iniciativas para aumentar a participação das mulheres em festivais e no mercado. Para Vânia Matos, essa é uma questão fundamental.

"O lugar de onde parte a narrativa é muito importante porque ele determina uma série de relações de poderes ou desconstrução desses poderes", afirma. Até porque quem conta a história acaba se refletindo nas mulheres que vemos nas telas, seja do cinema, da televisão, do computador ou do celular.

"Aquela mulher que está na tela vai impactar como a audiência se enxerga", diz Vânia. "Porque aquilo que você não vê nas telas reduz sua visão de mundo. Se você é estimulado a entender a mulher como uma forma, seja do padrão de beleza, seja da objetificação do corpo, seja da subalternidade, seja da periferia dos poderes, isso de uma certa maneira vai criando uma narrativa de normatividades. Por isso, é importante trazer outros imaginários possíveis de existência que geram uma ruptura."

Marília Nogueira dá o exemplo de um filme em que foi assistente de direção e que foi totalmente filmado num fórum. "Só havia homens na tela, quando naquele fórum em que filmamos há mais juízas do que juízes", conta.

"É um apagamento, é dizer que essas mulheres não existem e impedir que essa geração jovem que está assistindo àquilo possa se enxergar ali e possa pensar que pode ser aquilo. A maior violência de todas é você negar o direito de alguém de almejar algo, de sonhar e ser algo."

Protagonismo sem antagonismo

De jeito nenhum isso significa que as mulheres do audiovisual estejam procurando o antagonismo. "Queremos filmes só com mulheres, sem homens? Não. A gente quer um planeta Terra inteiro, só com mulheres? Não. O que a gente gostaria e exige é para que haja um respeito para a construção desse imaginário", diz Vânia. "Porque isso tudo vai criando uma ideia de mundo, de normatizar violências. Por exemplo, se não posso ver corpos diferentes sendo amados, sendo bonitos, sendo aceitos, só um tipo de corpo vai sendo normalizado."

Os números comprovam na prática a teoria das criadoras do festival. Para ficar só no cinema, dos filmes brasileiros lançados em 2018, apenas 22% foram dirigidos e 22% foram escritos por mulheres, segundo estudo da Ancine (Agência Nacional de Cinema). Houve um aumento em relação a 2014, quando apenas 10% foram dirigidos e 14% escritos por mulheres. Mas ainda longe do ideal.

"É preciso haver um comprometimento da cadeia produtiva e também políticas públicas", diz Vânia Matos. "A cadeia produtiva do audiovisual está inserida na sociedade e vai se equiparar a outras cadeias produtivas. A sociedade é desigual como um todo. O audiovisual não é diferente."

É preciso investir e dar as mesmas oportunidades que os homens brancos heterossexuais têm. "O heroísmo de fazer um filme sem dinheiro pode fazer com que aquele talento nunca mais queira passar por aquilo", acredita Vânia. "E a gente não quer isso, mas que as mulheres trabalhem, vivam dos seus trabalhos, se sintam aptas a produzir."

Assédio e despertar de consciências

O machismo está internalizado no setor, elas dizem, e a dificuldade para conseguir o que se quer profissionalmente desestimula. "Porque muitas vezes, além da pressão externa, da sociedade, do lugar que ela tem que ocupar, o quanto vai ser mais trabalhoso ela chegar em determinado lugar, lá dentro dela muitas vezes, ela nem acredita que chegará", diz Vânia. "Não estou falando de dificuldades pessoais, mas de uma questão estrutural. Ela vai ter de lutar muito para estar ali."

Sem falar no assédio às mulheres nesse ambiente profissional. "Você não consegue passar por todo esse desafio que é se colocar numa cadeia produtiva, e principalmente num espaço de poder de uma cadeia produtiva, sem todas as possibilidades de assédio conhecidas, moral, psicológico e sexual", diz ela. "E isso elimina pessoas do processo."

Ela clama por solidariedade de homens e mulheres do setor audiovisual para que todos fiquem mais atentos ao assédio e deem apoio a quem denuncia os assediadores. "A gente tem que deixar de ver como natural esse espaço de violência contra a mulher", diz Vânia. Desde o surgimento do movimento #MeToo, quando várias atrizes relataram casos de assédio envolvendo o produtor de cinema Harvey Weinstein, ela vê mudanças.

"Existe um despertar de consciências, mas ainda temos um longo caminho a percorrer. Falar sobre isso é um avanço. Mas poder falar sobre isso sem retaliação é aonde se quer chegar. Queremos que quem se interessa e tem empatia suficiente seja empático. E quem não é que sinta medo de ser denunciado e pare com suas práticas abusivas."

O Cabíria Festival, diz Vânia, é um espaço para debater tudo isso: o retrato feminino na tela, a maneira como os corpos são objetificados, a falta de acesso e os obstáculos. Mas não só. "A gente fala sério, só que também se diverte."

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