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Gel que promete "vagina de virgem": o machismo em prateleiras dos sex shops

Freepik/Rawpixel.com
Imagem: Freepik/Rawpixel.com

Heloisa Noronha

Colaboração para Universa

14/11/2020 04h00

Adstringentes, géis, pomadas... Cosméticos sensuais que contraem a vagina simulando a de uma mulher virgem, existem desde que as primeiras sex shops surgiram, mas a oferta crescente, das mais diferentes marcas, tem feito com que diversos especialistas em sexualidade questionem: o que essa demanda revela sobre as necessidades e os desejos de homens e mulheres?

Primeiro é preciso entender como agem esses produtos. Segundo a sexóloga e fisioterapeuta pélvica Isabella Moura, colaboradora da plataforma Sexo sem Dúvida, eles contêm em sua composição barbatimão ou hamamélis, substâncias com ação cicatrizante e vasoconstritora. "Isso gera uma sensação de 'fechamento' e, no caso do uso no canal vaginal, diminui muito a lubrificação natural do processo de excitação, ressecando e aumentando a superfície de contato. É uma ação extremamente momentânea e que pode até gerar até um desconforto para a mulher durante a penetração, além do risco de alergias, infecções e corrimentos, entre outros problemas", diz.

Machismo e a dor do hímen interrompido

Enquanto os homens têm a impressão de penetrar uma vagina com essas características, suas parceiras, em boa parte das circunstâncias, vivenciam dor e incômodo. Para Giovane Oliveira, sexólogo e um dos apresentadores do podcast DSex, a valorização do uso desse tipo de artifício pode ser resumia em uma palavra: machismo. "Tirar a virgindade de uma mulher ainda é uma fantasia recorrente entre muitos homens e envolve fatores como a sensação de exclusividade e 'inauguração'. Essa 'inauguração', na maioria esmagadora das vezes, está associada à impressão de 'pureza' da parceira por uma falta de experiência sexual.

Isso dá a muitos homens um sentimento de potência, por serem os primeiros a ensinar o que seria sexo e prazer. Isso dialoga diretamente com um julgamento social enraizado que não consegue lidar com a vida sexual ativa e o prazer femininos", afirma o sexólogo. A construção, além de extremamente machista, exalta a "virgindade" e pode remeter até a pedofilia. Afinal, quem são as virgens? As adolescentes. Enquanto os homens pensam na tara de tirar a virgindade não levam em consideração o incômodo feminino e a dor que é o hímen rompido.

A vulnerabilidade do envelher

Ainda conforme Giovane, é preciso considerar a dificuldade de alguns homens em lidar com o envelhecimento, seja o próprio ou o da parceira. Isso caminha para uma vontade de revisitar o passado, mas não na forma de práticas que despertem sensações corporais agradáveis e mais excitantes, e sim remontando um cenário que remete ao poder e dominância. "Muitos sujeitos enfrentam resistência ao passar por momentos de vulnerabilidade, sentimento esse que marca a primeira experiência sexual da maioria das pessoas. Reviver o momento da perda da virgindade da parceira pode ser uma espécie de 'correção' de uma primeira vez atrapalhada e cheia de inseguranças. Se for esse o caso, acho legal se questionar o motivo dessa experiência necessitar de uma reparação", pontua.

Na opinião da ginecologista Karen Rocha De Pauw, de São Paulo (SP), ainda vivemos em uma cultura super machista e extremamente falocêntrica, por isso é mais fácil dizer que uma vagina é larga do que um homem assumir que tem o pênis fino, algo que consiste num verdadeiro tabu. "No consultório, a maioria das pacientes que me procuram porque acham que a vagina está está larga só se queixam disso porque o parceiro comentou. E, ao fazer exames, constato que essas vaginas são completamente normais. Acontece que muitas não tiveram outros parceiros para comparação", diz Karen.

Machismo feminino e necessidade de ser "boa de cama"

No ponto de vista de Isabella, da plataforma Sexo sem Dúvida, o machismo presente em algumas mulheres que ainda vivem em torno de agradarem seus parceiros a todo custo, sem pensar em seu próprio prazer e vontade, é outro ponto que merece atenção. "A ideia que ainda reina na mente de certos homens, sobre mulheres ideais serem as que tiveram poucos relacionamentos sexuais ainda prevalece na cabeça de algumas mulheres também. Daí surge a necessidade de buscar produtos eróticos cujo uso provoca desconforto para servir o desejo do outro.

A vontade de ser uma mulher "boa de cama" gera essa postura subserviente e desconsidera seus riscos. No entanto, uma mulher realmente gostosa na cama é aquela que sabe sentir prazer, conhece o próprio corpo e entende como usar isso a seu favor. Além disso, ela expõe suas preferências e cuida da saúde sexual e íntima sem passar por cima de si mesma", destaca a sexóloga.

Para a sexóloga Danni Cardillo, do Rio de Janeiro (RJ), é justamente nessa fraqueza da autoestima - a necessidade de agradar e de ser uma deusa do sexo - que o mercado erótico atua. "Não são artifícios como produtos imediatistas que produzem incômodos maiores que as delícias que empoderam uma mulher, mas sim o autoconhecimento e a autoaceitação", fala.

Prazer e mais saúde: exercícios de assoalho pélvico

Nem sempre é sinônimo de mulher saudável no ponto de vista muscular e funcional e, menos ainda, de alguém feliz sexualmente. Tendo em vista que a vagina é um canal envolto pela musculatura do assoalho pélvico, quando esses músculos estão com estreitamento disfuncional pode acontecer dor na relação sexual, como é o caso do vaginismo. "O que me preocupa mais nessa busca é a falta de conhecimento da maioria das mulheres com relação ao que realmente é possível ser feito", diz Isabella.

A dica da fisioterapeuta pélvica indica os exercícios de Kegel, além de potencializar o desempenho sexual feminino, melhoram significativamente a saúde da mulher, prevenindo distúrbios pélvicos como perdas involuntárias de urina, aumentando a lubrificação natural, ativando o aporte de sangue local e melhorando o desejo, a excitação e o orgasmo", afirma.

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