PUBLICIDADE

Topo

Como em "Bom Dia, Verônica": "Meu marido é policial e me ameaça com arma"

Brandão (Eduardo Moscovis) e Janete (Camila Morgado) na série "Bom Dia, Verônica" - Suzanna Tierie / Netflix
Brandão (Eduardo Moscovis) e Janete (Camila Morgado) na série "Bom Dia, Verônica" Imagem: Suzanna Tierie / Netflix

Camila Brandalise

De Universa

25/10/2020 04h00

Nas primeiras cenas do casal Janete (Camila Morgado) e Brandão (Du Moscovis) na série "Bom Dia, Verônica", da Netflix, a impressão que se tem é a de ele ser um marido atencioso e amoroso. Aos poucos, a relação vai se descortinando: ele a agride, física e psicologicamente, e, de maneira sutil, mina a coragem dela de sair da relação. Ele é um policial militar. Sempre com uma arma na cintura, não precisa verbalizar uma ameaça para Janete entender que corre risco de ser morta caso o desobedeça. Com sua farda, é visto como um homem justo. E ela se vê refém de uma situação, sem ter para onde fugir.

O roteiro de Raphael Montes, baseado no livro homônimo do mesmo autor, também é assinado por Ilana Casoy, Gustavo Bragança, Davi Kolb e Carol Garcia. É tão real que chega a surpreender. Mulheres casadas com policiais agressores relatam passar por situações muito parecidas com as cenas vividas por Janete: o medo de ter uma arma de fogo tão próxima, a imagem de herói que o marido constrói diante dos outros, o receio de ir até uma delegacia para denunciar e o marido descobrir, expondo-a ainda mais.

Universa ouviu três mulheres que vivem situações como a da personagem.


"Ele disse que, se for preso, manda me matar de dentro da cadeia"

"A gente demora um tempo para perceber que é vítima de violência doméstica. Estou com essa pessoa há 15 anos e, no primeiro ano da relação, ele me agrediu porque eu insisti que ele fosse jantar comigo no Dia dos Namorados. Ele não queria porque disse que ficaria com o filho. Nesse dia, ele já me ameaçou de morte com uma arma.

Ele foi policial civil por muitos anos e está afastado, mas não sei exatamente por quê. É ainda mais difícil para mim: ele tem porte de arma, anda armado até hoje, conhece todo mundo da polícia e, inclusive, criminosos. Sempre teve boa relação com os colegas e com as pessoas das comunidades que frequentava. Já me disse que, se eu o denunciar e ele for preso, manda me matar de dentro da cadeia.

Depois dessa agressão, minha ideia era conseguir terminar a relação. No dia, pedi mil perdões por eu ter estressado ele, disse que não ia contar para ninguém que ele me agrediu, que não ia falar nada. Cumpri minha palavra e me calei. Tentei me afastar, mas não consegui. Quando ele percebia que eu estava me afastando, vinha atrás. Eu gostava muito dele e dei mais uma chance.

Passaram-se anos e isso não se repetiu. Mas havia outros sinais que, hoje, pra mim são mais claros, de às vezes ser mais estourado, sempre muito ciumento, possessivo e controlador. Mas para mim, por muito tempo, era só ciúme. Minha família adorava ele, tratava como filho. Eu não conseguia enxergá-lo como um agressor.

Meu relacionamento com ele sempre foi focado em ciúme, obsessão, controle. Sofria agressões verbais o tempo todo. Aguento há anos ser chamada de vagabunda. Encontrei uma carta que mandei para ele há dez anos dizendo: 'Olha, não dá mais, não tem como continuar uma relação em que não há respeito, você me ofende', eu escrevi.

Foram vários términos e várias conversas, para tentar resolver. Mas a gente começou a se desentender muito, e ele sempre me chamando de vagabunda, dizendo que eu não prestava.

Nos últimos anos, sempre que havia um desentendimento, ele me agredia ou ameaçava. No jantar, se eu colocasse minha opinião em um discussão, ele largava o prato. Voltava com a arma na mão dizendo: 'Eu vou matar você'. Fora a tortura psicológica. Ele tem toda uma técnica de guerra, por ser policial, para isso.

A situação só piorava. Um dia ele tentou me jogar pela janela do 20º andar. Já pegou caco de vidro de copo e disse que ia cortar meu rosto. 'Porque assim você não vai mais ser bonitinha, quero ver você ser folgada quando estiver deformada'.

Tomei chute, soco. Uma vez me deu uma rasteira entrando no elevador. Já tomei coronhada, já tive arma enfiada na boca. Ele já tentou me atropelar, já bateu o carro dele no meu.

Não tenho coragem de ir para a delegacia porque ele anda armado. Ele repete até hoje que se eu fizer um boletim de ocorrência, me mata na porta da delegacia. Denunciar não é mais uma possibilidade. Meu celular é clonado. Meu carro é rastreado. Quando mudo minha rota, ele pergunta: 'Oi, está tudo bem?'.

Já procurei ajuda com advogada, gente que já lançou livro de violência doméstica, psiquiatra, psicóloga, nada funcionou. Ainda faço terapia e passo uns dias da semana em outra cidade para cuidar de uma empresa que temos juntos. A maneira como vivo hoje, nesse ambiente controlado, é a única para continuar viva.

Uma vez, procurei uma assistente social e ela me sugeriu ir embora do país. Mas eu não sou bandida, e nem tenho para onde fugir. Parece fácil para quem está de fora falar: 'Foge, se reconstrói'. Mas é muito difícil. Eu tenho uma empresa, as economias da minha vida estão lá dentro.

Quis contar minha história porque é muito doloroso viver isso sozinha. A gente sente muita vergonha, me culpo, não tenho mais o que fazer.

Queria poder dizer que tenho esperança de reconstruir minha vida, conhecer outra pessoa. Já tive. Muita. Hoje não tenho mais."

Maria [o nome da vítima foi alterado e as informações sobre idade, profissão e local em que vive foram suprimidas para não colocá-la em risco, pois ela ainda vive com o agressor]

"Toda vez que vejo um policial militar, eu choro"

"Consegui me separar dele há quatro meses, mas ainda tenho muito medo. Depois de tudo que eu passei, sinto que o fantasma dele habita em mim. Ele é policial militar e, toda vez que eu vejo um, choro.

Estávamos juntos há nove anos. Ele sempre foi uma pessoa calma. Um dia, achei que minha filha de dois anos estava com um comportamento diferente e falei com ele sobre o tratamento que ele dava a ela, sua enteada. Questionei se ele havia praticado algum abuso contra ela. Ele disse que não. Mas, depois dessa conversa, começou um inferno.

Ele começou a ter ataques de raiva, quebrava objetos pela casa. Primeiro me intimidava e depois passou a fazer ameaças graves de morte falando que meus filhos ficariam órfãos — tenho duas crianças, uma menina de outro pai e um menino, filho dele também. Ele repetia que não sabia por que não sacava a arma naquele momento e me dava um monte de tiros.

O fato de ele ser policial dificultou muito. Ele é mais forte do que eu e, quando me ameaçava de morte, estava com uma arma na cintura. Quando cogitei procurar as autoridades locais, desisti porque pensei em todos os lugares da nossa região a que ele tem livre acesso. Tem contato com Conselho Tutelar, faz operações conjuntas com a polícia civil. Não é que esses órgãos não sejam isentos, sei que existem muitos servidores dispostos a trabalhar com isenção, mas o acesso que ele tinha a todos os lugares era intimidador. Ele também tinha superioridade financeira, pois na época eu só era dona de casa.

Ele me cercava, vivi uma espécie de cárcere. Não saía sozinha, ele não queria que eu dirigisse. Me deixava sem dinheiro algum, não tinha como pagar um vale-transporte para fugir, ir a uma delegacia. Os olhos dele estavam sobre mim.

O processo de separação foi assustador. Um dia, ele decidiu sair de casa. Voltou um tempo depois para buscar suas coisas. Quando chegou, voltou a me ameaçar de morte. Gravei o que ele dizia e me tranquei no quarto, rezando para ele não atirar em mim. Estava tão desesperada que liguei para a polícia sem nem pensar se ia adiantar ou não, pelo fato de ele ser policial. Ele foi preso em flagrante quando mostrei as gravações. Consegui uma medida protetiva, mas ele não ficou preso nenhum dia. Saiu da delegacia pela porta da frente. Pelo menos, nunca mais me procurou."


Regina, 27, assistente administrativa [nome alterado a pedido da entrevistada], de Curitiba

"Ele disse que nem adiantava denunciar porque processo contra policial não dá em nada"

"Hoje faz 22 anos que vivo com ele, é meu segundo casamento. No começo, ele era muito cortês, fazia eu me sentir uma rainha. Mas, aos poucos, começou a minar minha autoestima, me ofendendo e humilhando, e me afastando de todos.

Ele me agrediu fisicamente pela primeira vez há 15 anos. Pedi para ele parar o carro para eu comprar cigarro e ele não parou, fingiu que não ouviu. Em casa, discutimos e ele começou a me bater. Fui para o hospital de tão mal que fiquei. Na época, tinha medo de atrapalhar a carreira dele e de eu ser condenada pela família. Achava que a culpa era minha por ter apanhado.

Depois disso, ele nunca mais me bateu. Mas a humilhação psicológica é constante. Me faz várias ameaças, que comecei a gravar. Não conto o que ele falou porque tenho medo de me expor e ele me reconhecer aqui e acabar cumprindo as ameaças.

Já disse que ia denunciá-lo e lembrei da vez que me bateu. Ele disse: 'Ah, para policial isso não dá em nada. Tem 500 processos contra policiais, vai ser só mais um'.

Passei a me sentir uma refém das agressões dele. Não tenho renda, estou afastada de amigos e família. A única coisa que me ajuda hoje é um grupo de estudos bíblicos do qual participo. Me alivia, fica mais fácil carregar esse fardo.

Quando digo que vou embora, ele me humilha. Fala que não tenho nem roupa para ir, que não tenho dinheiro. Mas aqui em casa repete o tempo todo: 'Quem manda sou eu'. Diz que tudo é dele, que as regras são dele.

Me sinto um lixo, cheguei a ponto de acreditar que eu realmente não valia nada. Eu perdi um filho há nove anos, morreu assassinado num assalto. Era do meu primeiro casamento. Um mês depois eu estava chorando, ele veio e disse: 'Mas você ainda está chorando, já faz um mês que ele morreu'.

Quando o conheci, ele era um príncipe, me encantou com seu sorriso. Acho que insisti nessa relação porque queria ver aquele sorriso de novo.

Sofri uma violência que foi deteriorando a minha alma. Ele foi me manipulando para que ficasse sem convívio social: ou iria onde ele quisesse, ou não iria para lugar nenhum. Não me sinto livre e não sei o que fazer. Por enquanto, só estou tentando fazer com que a agressividade dele não me atinja."


Raquel, 58, aposentada [nome alterado a pedido da entrevistada], de Osasco (SP)