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Game quer ser aliado das mulheres no combate à violência doméstica

Mobi Game - Divulgação
Mobi Game Imagem: Divulgação

Lika Almeida

Colaboração para Universa

27/10/2020 04h00

Muitas mulheres encontram dificuldades para identificar comportamentos agressivos em seus parceiros. E, às vezes, só descobrem que estavam em um relacionamento abusivo quando se tornam vítimas de violência doméstica. Então, como saber se o relacionamento com o namorado, marido ou mesmo um ficante está caminhando ladeira abaixo, rumo à violência física e psicológica?

Um novo game virtual quer ajudar mulheres a identificar esses comportamentos e alertar, também, as pessoas que estão em volta delas e podem acolher mulheres nessa situação.

A ferramenta gratuita, chamada Mobi Game - Enfrentamento à Violência Doméstica, traz, em formato de animação e de maneira lúdica, uma conversa entre duas amigas, Luana e Penha, que falam sobre situações de suas vidas e do cotidiano, com foco em relacionamentos amorosos. Questões como ciúme, violência, mentiras e insegurança são colocadas em evidência.

Após o cadastro, o jogador ou jogadora é apresentado a questões e pode escolher entre duas respostas —uma está certa e a outra errada— e receber cem pontos para cada acerto. O game levanta questões relevantes para entender cinco tipos de violência —moral, psicológica, física, patrimonial e sexual— e, independentemente da resposta, dá explicações sobre o porquê aquele comportamento não é saudável, como denunciá-lo e a melhor forma de ajudar uma mulher que esteja passando por isso ainda que não tenha percebido.

Ideia surgiu por percepção do aumento da violência na pandemia

De acordo com Ana Paula Arbache, fundadora do Coletivo Hub Mulheres, o game foi idealizado em parceria com a ONU Mulheres e a empresa Sodexo On-site Brasil a partir da percepção de suas líderes do aumento na violência doméstica durante a pandemia.

"Muitas mulheres que sofriam violência doméstica neste período passaram a relatar os fatos às empresas. Algumas delas deixaram o trabalho por conta disso. Os relatos são de mulheres que atuam desde a área operacional até a executiva", diz Ana Paula.

De acordo com ela, o jogo pode impactar diferentes gerações de mulheres a enfrentar o problema. "Ele funciona como um simulador de tomada de decisões. Por meio dos resultados, podemos ver o grau de domínio que as pessoas têm a respeito desse assunto e, a partir daí, gerar soluções mais assertivas para enfrentar esse problema".

Ela explica que, durante os testes, o game tem servido a públicos distintos. "Eu tenho acompanhado como o game chega para alguns grupos de WhatsApp com diferentes focos: mães de moças preocupadas com as filhas, para que não sofram e também mães de rapazes, preocupadas que eles possam agredir e sofrer punições. Interessa também a mulheres mais velhas, que querem se educar para ajudar, e homens de meia-idade que não sabem ainda como contribuir e querem indicar para as empresas", explica.

Lilian Rauld, head de diversidade e inclusão da Sodexo, conta que a empresa já tem, há alguns anos, uma plataforma exclusiva para os funcionários e colaboradores, na qual estão descritos todos os tipos de violência, como identificá-los e como agir. "Durante a pandemia, temos recebido vários casos de mulheres sofrendo violência e pedindo nosso apoio. O game é novo e esperamos que sirva também para outros países [a empresa é multinacional]. Por isso, estamos criando também versões em espanhol e em inglês, já que as situações apresentadas servem para todo o mundo."

Quem poderia se beneficiar

Ferramentas como o game poderiam ter ajudado a designer Larissa Marques, 35, a perceber mais facilmente os abusos psicológicos sofridos durante um namoro, em 2014. Foi preciso uma amiga próxima para alertar e dar pistas de que as coisas não iam bem. "Eu não podia ir ao mercado, padaria ou sair do trabalho sem mandar mensagem para ele. Me sentia em dívida. Ir para um bar com amigos, nem pensar!", ela conta.

"Mas não sentia ainda que era abusivo, até que essa amiga começou a me alertar sobre o comportamento dele. E eu, que acreditava ter um discurso feminista desde criança, achei que jamais aconteceria comigo. Com paciência, ela começou a me mandar alguns textos com depoimentos de pessoas que tiveram relacionamentos abusivos e, lendo isso tudo, junto com meu mal-estar pelo controle dele, um dia a ficha caiu", relembra Larissa.

A jornalista Joice Souza* passou pela mesma situação, mas do outro lado, como amiga. "Minha cunhada sofreu por anos violência física e psicológica, mas tinha dificuldade em perceber e agir. Eu e meu marido tentamos de todas as formas ajudá-la, até que o casal teve mais uma briga feia e ela nos deu razão. Colocou ele para fora de casa e se mudou. Foi o segundo caso na vida dela desse tipo. Ambos os namorados agiam de maneira igual e só pararam quando nós intercedemos", lamenta Joice.

Ela acredita que a educação para o enfrentamento da violência contra a mulher deve começar desde cedo. "Se divulgarem o game nas escolas, com adaptações na linguagem, para meninas do fim do ensino fundamental e começo do ensino médio, pode ser muito bom. Já planta uma sementinha nas jovens que, por exemplo, vêem suas mães serem abusadas de todas as formas possíveis. Se elas forem educadas a perceber isso, podem ser aliadas e até salvar as mães. Não que seja responsabilidade delas, porque não é. Mas é uma prevenção e uma possível saída", diz.

"Quem sofre violência não quer ser apontada como certa ou errada"

Apesar de a iniciativa ser positiva e jogar luz sobre o assunto, tanto Larissa quanto Joice apontaram a necessidade de melhorias no game. "A avaliação por pontos não é bacana. Mesmo que seja um game, o propósito é acolher e educar, certo? Quem sofre violência doméstica não quer ser apontada como certa ou errada, isso pode tornar tudo pior", diz Larissa.

"Acredito que o game pode contribuir muito, tanto para aumentar o conhecimento das pessoas sobre a violência doméstica quanto para servir como ferramenta na hora da abordagem. Mas alguns pontos podem ser melhorados como não pedir tantos dados ou foto no cadastro, por causa da possível exposição de alguém já em situação de vulnerabilidade. Poderia também incluir endereços de coletivos ou órgãos públicos que ajudam e protegem as mulheres que estejam nessa situação", sugere Joice.

* O nome foi trocado, a pedido, para preservar a identidade da entrevistada.