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Nova "política de seios" do Instagram foi estimulada por modelo negra gorda

Nyome Nicholas-Williams - curvynyome/Reprodução/Instagram
Nyome Nicholas-Williams Imagem: curvynyome/Reprodução/Instagram

Nathália Geraldo

De Universa

28/10/2020 04h00Atualizada em 28/10/2020 09h49

O Instagram anunciou nova política para a publicação de fotos e vídeos em que aparecem seios femininos. Agora, a rede social permite fotos e vídeos em que alguém esteja "simplesmente abraçando, acariciando ou segurando seus seios". Se houver dúvidas sobre o conteúdo, a rede social não excluirá o post sem antes avaliar o que foi publicado. E a mudança tem tudo a ver com a movimentação de uma modelo e influenciadora britânica, Nyome Nicholas-Williams, gorda e negra, que foi vítima desse tipo de regra no seu feed.

Acontece que, ao remover conteúdo em que os seios femininos sendo cobertos pelas mãos ou braços da pessoa, o Instagram também varria imagens de mulheres gordas. E foi o que aconteceu com Nyome, que mobilizou a campanha #IWantToSeeNyome na rede, questionando o fato de suas fotos serem apagadas sem a mesma aplicação de regra para mulheres magras.

Ao lado de mais duas ativistas, brancas e magras, ela conseguiu não só reaver suas publicações como alterar a "política dos seios" do Instagram. Universa conta essa história.

Seios no Instagram e a relação com o corpo gordo

Não é de hoje que Universa questiona a censura a imagens de seios de mulheres pela plataforma, que é tratada pela empresa como uma forma de combater conteúdo pornográfico publicado sem consentimento por terceiros.

Mas, sem ajustes no mecanismo de exclusão, fotos de pessoas gordas, como Nyome, eram retiradas do ar. A modelo passou a monitorar a situação com ajuda da fotógrafa Alexandra Cameron, que registrou nudes artísticos da modelo, antes censurados pelo Instagram, como este:

O jornal "The Guardian" apontou que as imagens foram eliminadas por conta dos critérios de segurança em relação a conteúdo pornográfico. Ao site, Alexandra Cameron pontuou que "há mais carne para segurar ou colocar o braço ao redor se você tiver seios maiores. Não houve nenhuma sugestão de compressão pornográfica - minhas fotos são explicitamente sobre o olhar feminino e sobre o empoderamento das mulheres".

Nyome protestou no Instagram sobre a diferença com que imagens de pessoas brancas e pessoas negras gordas são tratadas pela plataforma e também na sociedade, após ter os registros excluídos do seu perfil. "Por que os corpos plus size brancos são vistos como 'aceitáveis' e aceitos e os corpos grandes pretos não?".

À modelo, como ela escreveu em um post em agosto, o Instagram admitiu que a retirada das fotos foi "um erro" e pediu desculpa pelo ocorrido. Em junho, aliás, o CEO Adam Mosseri admitiu que a plataforma precisa rever seu "viés algorítmico".

No início de outubro, no entanto, Nyome publicou a foto que você vê abaixo, apenas cobrindo os seios com os braços e escreveu na legenda: "Estou ciente de que as imagens de corpos pretos plus size ainda estão sendo retiradas (...). Lembre-se de que nunca vou parar de lutar pelo que é certo e essa campanha está longe do fim! Até que corpos negros plus size parem de ser censurados, sempre há trabalho a fazer".

Frente à campanha de Nyome, o Instagram divulgou uma nova "política dos seios":

"Permitiremos conteúdo em que alguém estiver simplesmente abraçando, acariciando ou segurando seus seios. E, se houver dúvidas sobre o conteúdo, pediremos aos revisores que ele não seja removido. Estamos comprometidos em fazer a coisa certa e continuaremos a trabalhar com especialistas e com os membros da nossa comunidade para seguirmos melhorando", diz a empresa.

Há uma exceção. "Reforçamos, no entanto, que imagens que contenham seios sendo apertados, em um movimento de agarrar com os dedos dobrados e onde há uma clara alteração no formato dos mesmos, continuam violando as nossas políticas e serão removidas."

O que dizem as ativistas

Se você tem conta no Instagram, sabe como ele se tornou megafone para movimentos de aceitação do corpo em vários tamanhos. Por lá, ativistas escrevem sobre processo de autoaceitação, expõem os próprios corpos e reconfiguram a noção do que é "bonito" para além dos padrões estéticos que insistem em nos colocar.

Por essa razão, a mudança impacta não só a vida de Nyome. A ativista capixaba e criadora do projeto Gorda na Lei, escritório de advocacia para causas de gordofobia, Rayane Souza lembra que gordas brasileiras já enfrentaram a mesma censura e que há diferenciação de como corpos magros e gordos são vistos pela plataforma e pelos usuários.

"Quando a mulher magra publica a foto cobrindo o seio é artístico; quando é a mulher gorda, ela é sexualizada ou criticada por incentivar um corpo 'não saudável', o que é fruto da gordofobia", opina.

Para a ativista, a iniciativa para que mulheres com todos os tipos de corpo possam publicar fotos e vídeos de si mesmas sem cair na "malha fina" do Instagram é válida. Mas deve ir além. Ela comenta sobre a existência de perfis que se dedicam a humilhar corpos gordos, que, em sua opinião, não são eliminados pela rede social da forma mais automatizada.

"Já tivemos caso no Gorda na Lei em que foi feito mutirão para derrubar o perfil ofensivo [pelos mecanismos de denúncia da própria plataforma], mas só conseguimos isso via notificação extrajudicial", comenta. "Eu mesma já tive foto de biquíni derrubada, e meu conteúdo é para ajudar a mulher a se aceitar. Acontece que há coisas ruins que o Instagram não derruba", critica.

Na divulgação da política, a empresa diz que quer manter o Instagram como um "ambiente positivo e inclusivo para que comunidades de apoio, como a do Body Positive, possam crescer e para que seus membros sintam-se seguros para se expressarem livremente".

Corpos negros gordos

No Instagram, Nyome comemorou a conquista, mas seguiu apontando o aspecto racial no mecanismo de exclusão de conteúdo na plataforma, mencionando o debate sobre racismo algorítmico na rede social.

"Mulheres negras plus size continuam a ser censuradas de várias maneiras; e mulheres brancas ainda tentaram sequestrar a causa e fazer disso sua campanha. É claro que existe um enorme desequilíbrio racial no algoritmo em que os corpos brancos são promovidos, e não precisam se preocupar com a censura de suas postagens, mas os corpos negros ainda precisam justificar a presença na plataforma. Isso também foi levado para Instagram", disse ela no post.

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