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A agricultora que sonha com revolução feminista na produção de alimentos

A agricultora Vânia Maria de Oliveira - Arquivo Pessoal
A agricultora Vânia Maria de Oliveira Imagem: Arquivo Pessoal

Mariana Costa

Colaboração para Universa

25/10/2020 04h00

O dia começa cedo na vida da agricultora Vânia Maria de Oliveira, 45, com os cuidados com a terra e os animais no lote onde vive com a companheira e a mãe, no assentamento Liberdade, em Periquito, na bacia do Rio Doce, em Minas Gerais. Quando a reportagem de Universa conversou com ela, era um dia especial, fruto de um momento "histórico", como definiu Vânia, pelo telefone, após reunir-se com as mulheres que vivem e produzem alimentos na região.

Era o primeiro passo para a implementação de uma cooperativa regional com 600 famílias produtoras e mais 380 que aguardam por um pedaço de terra para produzir. Vânia é uma das principais lideranças da região e está à frente de projetos de recuperação ambiental e de empreendedorismo feminino na produção de alimentos.

Implementado por mulheres, seu projeto de agrofloresta foi um dos cinco vencedores entre mais de cem iniciativas inscritas em um concurso nacional promovido pela fundação Renova, criada para gerir a reparação de danos após a tragédia em Mariana, em 2016, em parceria com o Instituto WWF Brasil.

Os sistemas agroflorestais consistem em uma técnica inovadora de cultivo que combina produção diversificada de alimentos, pecuária sustentável e o plantio de espécies nativas da floresta. O projeto foi um dos escolhidos pelo potencial de disseminação e recuperação ambiental da região que, cinco anos depois, ainda sofre os impactos do desastre causado pelo rompimento de uma barragem da mineradora Samarco, na cidade de Mariana. A contaminação da água é o maior desafio para os agricultores da bacia do Rio Doce.

"O meio ambiente dá um retorno tão imediato que ficamos surpresas. Fizemos uma agrofloresta em outro acampamento e lá tivemos que furar 6 metros de profundidade para poder acessar a água. Em apenas dois anos de implantação, a água estava transbordando sobre o solo. Deixamos de ser senhores da natureza e passamos a enxergá-la com todos os seus componentes e cadeias. A terra vai devolvendo o que damos a ela", orgulha-se a agricultora, que tem uma rotina bastante agitada.

Ao lado da companheira, Scarlet, e da mãe, Alcina, Vânia produz banana, cana, mandioca, laranja. mexerica, mamão, abacaxi, hortaliças diversas, e criam galinha, porco e gado. Além de tocar sua própria produção, a agricultora é responsável por planejar e organizar a produção de alimentos das famílias que vivem na região, desde a adoção de técnicas sustentáveis de cultivo até o beneficiamento e a comercialização.

Hoje elas e outras 11 famílias - a maioria chefiada por mulheres - fornecem cestas com a produção local para um grupo de 122 consumidores da vizinha Governador Valadares. Com a pandemia, os alimentos que antes iam para feiras livres passaram a ser vendidos por whatsapp e entregues em casa. O maior desafio é o transporte e elas compartilham um veículo para a entrega das cestas. Amizade, solidariedade, cooperativismo, respeito aos alimentos e à natureza são os valores que têm feito servido de base para um protagonismo crescente das mulheres na agricultura familiar.

alimentos - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Produtos produzidos e vendidos por Vânia
Imagem: Arquivo Pessoal

"As mulheres estão muito presentes no campo e assumindo a tarefa na organização da luta. Isso é muito evidente, são mulheres que estão na linha de frente, participando e assumindo tarefas nos assentamentos. Mas, ainda temos muito limites. Falta ainda um empoderamento de fato para ocupar os espaços de decisão. A gente acaba ficando muito presa na estrutura do cuidado e na produção. Toda decisão que implica a questão financeira, lucro, renda, ainda fica, na maioria das vezes, nas mãos dos homens", analisa Vânia, com a autoridade de quem passou 42 dos seus 45 anos no campo.

A busca de autonomia das mulheres rurais

Para ela, a situação das mulheres rurais não é tão diferente das mulheres urbanas, acumulando jornadas de cuidados em casa, com os filhos e com a lida na terra. "Carregamos uma carga muito grande, essa é a maior dificuldade. Se não enfrentar isso, a mulher não participa. E não eleva sua consciência. A emancipação das mulheres vai vir por nós, não será dada", reflete Vânia.

E foi essa busca por autonomia e o desejo de tornar-se dona do próprio nariz que guiaram sua trajetória pessoal, marcada por dias de luta, mas também dias de glória. Em um enredo comum na realidade do campo, sua família foi removida da pequena propriedade rural em que Vânia nasceu e foi criada, em Alvarenga (MG), para a construção de uma barragem.

Foi um um episódio que marcaria para sempre o destino dos Oliveiras. "Pagaram um valor que não dava pra comprar nem um lote, vivíamos em um lugar muito isolado e não tinha acesso à informação naquela época. Éramos oito irmãos, cinco mulheres e três homens. Meu pai abandonou a família antes mesmo de eu nascer. Acabamos virando sem-terra", lembra.

As dificuldades financeiras e o desejo de conhecer outras realidades falaram mais alto e ela aceitou o convite para trabalhar como empregada doméstica em Belo Horizonte. Aos 20 anos, saiu da roça pela primeira vez e foi trabalhar limpando, cozinhando e cuidando de duas crianças durante cerca de três anos. "Tive a convicção de que não queria viver na cidade, não queria aquela relação de patrão e empregada. Minhas raízes estavam na terra, aprendi a gostar e ter a paz de estar no campo, de ter uma relação direta com a natureza", relembra.

Ao lado dos irmãos resolveu voltar pro campo, em busca de uma vida mais livre. Aos 23 anos, juntou-se a outras 400 famílias do Movimento Sem Terra para ocupar os 21 mil hectares da antiga empresa Acesita Energética, em uma região historicamente marcada por conflitos de terra e exploração predatória dos recursos naturais.

Morava com o irmão e um cunhado em um barraco de lona. Foram tempos difíceis. "Ficamos cinco anos acampados na lona, houve despejos, foi uma luta bem pesada. Houve momentos em que quis desistir e voltar pra BH. Mas eu queria conquistar minha autonomia, queria tocar minha vida, ser dona do meu nariz. Deixei minha mãe pra trás, eu esperava conquistar minha terra pra ir buscá-la", recorda.

Engajamento no MST e conflito na família

Foi no movimento que concluiu os estudos, tornou-se educadora e começou a se engajar na luta dos sem-terra, enfrentando oposição dentro de sua própria família. "A coordenação do movimento me convidou para um encontro no Rio de Janeiro e eu fui". Após cinco anos, trouxe a mãe para viver com ela e se firmou como uma liderança regional.

Naquela época, se relacionava com homens e mulheres, até conhecer Scarlet, com quem vive há seis anos. Novamente enfrentou resistência e preconceito, dentro do movimento e na própria família.

"Sempre tem alguém na família que começa a ficar indiferente, começa a falar que é errado, que é pecado. Não é fácil, principalmente pra gente que é liderança. Hoje consigo ter um respaldo, mas isso me custou muito mais trabalho do que se eu fosse heterossexual. O conservadorismo é muito forte no campo, existe essa questão da tradição da família. No MST e nos assentamentos de um modo geral temos quase todos os mesmos problemas que vemos na sociedade. Temos que ter a humildade de reconhecer isso", analisa.

Vânia vai ganhar R$ 6.000 de prêmio pelo seu projeto de agrofloresta. Ainda não sabe o que vai fazer com o dinheiro, mas faz planos de investir em equipamentos de uso compartilhado que vão permitir a expansão da sua produção e de outras famílias também.

Seu maior sonho é fornecer alimento saudável e sustentável para um número cada vez maior de pessoas e com preço justo e fortalecer a atuação das mulheres que estão à frente da agricultura familiar. Vânia nega de forma enfática o argumento que considera uma utopia a produção sustentável de alimentos em larga escala.

"Provamos que é possível produzir em larga escala tendo cuidado com a vida e com o meio ambiente. Não é possível produzir toneladas de grãos só para lucrar, sem se importar se estão destruindo o ambiente, matando pessoas de câncer, destruindo rios e nascentes, retirando populações nativas. O alimento é um direito de todos e sua produção não pode ser baseada na lógica do lucro. É um absurdo o que estamos vivendo em nosso país", diz.

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