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Mães e filhos

O Começo da Vida 2: relação de criança com natureza é atribuição só da mãe?

jacoblund/Getty Images/iStockphoto
Imagem: jacoblund/Getty Images/iStockphoto

Nathália Geraldo

De Universa

12/11/2020 04h00

Longe das escolas e das atividades ao ar livre por conta da pandemia do coronavírus, as crianças parecem passar por uma "pausa na vida". De um lado, perguntam se ainda falta muito para saírem de casa. Do outro, pais e responsáveis lidam com a culpa de deixá-los enclausurados, por questões de segurança e saúde, enquanto lidam com uma rotina por vezes desregulada, cheia de telas e sem saber em que nível o momento de exceção impactará no desenvolvimento dos pequenos.

Em algumas regiões do Brasil, a flexibilização das medidas de isolamento social já impacta na reaproximação das crianças com o mundo de fora. E é justamente esse o tema do documentário "O Começo da Vida 2: Lá Fora", que será lançado nesta quinta-feira (12), produzido e idealizado pela Maria Farinha Filmes. Filmado entre 2018 e 2020, a franquia de "O Começo da Vida" agora quer dialogar sobre a importância de uma infância próxima à natureza.

Mas, afinal, tem como fazer com que a experiência de estar cercado por árvores, ar puro e pisar na terra não seja uma atribuição a mais, e uma culpa a mais, para as mães?

Crianças em espaços ao ar livre x Estresse da pandemia

mãe e filhas no Minhocao - Nathália Geraldo/UOL - Nathália Geraldo/UOL
Ana Paula, Hillary e Sara em passeio pelo Minhocão (SP)
Imagem: Nathália Geraldo/UOL

"Ela olhava para janela, via o Minhocão fechado e perguntava se não podíamos ir lá. Essa é a primeira vez que passeamos fora de casa, desde março". Essa é a fala da atendente de lanchonete Ana Paula do Nascimento sobre sua filha mais velha, Hillary, 8 anos.

A reportagem encontrou as duas, ao lado da pequena Sara, de 2 anos, no primeiro final de semana em que os parques públicos e o Elevado Presidente João Goulart, o Minhocão, foram abertos para a população de São Paulo.

Ana Paula diz que, até aquele dia, as meninas estavam "estressadas" dentro do apartamento o tempo inteiro. E que, mesmo que o Minhocão seja uma grande estrutura de concreto, sem muitas áreas verdes ao redor, era a melhor opção perto de casa.

"Eu ficava com o patinete em casa imaginando que era a rua", desabafou Hillary para Universa.

Na mesma ocasião, passeavam a editora Tatiana Melo e seu filho, Oliver, de 2 anos e seis meses. Ela conta que o contato da criança com a natureza no momento pandêmico não foi totalmente interrompido, para que não atrasasse o processo de desenvolvimento dele.

mãe e filho no Minhocao - Nathália Geraldo/UOL - Nathália Geraldo/UOL
Tatiana Melo e o filho Oliver, de 2 anos e 6 meses
Imagem: Nathália Geraldo/UOL

"Moramos em um apartamento sem varanda, sem área de lazer. Ficamos sem sair nos primeiros dois meses, mas depois íamos a pracinhas ou a cidades distantes de São Paulo, longe de todo mundo e com todos os cuidados, para que ele ficasse descalço e pisasse na terra", comentou. "Entendo que essa idade é uma fase mais 'plástica' da criança, então não queríamos perder essa janela [de desenvolvimento] de jeito nenhum."

Segundo a divulgação de "O Começo da Vida 2", enquanto a OMS recomenda 12 metros quadrados de área verde por habitante de uma cidade, São Paulo oferece 2,4 metros quadrados de natureza a cada morador.

Comunidade é quem cuida das crianças

Neste contexto de pandemia, estudos (e a realidade) mostram que as mães sofrem mais por conta da experiência de restrição que as crianças vivem na pandemia. Mas, cuidar desse equilíbrio do contato delas com a natureza não é só tarefa das mulheres, analisa Laís Fleury, coordenadora do programa Criança e Natureza do Instituto Alana e que participou da construção do argumento de "O Começo da Vida 2".

"É natural que a mãe se sinta sobrecarregada, mas a gente precisa olhar isso em um aspecto mais ampliado. Existe uma comunidade para isso, equipamentos públicos que são formas de desenvolver essa responsabilidade de forma leve e coletiva", aponta.

As vésperas das eleições municipais também são uma chance de compreendermos que uma infância menos "emparedada" deve estar como prioridade dos governantes, comenta a especialista. "É preciso que a sociedade civil repare se a criança tem prioridade nos planos de governo, se há políticas dos candidatos voltadas para a infância em termos de gestão pública municipal. Percebendo o planejamento urbano, por exemplo, conseguimos ver se há interesse em ampliar o usufruto dos espaços públicos pelas crianças".

Passa por essa capacidade dos gestores públicos, avalia Fleury, os esforços de integrar a paisagem verde, além dos parques e pracinhas, por exemplo, ao cotidiano das famílias. "De segunda a sexta, a criança não está no parque. E ele acaba se tornando uma ilha, pela dificuldade de acesso". Nos bairros mais pobres, claro, a situação se agrava. "Por isso, cada vez mais temos que lutar para que eles tenham espaço de lazer e verdes."

Dentro de casa, as pequenas decisões para garantir um tempo de apreciação da natureza já colocam a criança mais atenta para o meio ambiente. "Mesmo que sejam curtas distâncias a pé, ir ao mercado com elas. E a melhor coisa que um adulto pode fazer para nutrir esse vínculo delas com o verde é se colocar num lugar de apreciador."

Cabe a nós pensar: como podemos pensar a cidade como promotora de saúde e como o espaço público se torna um lugar de estabelecer encontros?

Como minimizar a culpa pela rotina da pandemia?

Para a psicóloga Marilene Proença, do Instituto de Psicologia Universidade de São Paulo (USP) e uma das entrevistadas do documentário, brincar com a criança e escutá-la sobre seus sentimentos são saídas saudáveis para esses tempos em que não se pode viver "lá fora".
"A criança é fruto do que nós construímos com ela. Se nós construímos o trauma, esse período vai deixar o trauma como marca. Então, precisamos apresentar alternativas", comenta. "O melhor jeito de minimizar a culpa é brincar com a criança, descobrir que interesses que ela têm e se dedicar assim como temos um tempo para cozinhar e para trabalhar na vida...É preciso ter um tempo para brincar."

"Começo da Vida 2: Lá Fora": veja o trailer

Dirigido por Renata Terra, "O Começo da Vida 2" aborda a importância da conexão entre crianças e a natureza e a construção de um futuro saudável para as famílias e para o planeta. O documentário visita grandes centros urbanos no Brasil, México, Chile, Peru e Estados Unidos para mostrar diferentes realidades de infância na natureza.

O documentário está disponível em plataformas digitais como Netflix, iTunes e Vivo Play.

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